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Paullo Araujo
Novel: Ninho de cobras
Genre: Mystery & Suspense
50,018 words so far   Winner!

About Paullo Araujo

Location: Brazil

Age:51

Website: www.blogdopaulista.blogspot.com

Joined date: October 2, 2007

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Ninho de cobras
an excerpt

Esclarecimentos iniciais

Escrever um romance em trinta dias pode ou não ser uma tarefa fácil. Jack Kerouac, autor de "On the road" – a bíblia da geração beat – espalhou, quando do seu lançamento em 1957, que havia escrito o livro em apenas três semanas. Entrevistado no programa de Steve Allen, um dos talk-shows mais famosos da TV americana, ele garantiu que havia passado “sete anos na estrada” e levara apenas “três semana para escrever tudo”. O apresentador rebateu afirmando que, se por acaso passasse três semanas na estrada, precisaria de sete anos para escrever o livro.

A versão original de "On the road" de fato havia sido escrita entre 9 e 27 de abril de 1951 num rolo de papel para telex, num total de quarenta metros ininterruptos de prosa em espaço um sem parágrafo, com Kerouac aditivado por doses colossais de benzadrina, suando uma camiseta atrás da outra, datilografando como um alucinado doze mil palavras quatorze horas por dia, movido por aquilo que o poeta Lawrence Ferlinghetti certa vez chamou de “febre onívora de observação”.
Este é um dos muitos mitos que envolvem o livro.

Mário de Andrade conta que escreveu "Macunaíma" em apenas seis dias, deitado, bem à maneira de seu herói, numa rede na chácara de Sapucaia, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, durante umas férias. Diz ainda: “Gastei muito pouca invenção neste poema fácil de escrever(...) Este livro afinal não passa duma antologia do folclore brasileiro”.

Esse dois exemplos, entretanto, são exceções à regra, o que significa dizer que escrever um romance pode ser um longo e, muitas vezes penoso, trabalho de pesquisa, recheado de anotações e páginas e mais páginas de textos escritos, mas não aproveitados na edição final.

Scott Fitzgerald, escritor americano autor, entre outros de "O grande Gatsby", morreu subitamente, vitimado por um ataque cardíaco, em 21 de dezembro de 1940, um dia após escrever o primeiro episódio do sexto capítulo de "O último magnata". O livro publicado após sua morte era um rascunho feito pelo autor, após consideráveis revisões, não se configurando de modo algum como uma versão final. Uma das edições, com prefácio e edição de Edmund Wilson, foi lançada pela L&PM Pocket em 2006. Era composta pelos seis capítulos escritos ainda como rascunho por Fitzgerald e complementada por notas diversas deixadas pelo autor. Ler este livro é um exercício interessante para que se possa compreender todo o processo anterior à publicação de uma obra literária.

Paulo Araujo, este ainda desconhecido autor que vos fala, levou praticamente dois anos para escrever seu livro de estréia "Cartas marcadas". Resumindo: escrever um livro em tão curto espaço de tempo é algo improvável para a grande maioria dos escritores, sejam eles conhecidos, desconhecidos, talentosos, obscuros, criativos, formais, de vanguarda ou clássicos.

Dito isso, deixo claro que o que virá daqui para frente não se trata de uma obra acabada (se é que acabará neste curto espaço de tempo...), mas um rascunho do que virá a se tornar um livro num futuro espero não muito distante. Não estranhem, portanto, cortes bruscos, interrupções e anotações durante a narrativa. Elas são necessárias para que o autor não perca o fio da meada e serão feitas na maioria das vezes de forma a não entediar o leitor e sim aguçar-lhe a curiosidade.

Sendo assim, mãos à obra que só temos mais vinte e nove dias!
Prólogo

Todo mundo sabe o que é sonho, tanto que ninguém perde tempo com explicações. Mas e se perguntarem seriamente o que é o sonho? Vejamos, primeiramente, o que dizem os dicionários:
seqüência de fenômenos psíquicos(imagens, atos, idéias, etc.) que involuntariamente ocorrem durante o sono; coisa ou pessoa vista ou imaginada durante o sono; devaneio, fantasia, ilusão, utopia; desejo, aspiração. Pensar em sonho nos leva quase que automaticamente a pensar em pesadelo e, assim, lá vamos nós novamente ao dicionário: sonho aflitivo com sensação de angústia, de opressão; sonho mau; obsessão que amedronta; pessoa, coisa ou pensamento que importuna, molesta ou preocupa de maneira desagradável.

César nunca havia pensado seriamente sobre isso. Até que um dia veio a César o que é de César...

Capítulo 1

O fogo era intenso, infernal e sufocante. Piorou assim que ele chegou. Labaredas crepitavam à sua volta, fagulhas dançavam no ar em meio à fumaça que empestava o ambiente. Seus olhos, porém não demonstravam a menor irritação; moviam-se sem parar, vasculhando cada centímetro daquele cenário dantesco. Seu rosto impávido, circundado por sombras escarlates, reflexos rubros e saliências encarnadas fixavam um ponto definido na imensidão do ambiente enclausurado. Tudo deserto, nenhum som, só o calor e as chamas trepidantes. A impressão era de estar no interior de uma caverna, contudo, a vastidão do local mostrava que jamais poderia tratar-se de uma gruta. Não carregava bagagem, muito menos roupas, apenas a do corpo. Como nada acontecia, tomou a iniciativa de caminhar, quem sabe encontraria algum hóspede antigo que pudesse orientá-lo sobre o que fazer ou como se comportar? Sentiu-se desprestigiado pois tudo indicava que a alta direção não havia demonstrado nenhum interesse por ele.

Caminhou com dificuldade pelo chão irregular, de onde se desprendia um calor intenso. Tropeçou repetidas vezes em pedaços de pedras queimadas e outras em brasa pura. Embora descalço não sentia nenhum desconforto físico. Avistou vultos ao longe, alguns caminhavam solitários, outros permaneciam parados formando assim pequenos grupos isolados. Apertou o passo, mas antes de atingir os primeiros cinqüenta metros esbarrou em um senhor que estava de costas para ele e de frente para a infindável e ardente parede. Sem se mover e mantendo-se de costas, o estranho dirigiu-lhe a palavra como se já o conhecesse.

- Chegaste! Já não era sem tempo!Estás preparado?

Sem aguardar resposta, o homem virou-se e encarou-o firmemente. Era velho, cabelo e barba longos. Trazia uma coroa na cabeça, um manto largado sobre uma vestimenta típica de habitantes do deserto e os dedos repletos de anéis.

- Onde estou? – perguntou o visitante.

- Não finjas surpresa, todos sabem para onde estão quando chega a hora. Vamos indo, não tenho tempo a perder com explicações! No começo ainda fazia isso; aliás, no começo ele mesmo comparecia em pessoa para recepcionar os novatos. Depois de tanto tempo e de tantos hóspedes célebres, perdeu o interesse e dispensou seus cuidados de cicerone. Hóspedes chegaram em levas descomunais neste último século, tornando o trabalho de prospecção quase que desnecessário. Hoje em dia ele não precisa mais de tanta astúcia para atrair novos hóspedes. Aquela dedicação toda dos primórdios quando tentou por sete vezes seguidas atrair o filho do seu maior concorrente é coisa do passado. Os investimentos em marketing também caíram bastante no último século. Vamos indo, rapaz, temos muito a fazer ainda hoje. A propósito, já pensastes no que dizer ao ser recepcionado pela Comissão de Frente?

- Comissão de Frente? Não sabia que existia nada disso, não me disseram nada a respeito.

- Esse é o mal, querem saber de tudo com antecedência... A Comissão de Frente foi criada a menos de um século e foi inspirada em uma festa pagã da qual, dizem, nosso diretor-presidente é patrono. Ele selecionou doze hóspedes célebres, baseado no rol de boas intenções de cada um deles. Esse grupo sofre alterações de tempos em tempos. A formação atual está em vias de mudanças devido às disputas internas, às divergências entre seus membros e às novas promessas que estão surgindo, mas que ainda não desceram. E são tantas! Uma em especial está merecendo a atenção dele. Derrubou, numa tacada só, duas enormes torres, símbolo do império atual. Dizem que é um forte concorrente, mas há controvérsias. Para alguns, o dono das torres tem um currículo muito melhor.

- E por que doze?

- Simplesmente porque o concorrente maior há quase dois mil anos também criou um time de doze para globalizar seu nome. Pura questão de marketing, meu jovem! Mas, e quanto à minha pergunta, já pensou no que dizer para a Comissão de Frente?

- Não, na verdade nem sei por que vim parar aqui.

O velho soltou uma sonora e inesperada gargalhada, fazendo saltar pela boca pequenas pelotas incandescentes que foram consumidas em poucos segundos em meio à atmosfera escaldante.

- É o que todos dizem... Eu mesmo fui um deles, logo que cheguei tentei manter essa malograda postura de bom mocinho. Durou pouco, qualquer falsa impressão de bons antecedentes tem vida curta aqui dentro. Todos vêm para cá porque tem de vir, não há enganos, mal entendidos, nada disso. Todas as máscaras são incineradas ao cruzar o portal principal e não sobra mais nenhum espaço para o fingimento. Percebi logo isso, assim como você também perceberá e me libertei para sempre das máscaras. Foi assim que cheguei a membro da Comissão, por sinal, o mais antigo. Na época me justifiquei dizendo que tudo o que fizera até chegar aqui fora por boa intenção. Esse discurso foi se repetindo por séculos e séculos, pelas mais variadas bocas, de modos que podemos dizer que o que não falta aqui são seres bem intencionados.

O velho retomou a caminhada, conduzindo o visitante pelos caminhos tortuosos e sombrios. À medida que caminhavam o neófito percebeu como as distâncias ali eram ilusórias. Os vultos que pareciam estar próximos, na realidade, estavam a quilômetros. Todo o caminho tinha de ser feito a pé, pisando em brasas e cheirando enxofre. Depois de quase três horas de caminhada avistou um grupo em posição de sentido. Eram as sentinelas do portal da Comissão de Frente, soldados sem rosto e com olhos de fogo.

Depois de ouvir a senha as sentinelas permitiram que eles cruzassem o portal de fogo montado em um batente de rochas vulcânicas. Ao ultrapassá-lo o visitante percebeu que estavam numa espécie de recinto fechado por chamas mais intensas do que as que tinha visto até ali.

Era chegada a primeira hora da verdade, a inquirição pelo grupo dos doze, para definir se ele realmente ficaria ali ou seria jogado num limbo para ser julgado pelas próximas gerações. Tudo dependia das suas boas intenções.

Apesar das chamas, o ambiente estava repleto de penumbras que impossibilitavam a identificação das faces já inquietas dos membros da Comissão de Frente. O velho fez uma pequena introdução antes das apresentações. O recinto era ocupado por uma grande mesa em forma de “U”, em volta dela sentavam-se os membros da Comissão. No centro do “U”, uma cadeira de pedra ardente.

- Como já era esperado, senhores, aqui está ele. Chegou um pouco atrasado, apesar de não ter nenhum motivo para isso. Pela minha experiência, creio que o atraso foi provocado pela sua própria incerteza se estava se dirigindo para o local adequado. Incerteza essa bastante comum para a maioria absoluta dos que aqui chegam, mas, jamais sentida por qualquer um de vós. Como de praxe vou apresentar-vos pelos seus primeiros nomes. Ele que busque identificar-vos pela memória fresca que ainda traz lá de cima. Assim sendo, meu jovem, olhe bem para cada um deles enquanto eu pronuncio seus nomes.

Terminada a apresentação, o velho conduziu-o até a cadeira de pedra, ordenou que sentasse e instalou-se, ele próprio na grande mesa. As labaredas em volta deles mudaram de tom, escurecendo mais ainda as doze faces misteriosas. Todos, sem exceção aguardavam o pronunciamento do recém-chegado, incomodamente sentado na cadeira de pedra, de onde podia sentir o olhar penetrante de todos eles. Pela primeira vez desde que chegou ali, sentiu medo.

- E então, não vás falar?

- Terminada a frase, as labaredas se intensificaram, o calor triplicou, os olhares cresceram nas faces recobertas pelas sombras... Foi aí que eu acordei com o corpo todo suado, os olhos irritados e uma terrível dor de cabeça. O quarto estava totalmente escuro, a energia elétrica havia acabado. Devia ter chovido, não me lembro, eu estava ofegante, a garganta seca. Tudo em mim parecia estar seco. Senti vontade de gritar, mas fiquei calado, respirando baixinho e ouvindo o barulho do vento lá fora. Retomei aos poucos a noção do tempo e do espaço e só então levantei e tomei um copo de água.

- Incrível, Cesar, que pesadelo mais doido!

- O pior não é isso. Já é a quarta vez que eu tenho esse sonho, igualzinho, com todas as cores e sons. Já decorei todas as falas e elas ficam se repetindo na minha cabeça mesmo quando estou acordado. É irritante, não consigo me concentrar em nada do que estou fazendo, tenho de parar constantemente, sair pra tomar um ar, relaxar... Estou preocupado, com medo de dormir, por isso liguei pra você, precisava falar com alguém...

- Fez bem, o problema é que eu nem sei o que dizer. Nunca ouvi nada tão pirante, você tem certeza que foi o mesmo sonho? Às vezes a gente tem a impressão de já ter sonhado uma coisa, mas pode ser outra parecida, sei lá...

- Não, esse é o tipo do sonho que a gente não esquece nem na primeira vez, quanto mais na quarta! A droga é que eu não tive nem uma trégua, quatro noites seguidas! O mesmo sonho quatro noites seguidas, você acredita?

- Você não contou pra mais ninguém? Nem pra Telma?

- Tá louco, cara? A coisa já tá feia entre a gente por causa dessa viagem. Ela não aceita de jeito nenhum, diz que eu não tenho nada o que fazer em São Paulo, quanto mais viajar de caminhão...

- Bom, nisso aí eu concordo com ela. Por que você não vai de ônibus?

- Olha aqui, Serjão, não estou a fim de discutir isso de novo. Amanhã cedinho eu pego a estrada, só espero que essa porra desse sonho não apareça de novo!

- Se eu fosse você dava um tempo, acertava a situação com a Telma e depois viajava numa boa. Vai largar a garota sem entrar num acordo com ela?

- Mas com ela não tem acordo, ela acha que eu não tenho que ir e pronto, não quer nem saber de discutir o assunto. Sei lá o que passa na cabeça dela, deve estar pensando que eu vou fugir, que estou querendo ir pra São Paulo de uma vez, que não quero mais ficar com ela, essas coisas de mulher, você sabe...

- Pra mim o negócio é mais sério. Eu também não estou entendendo essa viagem aí de última hora. Você já parou pra pensar? Sair daqui de Araguaína, quase no Maranhão, e despencar em São Paulo de carona com um caminhoneiro que você mal conhece? Você tem idéia da maluquice que tá inventando?

- Claro, não estou fazendo nada de bobeira. O Valdomiro não é um desconhecido, é caminhoneiro dos bons, tem caminhão novo, bem cuidado, é experiente...

- Mas você não, nunca saiu do Tocantins... E depois, tem esse lance aí dos sonhos. Não é melhor resolver isso primeiro? Olha só seu estado, parece que está uma semana sem dormir!

- Isso aí não é problema, já já eu resolvo...

- E a Telma?

- O que é que tem ela?

- Não vai contar nem o sonho pra ela?

- Não, a gente nem vai se ver mais antes da viagem. É melhor assim, se a gente se ver antes vai ser outra briga e eu não estou mais a fim de brigas...

- E o nosso projeto?

- A gente continua quando eu voltar, vou ficar só uns dez, quinze dias fora, qualquer coisa você me liga no celular. Lá pelas quatro da manhã, o Valdomiro vai passar por aqui pra me pegar.

- Por falar nisso, onde você conheceu esse cara? Você nunca me falou dele.

- Ele é amigo do meu pai. Vivia sempre lá em casa quando não estava na estrada. É gente boa. Desde quando eu era moleque ele dizia que ia me colocar na boléia do caminhão e eu ia conhecer o Brasil de verdade. Eu gostava da idéia, mas meu pai não queria nem ouvir falar no assunto. Agora eu já estou bem grandinho pra decidir.

- E esse sonho aí, me fala mais dele.

- Falar mais o quê? É sempre do mesmo jeito, como se fosse um filme que eu visse todas as noites.

- Você diz que vê um cara caminhando com um velho num lugar que pra mim deve ser o inferno, quem é esse cara?

- Não sei, mas também acho que está na cara que eles estão no inferno. Tem horas que eu penso que esse cara sou eu mesmo. Quando estou sonhando e sinto isso mais intensamente, eu acordo. Volto a dormir e o sonho recomeça, do mesmo ponto onde havia parado e sempre igual.

- Você tem alguma idéia de quem são esses doze membros dessa comissão de frente?

- Nenhuma, não dá pra ver direito, eles estão sempre na sombra. O velho que leva essa pessoa até eles parece ser um personagem bíblico, talvez um rei da Galiléia, da Palestina, Israel, sei lá! Do lado esquerdo dele, na mesa, fica um cara de estatura média, cabelo oleoso caindo na testa, olhar carregado de ódio; do lado direito, um outro bem mais baixo e magro, orelhas enormes e olhos de águia em corpo de rato. Os dois parecem ser os líderes da comissão, ou, pelo menos, exercem grande influência sobre a maioria deles.

- Você não acha melhor procurar um médico?

- Pra quê? Quem sabe quando eu pegar a estrada tudo acaba...

- Acho melhor não brincar com isso...

- Esquece vai! Vamos dar uma repassada aí nas coisas, aproveitar o pouco tempo que eu tenho antes de viajar.

CAPÍTULO 2

A tarde avançou e os dois rapazes continuaram conversando, parando apenas para consultar papéis espalhados sobre a mesa, além da pequena tela de um notebook permanentemente ligado. Assim que a noite chegou eles saíram de moto, Serjão no volante e César na garupa. Rodaram a cidade e pararam no centro para comer alguma coisa. Durante o jantar, a conversa continuou centrada no sonho de César, na viagem e na namorada. Discutiram em vários momentos, dando a impressão a todos que estavam na lanchonete que chegariam a brigar, porém, as desavenças se desfizeram na mesma velocidade em que começaram e eles ficaram um bom tempo calados. Quando estavam se despedindo, César pediu ao amigo para emprestar a moto, precisava dar umas voltas, colocar a cabeça em ordem. Serjão concordou, desde que ele prometesse não fazer nenhuma besteira.

Depois de deixar o amigo no alojamento da universidade, César acelerou fundo e saiu sem rumo. Sentia uma solidão tremenda e uma vontade de não voltar logo para casa, adiar ao máximo a hora de dormir. Passava das dez e meia da noite de segunda-feira quando ele parou a moto próximo ao Cristo Redentor. A grandiosa réplica da estátua do Corcovado, toda iluminada, abria seus braços na direção da cidade que se descortinava em meio ao cerrado e à floresta. Ao pé do Cristo, sentado na grama, ele pôs-se a refletir sobre o que estava prestes a realizar. A noite estava bonita, quente como na maioria do ano, mas amenizada pela brisa gostosa que batia ali pelos lados do Brejão. César se aninhou ali aos pés do Cristo e repassou todos os acontecimentos da última semana, seus planos de viagem e todas as artimanhas para manter-se afastado de Telma até o momento de embarcar naquele caminhão.

Também conhecida como a “Capital do Boi Gordo”, Araguaína é uma cidade de mais de cem mil habitantes, localizada no norte do estado do Tocantins. Considerada um pólo de negócios tanto para o Tocantins como para o Maranhão e o Pará, a cidade surpreende os visitantes desavisados. Referência regional em educação, possui nada menos do que três universidades, a Federal do Tocantins, a Universidade Católica e o Itpac, que atraem jovens de todas as regiões do país.

Os índios da tribo dos Carajás foram os primeiros habitantes da região compreendida entre os rios Andorinhas e Lontra, afluentes da margem direita do Araguaia, onde se formou o povoado de Lontra. Ainda hoje os remanescentes dos Carajás habitam as margens do Araguaia, numa pequena reserva sob orientação da Funai. Com a chegada de João Batista da Silva, em 1876, procedente de Paranaguá, no Piauí, teve início o desbravamento do futuro município. Ele veio com sua esposa e seus filhos, entre os quais Tomás Batista, a quem muitos atribuem, erroneamente, a fundação do município.

A família fixou-se à margem direita do Rio Lontra, num local batizado de “Livre-nos Deus”, por causa do temor permanente do ataque de índios e animais selvagens que habitavam a região. Em pouco tempo chegaram outras famílias, dando origem ao povoado de Lontra. Esses primeiros colonizadores dedicaram-se inicialmente ao cultivo de cereais para a própria subsistência e, posteriormente, ao plantio do café com objetivos mais lucrativos. O café acabou sendo a atividade predominante até que, por dificuldades de escoamento da produção pela ausência total de estradas, ele foi abandonado. Por essa época o povoado de Lontra pertenceu ao município de São Vicente do Araguaia, atual Araguatins. Anos mais tarde passou para o município de Boa Vista do Tocantins, hoje, Tocantinópolis.

Com a chegada de outras famílias, foi erigido em 1925 o templo católico dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Em 1949 o povoado de Lontra integrou-se ao recém-criado município de Filadélfia, tendo seu nome alterado para Araguaína, por causa do Rio Araguaia. Uma lei municipal de 20 de julho de 1958 autorizou o desmembramento do então distrito de Araguaína e fixou seus limites. O município de Araguaína foi criado no dia 14 de novembro do mesmo ano e instalado em 1º. de janeiro de 1959.

O desenvolvimento econômico-social do município começou a partir de 1960, com a construção da Rodovia Belém-Brasília. De 1960 a 1975 Araguaína atingiu um estágio de desenvolvimento sem precedentes na história do estado de Goiás. No período de 1980 a 1986 foi considerada a quarta cidade do Estado, perdendo apenas para Luziânia, Anápolis e Goiânia.

O movimento de emancipação do norte do estado de Goiás vem de longa data, mas somente nas décadas de 1970 e 1980 ele ganhou força no Congresso Nacional. O apoio decorreu em grande parte do consenso sobre a necessidade de acelerar a ocupação dessa região localizada na divisa do Maranhão e do Pará, numa região conhecida como “bico do papagaio”, palco de violentos conflitos pela terra, iniciados na década de 1960. O então deputado Wilson Siqueira Campos tanto insistiu que a Constituinte de 1988 acabou criando um estado só para ele. O estado do Tocantins foi criado em 5 de outubro de 1988, por disposição da nova Constituição Federal. Siqueira Campos foi governador do novo estado por três vezes, mantendo-se no posto durante onze dos dezenove anos da história do Tocantins.

Nessa época Araguaína era a maior cidade e pretensa capital do Tocantins. Não foi escolhida devido a fatores geográficos, sociais e políticos. Pesou bastante na escolha a influência do então presidente José Sarney que não via com bons olhos uma capital de Estado perto da cidade de Imperatriz, no Maranhão, pois com a existência dessa capital, Imperatriz acabaria com o seu crescimento de muitos anos. José Sarney impôs a Siqueira Campos a escolha de outro lugar do novo estado e, assim, foi criada a cidade de Palmas, em 1989, a “Capital do Futuro”. A Araguaína restou o título carinhoso de “Capital Econômica do Estado”, por ser ela de fato a principal força econômica do Tocantins.

César foi um dos milhares de jovens atraídos pelos recursos universitários de Araguaína. Deixou a cidade de Picos, no Piauí, depois de ser aprovado na Universidade Federal de Tocantins onde vive junto com outros migrantes das mais variadas regiões do país. Há três anos na cidade desenvolveu uma forte amizade com Serjão, vindo de Anápolis, Goiás, e há pouco mais de um ano namora Telma, uma garota da própria cidade. O relacionamento dos dois sempre foi muito conturbado. Filha de uma família de classe média alta, dona de várias propriedades dedicadas à criação de gado, ela jamais revelou à família seu relacionamento com César. Extremamente ciumenta e mimada, a jovem causou no curto espaço de relacionamento amoroso um bom número de situações embaraçosas ao inseguro namorado. Embora César desminta, Serjão desconfia que o recente atrito entre os dois não foi causado apenas pela viagem inesperada. Preocupado com o amigo, uma pessoa introspectiva por natureza, Serjão tentou arrancar um pouco mais do que lhe foi revelado e por causa disso acabaram se desentendo na lanchonete. Pelo menos foi isso que aparentou aos vizinhos de mesa.

Passava da meia noite quando César estacionou a moto dentro do campus da universidade, ao lado do alojamento dos estudantes. Depois de passar a chave por baixo da porta do quarto de Serjão, foi direto para o seu, tomou um banho frio e calmamente começou a arrumar suas coisas para a viagem. Estava cansado, mas prolongou o quanto pôde a ida para a cama. Acertou o despertador para as três e meia e, finalmente, botou a cabeça no travesseiro.

Relutou o quanto pôde para não se entregar ao sono, mas acabou vencido. A escuridão tomou conta da sua mente durante um curto espaço de tempo. Voltaram, em seguida, as labaredas, o recinto cercado por paredes de fogo e no meio dele a grande mesa em forma de “U”, o assento ocupado pelo recém-chegado, à espera do longo interrogatório que seria feito pelos membros da Comissão de Frente. Para a surpresa do interrogado, a grande mesa parecia deserta, sem nenhum sinal dos doze sinistros ocupantes. Ele levantou-se com cuidado e olhou a sua volta para certificar-se que estava realmente sozinho. Só viu chamas, mas agora elas já não tinham a mesma intensidade. O tom quente e avermelhado também se desvaneceu, dando lugar a um cinza sem vida. Ele reparou, então, que já não estava mais naquele lugar escaldante e sim numa estrada deserta, de terra batida, numa região distante de qualquer zona urbana. Era madrugada e fazia frio. Enquanto caminhava solitário pela estrada deserta ele olhou para o céu, atraído pelo ruído de uma espécie de máquina, ou melhor, de várias máquinas bem distantes. Eram sons de motores, porém nada havia no céu. O barulho foi ficando mais intenso e mais próximo e ele identificou o som de aviões e logo em seguida eles apareceram nitidamente no céu. Aviões de guerra passaram velozmente sobre sua cabeça e, quando começavam a desaparecer no horizonte ele ouviu nitidamente o barulho de bombas. O chão principiou a tremer como se fosse o início de um terremoto. Ele olhou em volta e já não via a estrada de terra. O vento soprava e trazia um cheiro de pólvora e o som inconfundível de tiros e explosões. O céu agora estava pintado de aviões e deles choviam bombas sobre o campo de batalhas que se projetava velozmente em torno dele. A visão que tinha era de um filme em preto e branco feito em uma película desgastada. Tropas recuavam desesperadas, fugindo do aterrador avanço de tanques blindados. Na fuga iam largando tudo pelo caminho, armas, munição, mantimentos. Soldados corriam descontrolados, como se fossem crianças que estivessem tentando defender suas casas de brinquedo do ataque avassalador dos rapazes do bairro inimigo. Civis abandonavam suas casas em chamas e também se colocavam na estrada formando uma fila interminável de homens, mulheres, crianças e soldados desesperados. Atrás deles os tanques em formação nunca antes vista em guerras de grandes proporções. Avançando lado a lado essas terríveis máquinas passavam por tudo que se colocasse em seu caminho. Inconscientemente, ele também principiou a correr a esmo, para todo lado que olhava só via destruição e atrás o avanço intrépido dos tanques esmigalhando tudo com suas rodas de ferro forjado impulsionadas sempre para a frente, seus canos de grosso calibre disparando incessantemente. Foi aí que ele parou, impressionado com a visão das unidades mecanizadas. Por ele passava todo tipo de gente horrorizada, tentando escapar do inescapável, a maioria ferida, deixando o rastro de sangue pelo caminho onde já se amontoavam corpos dilacerados pela artilharia dos tanques infernais, precedidos pela força aérea invasora.

O tempo passava de forma aleatória e ele podia ver não só o que acontecia naquele momento como também o que viria mais à frente. Viu, por exemplo, um regimento inteiro de artilharia se interceptado e esmagado pelos tanques invasores. A imagem que ficou jamais daria a idéia de que aquele estrago todo havia sido feito por tanques blindados e sim por bombardeios aéreos de grande intensidade. Parado, na beira da estrada, sentindo o cheiro putrefato de sangue misturado com pólvora, óleo e carne queimada. Os tanques passaram por ele, altaneiros, como num desfile militar. Ele não entendia por que nada lhe acontecia e por que parou de fugir. Atrás dos tanques surgiram milhares de soldados da infantaria invasora para por fim ao trabalho iniciado pelos aviões, complementado de maneira insofismável pelos terríveis tanques blindados. Mesmo parecendo infindável o movimento do enorme contingente de soldados em ofensiva incontrolável sobre o território inimigo cessou. Em seu lugar ficou o silêncio e o rastro de destruição. Ele caminhou lentamente em meio aos destroços, tentando identificar algum sinal de onde estava afinal. A arquitetura das casas antes da destruição em massa era antiga, assim como os aviões e todas as unidades motorizadas utilizadas no combate. Percebeu, no meio dos destroços, que aquele lugar abrigara campos de pouso, um armazém naval e um depósito de munições. Caminhou mais um pouco, com bastante dificuldade, até avistar uma silhueta entre os destroços esfumaçados do antigo armazém. Da onde estava não conseguia divisar de quem se tratava. Imaginou ser um sobrevivente do ataque relâmpago, mas a posição imponente daquela figura, corpo ereto, cabeça erguida, braços fortes apoiados na cintura, deixavam claro esta impossibilidade. Mesmo sem vontade, sentiu-se caminhando na direção do estranho e, ao aproximar-se, reparou que ele não era nem tão alto, nem tão forte, nem tão imponente, mas extremamente repugnante.

- E então, está gostando? – perguntou o indivíduo asqueroso.

- Do quê? O que tem aqui para eu gostar?

- Da vitória, meu jovem, a razão suprema de todas as guerras!

- Não vejo vitória alguma, somente destruição...

- Não diga bobagens, apenas reverencie a virada histórica que estamos construindo pela força de nossas armas, a grande retomada daquilo que nos pertencia e que nos foi tirado por aqueles que se consideraram os donos do mundo há pouco mais de vinte anos atrás e, às custas de nossa derrota, tirou-nos quase tudo, menos o orgulho e a nossa força como nação. Eles escolheram a guerra e a receberam.

- Eles quem? Que guerra é essa?

- A guerra para acabar com todas as guerras. O mundo ainda não acordou para isso, nos subestimaram e ainda nem perceberam o que tudo isso que se passou aqui representa para o mundo. Não acreditavam que invadiríamos, assim como tiveram a falsa impressão de que resistiriam e foram dizimados, do dia para a noite a maior parte da força militar deles foi massacrada. Enquanto isso nosso exército conseguiu avançar distâncias e ocupar regiões que, há vinte e cinco anos, teria levado quatorze meses para conquistar. Você não viu nada ainda. Sabe quanto tempo levaremos para dominar completamente esse país e recuperar territórios que nos foram arrancados no passado? – o homem esfrega as mãos e aproxima-se cada vez mais dele, procurando fixar seus olhos, apesar da sua baixa estatura – Vinte e oito dias! Uma coisa impensável para todos os analistas internacionais que imaginavam uma guerra prolongada, com, no mínimo, dez meses de duração. Sabe qual o saldo de tudo isso?

- Muitas mortes, eu imagino.

- Sim, mas quase que exclusivamente do lado deles. Setenta mil mortos, entre civis e militares, e cento e trinta mil feridos. Do nosso lado, apenas oito mil mortos e vinte e sete mil feridos.

- Quantas mortes em vão...

- Imbecil! Você não sabe nada, não sabe quanto tempo esperamos por isso e não sabe que isso é apenas o início. Idiota! Você estava achando que ficaria sentadinho naquela cadeira esperando pelas nossas perguntas? Como pode ser tão ignorante! Ignorante ou inocente? Ambas as coisas não têm lugar aqui, não há espaço para o discurso do “eu não sabia”, assim como não há lugar para nenhum tipo de inocência!

- De que você está falando?

- Abaixe-se e você já vai entender! – furioso, o homem saca uma pistola e aponta para a cabeça do jovem – Abaixe-se, eu já disse! Ajoelhe-se!

O rapaz obedece e ajoelha-se num pequeno espaço em meio aos destroços. Ao abaixar-se percebe que não são destroços materiais e sim uma infinidade de corpos dilacerados. O mais próximo dele é o de uma criança com um grande ferimento na cabeça, de onde ainda escorre um sangue grosso e viscoso.

- Beba do sangue dela!

- Eu não posso!

- Pode sim, você é um dos culpados por todas essas mortes. Só o sangue dessas criaturas pode redimi-lo e você vai bebê-lo ou então juntar-se a eles!...

César acordado assustado com o barulho do despertador, ainda ecoando na sua cabeça como se fosse um disparo. Puxa o fio da tomada e só então se dá conta que é hora de levantar. Transtornado com as imagens da menina sangrando na cabeça e a enorme quantidade de corpos mutilados levantando-se em sua direção, ele corre até o banheiro, enfia-se debaixo do chuveiro e deixa o jato de água fria cair sob sua cabeça. Logo mais se encontrará com Valdomiro e, quem sabe, já na estrada esses pesadelos deixarão de persegui-lo.

CAPÍTULO 3

César deixou o quarto do seu alojamento na universidade ainda com a cabeça meio transtornada pelo pesadelo. Fez tudo o mais rápido que pôde, juntou às costas a pesada mochila com os pertences para a viagem e saiu à procura do caminhão do Valdomiro. Não demorou muito para encontrá-lo. Estava estacionado a poucos metros da entrada. Como era de se esperar a rua estava deserta a essa hora da madrugada, a iluminação pública dava uma certa cor dourada ao asfalto e à silhueta do caminhão parado sob um poste de luz. Ao vê-lo, César apressou o passo achando que estava atrasado, faltavam dez minutos para as cinco, hora que enviam marcado para o encontro. Avistou Valdomiro encostado à boléia, fumando calmamente seu segundo cigarro desde que encostou ali seu Mercedes-Benz azul com carroceria tipo baú, de alumínio reluzente. César admirou-se ao vê-lo, não imaginava que você tão novo e tão bonito.

- Bom dia, Valdomiro, cheguei atrasado?

- Não, caminhoneiro é que sempre acorda cedo.

- Belo caminhão hein? Não imaginava que fosse tão bonito?

- Novo, você quer dizer...

- É, pode ser, mas é muito bonito mesmo e muito bem cuidado.

- É, mas não se iluda muito com a beleza, todo começo de viagem é assim. Passo um dia inteiro cuidando do bruto, dou banho, capricho nas partes cromadas, deixo um brinco, mas isso não dura muito, é só pegar a estrada que a poeira e a lama acabam com a maquiagem dele. O mais importante, rapaz, é a manutenção da parte mecânica, dos pneus, freios, óleo... dá só uma olhada nos pneus, todos novos, até o estepe! Não basta capricho no visual, tem que estar sempre de olho na segurança. E aí, tá preparado?

- Claro, dormi muito tarde e acordei cedo, mas estou animado.

- Presta atenção que estrada não é brincadeira e você já começou errado, tinha que ter descansado, dormido cedo. Não é igual fazer uma viagem de ônibus que você pode dormir, sonhar e babar a noite toda. Precisa estar sempre alerta, que nem escoteiro, vou precisar de você e você pra mim não vai ser um passageiro de luxo não, vai ser meu ajudante e pra isso, meu velho, tem de estar preparado porque estrada é pedreira!

- Poxa, nem comecei e já estou levando uma bronca.

- Não é bronca não, só estou querendo saber se você está mesmo disposto a encarar esse negócio. Se não estiver, é só desistir porque a gente nem começou ainda. Se topar seguir em frente, vai se acostumando porque vai ser do meu jeito. E vamos deixar de conversar mole e dar um jeito na vida. Como é vai encarar?

- Lógico, vamos embora.

César sobe e se ajeita no banco confortável, joga a mochila para trás logo depois de ouvir o comentário de Valdomiro sobre o peso que está carregando e a despreocupação que deveria ter em carregar tanta roupa, não precisa, ele sempre viaja com a roupa do corpo e, no máximo, com mais duas mudas; se sujar ele mesmo lava no caminho. Deixaram a cidade e pegaram a BR-153 com César ainda ouvindo os comentários nada amistosos do motorista.

Valdomiro era o que se poderia chamar de um típico homem comum. Estatura média, pele queimada do sol, barriga pronunciada. César calculou que ele estava na faixa dos quarenta anos, sua origem poderia ser do norte, nordeste ou centro-oeste, não dava para identificar pelo sotaque que já deveria ter se perdido em tantas viagens. Do sul ou sudeste, tinha certeza que não era. Enquanto o caminhão deslizava pelo asfalto ainda bom da rodovia, ele observava o caminhoneiro muito sisudo neste começo de viagem, parecendo até hostil.

- E aí, é César seu nome né?

- Isso mesmo.

- Me diz aí, César, de verdade, por que você inventou de fazer essa viagem?

- Já falei, estou querendo escrever um livro sobre a vida dos caminhoneiros e só posso entender como ela é, viajando com um.

- Você me falou que ia fazer uma reportagem, uma matéria pra uma revista, se não me engano. Você é jornalista?

- Não. A idéia inicial era essa, depois foi crescendo e achei melhor escrever um livro.

- E por que eu fui o escolhido?

- Acho que foi por acaso. Eu não conhecia nenhum caminhoneiro e comecei a perguntar para as pessoas aí da cidade. Me falaram de muita gente, mas o difícil era encontrar esses caras, aí um senhor me falou do Bar do Bode, disse que era um local de encontro de caminhoneiros. Eu fui até lá e encontrei você. Só isso.

- É, eu lembro que você estava bastante ansioso. Depois que a gente tomou umas canas você parece que criou coragem e começou a falar. Lembro que você falou bastante, não prestei muita atenção nos detalhes porque achei que era mais uma daquelas conversas de cachaceiro que tem lá no Bar do Bode. Dei meu telefone pra você só porque você pediu, nunca achei que você fosse ligar de volta. Você não tem medo de viajar com um cara que você não conhece?

- Não, por quê?

- Porque esse é um dos primeiros mandamentos dos caminhoneiros, nunca viajar com quem não conhece, nunca dar carona, nem se a sua mãe aparecer no meio da estrada fazendo sinal, entendeu?

- Claro. E por que você aceitou, você também não me conhece?

- Sei lá, a gente vai ficando velho parece que vai ficando mais burro. Vamos dizer que eu fui com a sua cara, com esse seu jeito inocente. Só espero que eu não me arrependa. O que você tem nessa mochila?

- Roupas, coisas de viagem...

- Está parecendo pesada demais pra ter só isso. Você não está me escondendo nada não, né?

- Claro que não, quer revistar? Eu abro a mochila agora.

- Sem essa, vai! Você é da onde mesmo?

- Do Piauí, eu te falei aquela noite.

- Vai ter de falar tudo de novo, eu estava muito cachaçado, ficou só o mais importante na minha cabeça.

- Eu sou de Picos, conhece?

- Não lembro. Já fui muito pro Piauí e pro Maranhão também. Cada quebrada! E o que você veio fazer em Araguaína?

- Estudar. Passei no vestibular da Universidade Federal e me mudei pra cá faz dois anos. E você, da onde que é?
- Da onde você acha?

- Não sei, mas acho que você deve ser do norte, do nordeste ou do centro-oeste.

- É, deu pra ver que eu não sou gaúcho, né? Pois eu sou do nordestino. Baiano, pernambucano, paraibano, alagoano, o que você acha?

- Não sei, cara, acho que você pode ser de qualquer estado desses aí, mas baiano não é não...

- Pois eu sou de Amparo de São Francisco, já ouviu falar?

- Não, onde fica?

- Em Sergipe. É uma cidadezinha que fica no vale do São Francisco, quase na divisa com Alagoas. Passei toda minha infância lá, tomei muito banho no “Velho Chico”. Vida boa aquela, não pensava em nada, achava que nunca ia sair dali. Não cheguei nem a terminar o ginásio e meus pais tiveram que mudar pra Bahia, Salvador. Pra quem morava em Amparo de São Francisco, Salvador era uma metrópole. A vida era muito dura naquela época e eu pensando que ia voltar a estudar, que nada, quando que o mais velho dos sete filhos podia estudar? Fui vender cocada no Pelourinho, engraxar sapato, trabalhar de servente de pedreiro e tudo mais pra ajudar a família. Minha vida de caminhoneiro começou cedo. Com dezoito anos já estava na estrada, trabalhando de ajudante, com vinte peguei no volante e não larguei mais. Vou fazer quarenta, aposto que você pensou que eu tinha mais, fala a verdade!

- Nem pensei nisso.

- Tá bom, vai, eu acredito. Todo caminhoneiro parece mais velho do que é realmente, a estrada acaba com a gente. Tá vendo essa garrafa aí? Está cheia de café fresquinho, fiz agora de manhã. Pode pegar um copo aí do lado e se servir, aproveita e dá um pra mim também. É bom você tomar, é o que você mais vai beber até chegar em São Paulo. Diz pra mim, por que esse negócio de escrever livro sobre caminhoneiro?

- É uma idéia antiga. Lá em Picos, a gente morava num bairro que tinha pelos menos uns quatro e eu ficava maravilhado de ver os caminhões chegando e saindo, achava a vida deles legal, rodando esse Brasil todo, cada dia um lugar diferente. Pra mim passava uma idéia de liberdade, sabe aquele negócio meio cigano de não ter fronteiras, devia ser uma vida cheia de aventuras.

- Pois pode esquecer isso, é coisa do passado. Vida de caminhoneiro é dura rapaz, você nem imagina quanto. Eu só não larguei dessa vida ainda porque não sei fazer outra coisa. A carga de trabalho é muito alta, os percursos longos demais e em estradas esburacadas, sem condições nenhuma de tráfego pesado. Já começou seu trabalho?

- Como assim?

- O trabalho aí da reportagem. Você tem gravador, papel pra anotar?

- Não, por enquanto não precisa de nada disso, eu tenho boa memória.

- Então vai gravando aí na sua memória. O nosso setor está abandonado e decadente. Caminhoneiro nenhum que você perguntar vai dizer que deseja essa vida para os filhos deles. A nossa frota está envelhecida e formada por caminhões grandes e pesados. Você está dando muita sorte de estar sentado aí do meu lado, num caminhão novinho, todo em dia com a manutenção. Isso aqui, meu velho, é coisa rara. Se tivesse uma fiscalização séria, mais da metade dos caminhões tinham de ser tirado das estradas, sem contar os motoristas. Muitos, mas muitos mesmo não passariam num exame decente. Sabe o que é preciso pra ser caminhoneiro hoje em dia? Quase nada, é só saber dirigir ter um caminhão meia boca e pronto, o cara já está na estrada. Sabe qual o resultado disso? Tem mais caminhão do que frete, a carga diminuiu e a quantidade de caminhão aumentou. O valor do frete há mais de quatro anos que não muda, mas o diesel aumentou e também os pedágios. Tem colega aí que não almoça pra poder pagar pedágio. É mole? Como que o cara tem condições de cuidar da manutenção? Ele tem de recorrer a pneus recauchutados e peças de desmanche. O cara anda em estradas mal-conservadas e mal sinalizadas, com policiamento falho, motoristas mal pagos e despreparados, correndo todos os riscos de se envolver ou provocar acidentes. A maioria das rodovias estão esburacadas, com muitos radares e balanças que não funcionam e o motorista ainda é obrigado a parar em cada lugar que você nem imagina. Tá achando pouco? Então bota ai os assaltos, as quadrilhas especializadas em roubo de carga.

- Nossa, a coisa é tão feia assim?

- Você vai ver, não precisa ter pressa, já já você vai ver. Está gostando da estrada? Uma beleza, né? Essa aqui é a famosa Belém-Brasília, entre os caminhoneiros ela é conhecida como Belém-Buraco. Logo mais você vai entender o porquê.

O caminhão percorreu os primeiros trezentos quilômetros em absoluta tranqüilidade. A manhã estava quente, mas não sufocante, quase não havia tráfego na rodovia. César ia aos poucos ficando mais à vontade com Valdomiro, vencida a primeira impressão de hostilidade por parte do caminhoneiro. Quando não estavam conversando, César aproveitava para apreciar a paisagem, uma mistura de mata tropical com cerrado, entremeada por áreas de cultivo e criação de gado. As primeiras palavras de Valdomiro sobre a vida dura dos caminhoneiros o impressionaram bastante, mas não gastou muito tempo pensando sobre isso. Na realidade, sua cabeça ainda continuava em Araguaína. Pensava em Telma, na revolta que ela sentiria assim que percebesse que ele não estava brincando e partira sem ao menos se despedir dela. Pensava também em Serjão e o quanto ele ficaria desapontado quando soubesse que essa era uma viagem só de ida. Talvez ele se sentisse traído como a Telma, com certeza, já estava se sentindo. Paciência, não é possível agradar todo mundo.

O caminhão continuava rodando em alta velocidade, Valdomiro queira aproveitar a manhã e o ainda bom estado do asfalto. Ao seu lado, César parecia desligado de tudo. Vez em quando o caminhoneiro olhava pra ele com o canto dos olhos. Achando que ele estava cansado disse que ele podia se ajeitar na cama atrás dos bancos e tirar uma soneca, mas ele recusou, disse que estava bem, apenas pensando. O que ele menos queria era deitar, faria todo o possível para retardar ao máximo a hora de dormir. Aquele último sonho ainda não saíra da sua cabeça.

CAPÍTULO 4

Serjão acordou por volta de nove horas, com uma sede maior do que a preguiça provocada pela ressaca. Era terça-feira, único dia da semana em que não tinha aulas na parte da manhã. Tomou dois copos seguidos de água gelada e ficou imaginando há quanto tempo não passava uma noitada em plena segunda-feira. Logo após despedir-se de César e deixar com ele sua moto voltou para o alojamento pensando em trabalhar um pouco no projeto, tentar entender em que pé havia parado e o que poderia fazer na ausência dele. Antes de chegar ao seu quarto deu de cara com Rodrigo, amigo de infância de Anápolis. Apesar da relutância de Serjão, Rodrigo convenceu-o a passar a noite com uns amigos num grande apartamento na região mais nobre de Araguaína, onde rolou muito bebida, música tecno e algumas orgias. Chegou bem depois de César ter jogado a chave da moto por baixo da porta do alojamento e quase na mesma hora em que o caminhão de Valdomiro pegava a BR.

Depois de uma ducha gelada e uma xícara de café amargo sua cabeça parecia começar a voltar à vida normal. Antes de debruçar-se sobre o trabalho, relembrou os momentos mais excitantes da noite anterior. “O Rodrigo é maluco mesmo – pensou – onde ele arrumou aquelas piranhas pra animar a festa? Se os pais dele sabem como ele anda torrando a grana da mesada por aqui, ele está ferrado. Também eles já conhecem o filho que têm e devem estar adorando se ver livre das loucuras dele enquanto ele estiver estudando fora.” Na tela do computador dezenas de imagens, gráficos, planilhas desfilavam diante dos seus olhos um tanto quanto desligados ainda. Na mesa ao lado havia uma pilha de CDs, de onde ele retirava os que necessitava para dar continuidade ao trabalho.

De repente, ficou numa encruzilhada, o que o fez despertar inteiramente. Alguma coisa não batia no programa que estava executando, faltava um código, uma senha ou uma palavra-chave, o que fazia com que o programa travasse. Tentou de todas as formas encontrar a informação capaz de rodar o aplicativo, mas não a encontrou em nenhum dos CDs. Lembrou-se que na passada ele e César haviam se deparado com o problema pela primeira vez e fora César quem conseguira decifrá-lo. Não se tratava de um código, muito menos de senha, era uma seqüência inteira em linguagem de programação criada pelo amigo. Quando conseguiram desvendar o problema passava das três horas da madrugada e eles já se encontravam extremamente cansados. César havia se encarregado de fazer novos testes para ter a certeza de que o programa não travaria novamente, para aí sim confirmar a seqüência criada naquele momento. Ficaram de retomar o problema, mas foram impossibilitados devido aos sonhos repentinos do amigo e aos problemas dele com a namorada. Para complicar ainda havia essa viagem e só agora ele se dava conta de que deixara o amigo partir sem ter acesso à solução do dilema.

Como havia ficado com a chave do alojamento de César, achou melhor dar um pulo até lá e tentar encontrar alguma anotação do notebook que vinham compartilhando desde quando se lançaram no desenvolvimento do projeto. Foi até e voltou mais desorientado ainda, pois não conseguiu encontrar o notebook. Tentou por várias vezes seguidas ligar para o celular dele, mas só dava caixa-postal ou sinal de que estava fora de cobertura. Ele não poderia nunca ter levado o computador, pensou agoniado, por que será que ele fez isso?

Passou a manhã toda chateado, com uma tremenda sensação de impotência e desconfiança. Mais tarde, no campus da universidade, quando se encaminhava para a aula de anatomia, encontrou-se com Rodrigo, que parecia afobado.
- Fala aí, Serjão, está indo aonde, está com pressa?

- Vou ter uma aula daqui a vinte minutos.

- Então dá tempo de a gente levar um papo rápido.

- Pode falar, você parece preocupado.

- Você ainda não está sabendo o que aconteceu?

- Eu não, também depois da detonada que você provocou na gente ontem à noite, está difícil até de encontrar o chão.

- Pois é, cara, eu até que ia falar com você ontem, mas não queria estragar o clima da festa...

- O que está havendo, desembucha!

- Sabe aquela gostosona metida que está no segundo ano de medicina?

- A Telma?

- É, essa aí mesmo.

- O que aconteceu?

- Sumiu, cara, faz três dias que não aparece em casa...

- Como assim?

- Sumiu, cara, evaporou... Os pais dela estavam dando um tempo, sem fazer alarde, sabe como é esse pessoal cheio da grana, a primeira coisa que eles pensam é que foi seqüestro. Estavam esperando algum contato, mas até agora ninguém se pronunciou. Estou sabendo que eles foram na delegacia hoje cedo fazer ocorrência.

- E daí, você sabe mais alguma coisa, tem algum comentário rolando aqui no campus ou lá medicina?

- É justamente sobre isso que eu estou querendo falar com você.

- Pode falar.

- Andam rolando muitos boatos e, na maioria deles, o seu amiguinho cdf está envolvido...

- O César?

- Ele mesmo, ela não estava tendo um caso com ele?

- É, eles estavam namorando já faz um bom tempo.

- Namorando? Ah, pára com isso, e a Telma é lá de namorar com alguém? Todo mundo sabe que ela é dadeira, cara! Aliás, ninguém ainda conseguiu entender o que ela viu nesse seu amigo aí.

- Por que, qual problema?

- Vai dizer que você não sabe como chamam ele lá na turma de história? Só lá não, na medicina inteira todo mundo já sabe.

- Pois eu não estou sabendo de nada...

- Então anota aí: nerd da caatinga.

- Pô, que maldade, por que isso?

- Eu não tenho nada com isso, só estou reproduzindo o que eu escuto, mas, vem cá, que ele é estranho ele é...

- Não é nada disso, ele é só um cara estudioso e introvertido. Agora, se a Telma parou na dele, é porque ele tem mais qualidades do que isso, não é verdade?

- Aí eu já não sei, só ele que o negócio não está bom pro lado dele.

- Por quê?

- Não sei como, mas essa história do namoro da Telma, ou seja lá o que for isso, chegou nos ouvidos dos pais dela. Você sabe muito bem o que isso quer dizer. Família da alta sociedade, cheia de dinheiro, de pose e de bois, meu amigo, você acha que eles iam aceitar esse namoro?

- É lógico que não, mas o César sabia disso, eu mesmo alertei ele várias vezes.

- É, só que agora o caldo engrossou. Ele não apareceu na aula hoje, aliás, não apareceu no alojamento, você sabe onde ele está?

- Não... – Serjão hesita, mas resolve não dizer nada – Eu acordei tarde hoje, na maior ressaca, não estou sabendo de nada.

- Pois então tenta descobrir e dá uma alerta pra ele porque eu estou sabendo que ele foi denunciado pelos pais dela lá na delegacia.

- Denunciado por quê?

- Seqüestro, morte, coisas assim...

- Mas isso é um absurdo!

- O pior é que não é não...

- Por quê?

- Pensa só, cara. Tem muita gente de fora aqui na universidade, de tudo quanto é lugar do Brasil, mas com o perfil dele é uma minoria. Você sabe que muita gente da alta estudando aqui, com papai e mamãe bancando tudo. Nós mesmos somos dois, eu tenho meu carro, você sua Kawasaki, não passamos aperto financeiro nenhum. O seu amigo aí, todo mundo sabe, veio do Piauí, é filho de agricultor, gente humilde, família grande, quem banca essa aventura dele aqui?

- Péra aí, Rodrigo, não mistura as coisas. O César é um cara humilde assim, todo mundo sabe, mas ele não caiu aqui de bobeira, o cara é fera! Sempre gostou de estudar e fez um sem número de sacrifícios pra isso. Os pais deles não bancam nada, é claro, ele é que trabalha muito, é fera em programação, informática, desenvolvimento de sites e games. Aprendeu tudo sozinho, autodidata por necessidade, eu mesmo estou fazendo alguns trabalhos junto com ele.

- Tá legal. Mas isso dá dinheiro, Araguaína tem mercado pra isso?

- Ah, mas você não conhece o cara, ele se vira, faz serviço pra muita gente fora daqui, lá pro sudeste, já fez trabalho pra empresas lá de São Paulo. Ele tem aquele jeitão introvertido, mas é atirado, confia no taco dele, entende?

- Tudo bem, isso você sabe, mas você acha que os pais dela e a polícia pensam da mesma forma?

- É, aí a história é outra... Você está sabendo de mais alguma coisa?

- Não, mas já vou te avisando pra você ficar ligado e não ser pego de surpresa. Não estranha não se a polícia te procurar, caso ele não apareça.

- Como assim, o que você quer dizer com isso?

- Eu quero dizer pra você botar suas barbas de molho, meu amigo. Quantos amigos o César tem aqui? Aliás, qual o único amigo dele na universidade e em Araguaína?

- Eu, você querendo dizer?

- É lógico, Serjão! Além de ser o único amigo dele, você ainda acabou de revelar que faz trabalhos junto com ele. Que tipo de trabalho?

- Nada de especial, coisas simples...

- O quê, por exemplo?

- Design de sites, de games, programinhas simples de computador, você sabe...

- Tudo bem, mas e a polícia?

Serjão voltou para o alojamento com a cabeça a mil, depois disso, deu outra passada no alojamento de César tentando encontrar qualquer tipo de coisa suspeita que pudesse chamar a atenção da polícia. Quando saiu, trancou a porta com cuidado, olhando para todos os lados para certificar-se se não estava sendo observado. Mesmo que não quisesse admitir, lá no seu inconsciente, já se sentia suspeito.

CAPÍTULO 5

O rapaz obedece e ajoelha-se num pequeno espaço em meio aos destroços. Ao abaixar-se percebe que não são destroços materiais e sim uma infinidade de corpos dilacerados. O mais próximo dele é o de uma criança com um grande ferimento na cabeça, de onde ainda escorre um sangue grosso e viscoso.

- Beba do sangue dela!

- Eu não posso!

- Pode sim, você é um dos culpados por todas essas mortes. Só o sangue dessas criaturas pode redimi-lo e você vai bebê-lo ou então juntar-se a eles!...

Neste momento eles são interrompidos por um vulto que caminha lentamente em meio à pilha de mortos. Parece ser um velho, o mesmo velho que recebeu o rapaz, agora ajoelhado próximo ao corpo da menina, e o levou até os membros da Comissão de Frente. Sua túnica branca reluzente se destaca no meio do cinza mórbido da destruição. Aproxima-se do homem com a pistola na mão que irrita-se ao vê-lo.

- O que você está fazendo aqui? Quem lhe deu autorização para invadir meu espaço?

- Eu não preciso de autorizações, já se esqueceste quem sou?

- Você é apenas um velho rabugento que, enquanto viveu imaginou ser um grande rei, rei de uma terra no meio do deserto, sem nada a não ser vento e poeira. O que fez você pela humanidade além de tentar se perpetuar no poder sem nada conquistar? Qual foi seu legado, mandar matar todas as crianças do seu reinado para que delas não surgisse um novo rei? Ainda assim, foi incompetente pois deixou o filho dele escapar diante dos seus olhos. E foi justamente essa incompetência que o tornou famoso, que o colocou na história, um velho fraco e vaidoso. Por mim, você nunca faria parte da Comissão.

- Mas não és tu quem decide isso, assim como não és tu quem detém o monopólio sobre esse recém-chegado; portanto, deixe-o em paz! Desmanche isso tudo e deixe-o voltar ao ponto em que estava. E quanto a você, meu jovem, pare de bobagens e levante-se. De que tens medo? Desta arma? Não sejas assim tão imbecil, qual a razão de terdes medo de morrer se já morrestes?

O rapaz levanta a cabeça na direção do pequeno homem raivoso que insiste em lhe apontar a pistola. Pode ver que ele está em trajes militares bastante folgados para seu corpo franzino. Estampado em várias partes do uniforme aquele símbolo satânico. O homem irrita-se e dispara a pistola várias vezes.

César acorda assustado com o som da campainha do celular, procura-o nos bolsos sob o olhar debochado de Valdomiro.

- Está procurando o celular, rapaz? Está na mochila, aí nas costas.

- Deixa tocar, não estou com vontade de atender.

- Não é melhor desligar?

- É, acho que sim. – ajoelha-se no banco, de costas para o pára-brisas e vasculha o interior da mochila até encontrar o aparelho gritando feito um desesperado – eu dormi muito?

- Não, sou tirou um cochilo um pouquinho mais demorado. Você está cansado mesmo, hein, ficou fazendo aqui na noite passada?

- Nada de especial, só demorei a dormir, estava ansioso com a viagem. Que hora é agora?

- Quase onze. Não trouxe relógio?

- Trouxe sim, está na mochila. Onde estamos agora?

- Tá vendo esse mapa aí em cima do painel? Tem todo o trajeto da BR, até o Rio Grande do Sul. Vai desdobrando ele até ver o Tocantins. Nós saímos de Araguaína pouco depois das quatro, agora é vinte pras onze, já rodamos umas cinco horas ou quase trezentos quilômetros. Acompanha aí, já passamos Campo Alegre, Nova Olinda, São Sebastião Nonato, estamos chegando em Colinas do Tocantins.

- A gente não vai dar uma parada não?

- Já cansou?

- Não, mas eu estou apertado.

- Eu também, mas uma das coisas que a gente primeiro aprende na estrada é segurar o xixi. À vezes, tem que dar um nó no bicho porque você roda quilômetros sem encontrar uma parada e também não pode se arriscar a parar o caminhão na beira de qualquer estrada. Dá pra segurar mais uma horinha?

- Acho difícil.

- Então eu vou encostar, é bom pra eu também esvaziar a mangueira.

Valdomiro reduz a velocidade até parar no acostamento. A estrada está completamente deserta e o sol bastante forte. As duas margens da rodovia são formadas por uma vegetação baixa, própria do cerrado, mais ao fundo é possível avistar matas fechadas e regiões de floresta. Apesar do sol forte a umidade do ar é bastante elevada. Valdomiro pula do caminhão como se estivesse abandonando um cavalo, caminhando abre a braguilha e antes de parar já começa derramar a urina pelo acostamento. César vem logo atrás.

- Pode parar aí, César, e esperar sua vez. Anota aí mais essa: nunca motorista e ajudante fazem xixi juntos na estrada. Enquanto um mija o outro fica de olho, principalmente quando a estrada está assim deserta, sempre aparece gente de surpresa quando você menos espera... Pronto, o banheiro tá liberado!

Voltam para o caminhão e continuam a viagem. César não é muito de conversar, mas a cada pergunta dele Valdomiro faz arrastadas dissertações e isso a ajuda a manter-se desperto. Não deseja de forma alguma dar outro cochilo daquele e ser agarrado novamente pelos pesadelos que já estão perturbando e ele não pretende de forma alguma chamar a atenção do caminhoneiro.

- Porque você não atendeu o telefone?

- Não devia ser nada importante.

- Como você sabe? Se ligaram é porque estão afim de falar com você? E se for sua mãe?

- Sem chance, minha mãe está lá em Picos, onde ela mora nem telefone tem. Quando ela quer falar comigo, manda carta.

- E se for a namorada?

- Namorada? – César ri meio sem jeito – não tenho namorada não.

- Não tem ou brigou com ela?

- Não tenho mesmo.

- Você está fugindo de alguém, garoto?

- Eu não, já te falei por que estou fazendo essa viagem. Você é muito desconfiado.

- Todo caminhoneiro é. Você não se sente muito sozinho lá em Araguaína?

- Ás vezes.

- Quanto anos você tem?

- Vinte e dois.

- Deve se sentir sim. Eu, nessa idade vivia cheio de namoradas, dava um trabalhão danado não brigar com elas. Por isso que era bom pegar a estrada, eu sempre tinha uma em lugares diferentes. Você acordou assustou, era pesadelo?

- Não, foi o barulho do celular...

- Sei não, você dormiu pouco mas estava muito agitado, está com algum problema?

- Não, era só cansaço, não dormi bem à noite, você sabe...

- Tudo bem, você falou, eu acredito, mas se estiver com algum problema é só falar. Só estamos nós dois aqui e vamos ficar um bom tempo juntos. Daqui até o Rio Grande do Sul tem muito chão pela frente.

- Mas eu vou ficar em São Paulo...

- Tudo bem, na volta eu tenho de passar por lá...

- Mas vai demorar muito, eu achei que você ia passar na ida.

- Achou errado. Tenho carga pra entregar lá e no meio do caminho, Paraná, Santa Catarina...

- Mas você pode ir por São Paulo.

- Não pela capital, vou sempre pela Belém- Brasília, entro pelo interior de São Paulo e desço para o sul, não tem como deixar você lá.

- E agora?

- Agora você decide, posso deixar você num lugar mais próximo pra você continuar de ônibus. E aí, você vai escrever um livro sobre caminhoneiro com uma viagenzinha tão curta?

César fica embaraçado, não sabe o que responder, sente que foi pego numa cilada.

- Quanto tempo você vai levar pra chegar em São Paulo?

- Mais ou menos x dias. De lá vou pra Aparecida do Norte, na festa do carreteiro, fico quatro dias lá. Acho até que você podia aproveitar e ir comigo, vai ser muito bom aí pro seu livro. O que não vai faltar lá é caminhoneiro pra você entrevistar. E aí, topa?

- Acho que eu não tenho outro jeito.

Nota: todas as informações referentes aos lugares que eles passarão, aos percursos, horários e quilometragens estão colocados ainda de maneira superficial. Estou desenvolvendo pesquisas que serão a base para um trabalho posterior ao concurso, de dezembro em diante.

CAPÍTULO 6

O delegado Azevedo não havia se preparado para aquela visita inesperada logo naquela manhã de quarta-feira. Uma caminhonete Hylux prata estacionada à frente da delegacia da Polícia Civil de Araguaína chamava a atenção de todos que por ali passavam. Conhecida na cidade como uma das muitas marcas de veículos de luxo da família Marcondes ela chamava mais a atenção justamente por estar parada na porta da delegacia. Uma boa parte da população sabia que era o próprio Herculano Marcondes, patriarca da mais tradicional família de pecuaristas da região, quem dirigia o veículo. Logo um zum-zum-zum e um disse-me-disse já estava armado nas imediações, justamente o que Herculano mais queria evitar naquele momento.

Assim que Azevedo o viu chegando, acompanhado da mulher, Dona Estelina, correu ao seu encontro como um cachorrinho parte para cima do dono ao vê-lo chegar.

- Dr. Herculano, Dona Estelina, quanto recebê-los assim de surpresa... por favor, queiram sentar-se. Aceitam uma água, um café?

- Não precisa se preocupar, Azevedo, nossa passagem aqui é muito rápida.

- A que devo honra da visita, Dr. Herculano? Desculpem o despreparo...

- Queremos ter uma conversa sigilosa, é possível?

- Claro! – com um sinal de cabeça o delegado ordenou jovem recruta que se retirasse da sala – Agora está melhor, tenha a bondade de falar, excelência.

- Ora deixe de excelências, Azevedo...

- Oh, sim, não posso esquecer que o senhor é nosso representante na Câmara Federal, mas se o senhor quer assim, pode prosseguir.

- Na realidade vim fazer uma ocorrência na qualidade de pai e, caso minhas desconfianças tenham fundamento, uma denúncia. Tudo no mais absoluto sigilo, pelo menos por enquanto.

- Sim, com certeza, mas de que se trata?

- o senhor com certeza conhece nossa filha, a Telma.

- Sim, já tive a honra de ser apresentado a ela pelo senhor mesmo, está lembrado? Uma jovem encantadora, com um futuro brilhante na medicina e que, para sorte de nossa cidade, estuda aqui mesmo na nossa universidade federal. Queiram mandar meus humildes recomendações a ela!

- Com certeza, pena que não vai ser possível.

- Como assim, aconteceu alguma coisa?

- Infelizmente sim, ela desapareceu desde a última quinta-feira...

- Meu Deus! Por que não me procuraram logo?

- Achávamos que fosse um seqüestro e ficamos aguardando algum contato que não aconteceu e então decidimos vir aqui. Amanhã devo voltar a Brasília e gostaria de sair daqui já com alguma investigação encaminhada.

- Com toda certeza, Dr. Herculano. Primeiramente, preciso saber o que se passou até o dia do desaparecimento.

- Nada de especial, nada que fugisse à rotina dela de ir às aulas, cinema, festas nas casas das amigas.

- Que eu saiba, sempre que ela freqüentava algum local público era acompanhada por um segurança, não é verdade?

- De forma alguma, isso não passa de folclore. Sabemos da nossa importância na região e da nossa posição financeira, mas nunca tivemos esse tipo de preocupação, mesmo por que ela não admitiria, sempre foi muito independente, tem seu próprio carro, não gosta de se sentir vigiada e nós também sempre confiamos nela.

- Certamente, uma moça tão fina...

- Porém, acabamos sabendo de um fato que muito nos decepcionou e é justamente por causa disso que estou pensando em fazer uma denúncia, ainda muito sigilosa, como já disse.
- E que fato é esse?

- Uma amiga dela, aliás, a melhor amiga, acabou rompendo um segredo dois dias depois do desaparecimento dela. Como já disse ficamos decepcionados e bastante preocupados em saber que ela mantinha um namoro às escondidas com um rapaz da universidade, não da turma de medicina e sim da de história, e o que é pior: uma pobre-coitado que não tem onde cair morto e ainda por cima é visto como pessoa estranha pelos próprios colegas.

- E que rapaz é esse?

- O nome dele é César, veio do Piauí, é filho de pequeno agricultor. Tem cabimento uma coisa dessas?

- Concordo com o senhor, Dr. Herculano, mas daí a fazer uma denúncia é outra história. Baseado em quê o senhor pensa em denunciá-lo?

- Por enquanto numa desconfiança e também pelo fato de o rapaz ter sumido desde ontem pela manhã e ninguém saber do seu paradeiro. Não é muita coincidência?

- Sim, e, por enquanto, apenas coincidência.

- Pois então o senhor comece as investigações o mais rápido que puder e com muito sigilo. Se precisar de ajuda externa, da Polícia Federal, por exemplo, é só me falar. O que eu quero, quero não, exijo, é ter minha filha de volta e a salvo.

- Fique tranqüilo, Dr. Herculano, vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para desvendar esse caso. Preciso, no entanto, de mais informações da parte da família e do círculo de amizades da sua filha. Ao mesmo tempo vamos investigar o sumiço desse rapaz para ver se existe uma conexão entre os dois casos. Preciso saber com detalhes qual foi o último momento em que a viram, se vocês deram pela falta de pertences dela como roupas, carro, conta bancária, se há alguma probabilidade de ela ter deixado a casa por conta própria, o senhor me entende?

- Bom, se o senhor está insinuando que ela fugiu com esse borra-botas já vou adiantando que não existe a menor possibilidade. Ela desapareceu! Não levou nada, apenas a roupa do corpo.

Meia hora depois de ter chegado à delegacia, Herculano, acompanhado da esposa, entrou no carro e saiu sob os olhares curiosos dos transeuntes que se aglomeravam nas calçadas. Dentre eles, um olhava a partida do todo poderoso não com curiosidade e sim com preocupação. Era Serjão, que desde amanhã do dia anterior ainda não havia conseguido nenhum contato com César.

CAPÍTULO 7

O rapaz levanta a cabeça na direção do pequeno homem raivoso que insiste em lhe apontar a pistola. Pode ver que ele está em trajes militares bastante folgados para seu corpo franzino. Estampado em várias partes do uniforme aquele símbolo satânico. O homem irrita-se e dispara a pistola várias vezes. O som dos disparos ecoa no ar carregado pelo cheiro de pólvora, de metal e de carne queimada. Não passam disso, disparos que em nada alteram a cena. O homem raivoso, de pistola em punho e uniforme folgado desaparece repentinamente, como havia surgido.

- Levanta-te e siga-me!

O velho vira-se e principia a caminhar em meio aos destroços seguido pelo jovem ainda desnorteado com a sucessão de acontecimentos. O cinza da cena vai sendo trocado por cores mais quentes e a paisagem destroçada pela guerra vai se desvanecendo. Aos poucos o vermelho retoma seu lugar juntamente com as labaredas. O jovem aperta o passo e alcança o velho.

- Aquele homem, aquele uniforme... aquele símbolo... era uma suástica, não era?

- Sim, uma suástica.

- Quem era ele?

- Um dos membros da Comissão. Não te recordas?

- Era uma nazista... onde estávamos?

- Onde mais, a não ser na Polônia?

- Então é isso, o início da Segunda Guerra Mundial?

- 1º. de setembro de 1939. Westerplatte, uma faixa de aproximadamente um quilômetro e meio onde a Polônia mantinha uma armazém naval e um depósito de munições. Ás quatro horas e quarenta e cinco minutos depois que os aviões Sutkas da Luftawaffe, força-aérea alemã, começaram a atacar os primeiros campos de pouso poloneses, o couraçado alemão Schlewsig-Holstein, navio-escola da Kriegmasrine(marinha) em visita amistosa ao porto de Danzig, abriu fogo contra a Westerplatte. Os poloneses foram pegos de surpresa por uma estratégia de guerra jamais vista até ali, a Blitzkrieg, ou, guerra-relâmpago. Os militares alemães formularam uma revolucionária teoria de que os tanques deveriam ser a força principal de um ataque, a quem todas as armas deveriam estar subordinadas. Para britânicos e franceses, os tanques ainda eram vistos com a função da cavalaria de uma era passada, que lutava ao lado da infantaria em um determinado front. Já os nazistas resolveram apostar nos Panzer, ladeados pelo poder aéreo e pela guerra subversiva, extraindo o máximo das comunicações via rádio entre tropas para propiciar avanços rápidos e seguros. A estratégia bem sucedida estava baseada em cinco pilares: a mobilidade compensa a desvantagem numérica; veículos blindados propiciam maior mobilidade em comparação à cavalaria; a blindagem de um tanque é mais valiosa na defesa do que no ataque; tanques devem ser usados em agrupamentos pesados, distintos de outros destacamentos em serviço; dotados de velocidade, força e presença maciça, os tanques devem penetrar nas linhas inimigas para destruir suas comunicações. Pobres poloneses, apesar da heróica resistência, acabaram se rendendo uma semana depois. Em 27 de setembro os alemães tomaram Varsóvia, a capital, e, no dia seguinte, caiu Modlin, último foco de resistência polonesa. Dois dias depois da invasão alemã, foi declarada a Segunda Gerra Mundial...

- Espera, pára aí... Por que eu tenho de ficar vendo tudo isso? Por que me trouxeram pra cá? Aquele homem disse que eu tenho culpa pela morte de tanta gente, por quê? Nem sei mais quem sou eu...
- Calma, filho. Essa tua confusão mental é normal, mas apenas para aqueles sobre os quais ainda pairam dúvidas se deveriam vir para cá ou não.

- O que significa isso?

- Na teoria significa se tu és um espírito do mal ou um espírito do bem. Lá em cima eles dão um nome para isso – maniqueísmo. Na prática, a coisa é mais complicada porque é muito difícil classificar todos os humanos em uma categoria ou outra, a não ser os santos e os tiranos; mesmo assim, quem pode ser santo a vida inteira? Já com os tiranos é mais fácil porque as chances de eles se rejenerarem é praticamente nula, por isso eles chegam aqui sem dúvidas, sabendo muito bem quem foram e por que vieram para cá.

- Você foi um deles? Quem é você, afinal?

- No momento certo tu saberás, não estou autorizado a revelar quem sou e também quem são os membros da Comissão de Frente.

- Mas você fez uma apresentação logo que cheguei, deu nomes e eu não entendi nada, mal conseguia ver os rostos deles...

- Aquela apresentação é simples formalidade, não são nomes, são alcunhas inventadas na hora. A identificação depende muita da vida que tiveste, com o tempo tu vás descobrindo naturalmente, as pistas vão se sucedendo.

- Foi o que aconteceu hoje? Aquele homem, sei que era uma nazista, mas tenho certeza que não era Hitler, deve ser alguém bem próximo dele. Também sei que você viveu em uma época muito distante da dele, deve ter sido alguém poderoso na antiguidade...

- Não te empolgues porque isso não é um jogo de charadas nem de adivinhações e aquilo que se passou aqui não estava no programa, foi uma atitude individual tomada por um dos membros da Comissão que está tentando atraí-lo para o lado deles. Tu deves ter ouvido muita coisa sobre o inferno, em vida, principalmente da boca daqueles que pensavam já ter o céu garantido. Para eles o inferno é o local do sofrimento eterno enquanto que o céu é o lugar da felicidade infinita. Vistes algum sofrimento aqui? Vistes pessoas sendo queimadas e cutucadas com tridentes de fogo, gemendo e gritando agoniadas? Claro que não e jamais verás. Sabes qual o maior sofrimento dos que vêm para cá? É a perda do poder, a incapacidade de continuar dominando e se sobrepondo aos outros de maneira vil para atingir seus objetivos. A perda do poder é que os alucina e eles vivem buscando uma forma de reconquistar esse poder. Sabes por que é tão difícil e quase impossível reconquistá-lo? Porque aqui não há inocentes nem manipuláveis, somos todos farinha do mesmo saco neste ninho de cobras.

- Mas vocês não brigam entre si?

- Brigar como se somos espíritos, se não temos um corpo, uma carne para sofrer as dores, se não temos a vida para perdê-la? Existe sim um desequilíbrio de forças não físicas, uma instabilidade causada pelo desejo de dominar. Esse foi um dos motivos para a criação da Comissão de Frente. Nela estão os expoentes máximos do que se conhece como mal lá em cima e que aqui lutam com outras armas. O que os torna mais fortes ou mais fracos é a herança que deixaram no mundo do qual já não fazem parte fisicamente.

- Aquele homem disse que eu também era um dos culpados daquelas mortes todas. Por que ele falou aquilo? Ele sabe quem sou?

- Não, mas apostou na culpa coletiva para fisgá-lo. Quem são os reais culpados pela ascensão do nazismo na Alemanha e pelas atrocidades dele decorrentes? Diretamente, muitas pessoas que fizeram parte do governo de Hitler; indiretamente, se assim podemos dizer, a maior parcela do povo alemão que mesmo depois de muitas décadas ainda não conseguiu expurgar totalmente sua culpa coletiva. Uma parte expressiva de mentes, não só alemãs, ainda acreditam naqueles ideais e não são vítimas dessa culpa coletiva, ao contrário, sonham ainda em fazer ressurgir toda aquela ideologia. Se isso acontecer algum dia, será a maneira mais eficiente de mitigar os sofrimentos dos seus ideólogos que aqui se encontram e a melhor forma de lhes restaurar o poder ...

Neste momento eles são interrompidos por uma seqüência de explosões, tudo em volta se tinge de um vermelho profundo, seguido por um zunido em freqüência altíssima, capaz de irritar os ouvidos mais insensíveis.

- Acorda, rapaz, rápido, me ajuda!

Atônito, César desperta sem saber o que se passa. Valdomiro parece desesperado, dirigindo alucinado e em altíssima velocidade em meio à chuva torrencial.

- O que foi?

- Um assalto, olha aí no retrovisor... está vendo um Gol prata se aproximando aí do seu lado?

- Está escuro, só vejo a luz dos faróis...

- Então fica esperto!

Atordoado ainda pelo pesadelo, César escuta o som de um disparo, depois mais outro e um impacto violento na carroceria.

- Eles estão atirando!

- É lógico e quando se aproximar vão atirar mais ainda, desencosta da porta e pega o revólver aí no porta-luvas!

- Eu?

- Claro, quem mais poderia ser, não posso largar o volante, tem outro carro vindo do meu lado. Se segura que eu vou dirigir em zigue-zague, se eles se aproximarem mais vou tentar empurrar eles pra fora acostamento, pro meio do mato. A chuva está forte, a pista escorregadia, se a gente der sorte eles podem pegar algum buraco...

Novos disparos atingem a cabine, um deles no pára-brisa, bem próximo de Valdomiro que, indiferente, continua manobrando o caminhão na tentativa desesperada de fugir do ataque.

- Cadê o revólver, não pegou ainda?

- Está aqui, mas eu nunca atirei!

- Sempre tem uma primeira vez, rapaz, mas não desça o vidro, você só vai usar o revólver se eles conseguirem me parar. Entendeu? Você não tem escolha, não pode amarelar agora, senão a gente não sai vivo daqui.

A perseguição continua feroz e Valdomiro faz todo o possível para tentar se desvencilhar dos bandidos enquanto ainda estão em terreno plano, logo mais haverá uma subida e aí a coisa ficará difícil porque o caminhão vai perder velocidade. De uma certa forma isso o anima porque é um sinal de que devem ser principiantes, caso contrário, esperariam para fazer a abordagem na subida. César segura o revólver com as duas mãos trêmulas, todo encolhido para não encostar-se na porta. Trovões cada vez mais fortes podem estar encobrindo o som dos tiros. Mais experiente, Valdomiro sabe que eles pararam de atirar porque já perceberam que estão se aproximando da subida, mas podem ainda não ter percebido que o acostamento ficará reduzido dali a uns cinqüenta metros. Ele acelera o caminhão o quanto pode e quando percebe que a pista afunilou, puxa o volante bruscamente para a direita e tira o pé de leve do acelerador. Pego de surpresa, o motorista assaltante freia por instinto quando percebe que foi jogado para o mato, tenta consertar o volante, mas já é tarde, o carro é arremessado contra um paredão de mato e lama.

- Iiiiaaauuuuu! Vão comer lama, seus merda! – Valdomiro pula no assento, soca o volante várias vezes, bate nas costas do passageiro assustado, solta palavrões infindáveis enquanto olha pelo retrovisor e vê a luz dos faróis do segundo carro afastando-se lentamente – E aí, moleque, tá gostando da viagem? Guarda essa merda antes que ele dispare no seu pé. Não era adrenalina que você queria?

- O que aconteceu com eles?

- O Gol se estourou todo no mato, o outro desistiu, viu que o buraco aqui é mais embaixo. Aqui é sergipano macho! Viva Amparo, viva o velho Chico!

- Por que eles não atiraram nos pneus?

- Deixa de ser bobo, como é que eles vão levar a carga depois?

- Eles iam matar a gente?

- Você duvida? Graças a Deus e à minha habilidade no volante a gente não se estrepou. Se eles pegam a gente, das duas uma, ou eles deixam a gente amarrado numa árvore no meio do mato ou enchem a gente de chumbo e levam a carga. Depois do trabalho que eu dei pra eles, eles não iam gastar corda à toa, entendeu?

- Você parece que nem ficou com medo?

- Você é que pensa, moleque, meu cuzinho não tá passando nem uma agulha! Não precisa sentir vergonha por ter se borrado todo não, você nunca passou por isso, eu já sou macaco velho.

- Olha os vidros, tem marca de bala bem pertinho de você...

- Essa aí foi a primeira, me pegou de frente porque eles apareceram de repente do meio do mato, esperavam que eu parasse, mas eu acelerei, eles tiraram o carro da frente porque não são besta, depois vieram atrás. Acordaram você no meio da noite, acho que tiraram seu sono.

- Que hora é agora?

- Dez e pouco. Daqui a uma hora, mais ou menos, a gente vai fazer uma parada num lugar seguro. A gente janta, você pode tomar um banho se quiser, eu vou aproveitar pra dar uma olhada nos estragos que eles fizeram. Depois a gente dorme ali na parada mesmo, continua a viagem só amanhã. Acho que não vai faltar coisa pra você escrever no seu livro, é ou não é?

- Preferia falar das paisagens e de histórias mais engraçadas...

- Ajoelhou, meu filho, tem que rezar... você sabe que meu caminho tem sistema de rastreamento e só agora eu lembrei disso? E ai, ta muito assustado ainda?

- Bastante, acho que vou demorar a dormir.

- Pois eu acho bom você dar um jeito porque assim do jeito que ta, não vai agüentar o tranco. Estou observando, toda vez que você adormece, fica agitando, se mexe, resmunga, parece até que está tendo pesadelo, é isso mesmo?

- Acho que é impressão sua, só queria que você não me deixasse dormir fora de hora. Eu não sou muito de falar, mas você tem sempre uma história pra contar e isso me mantém desperto.

- Está com medo de dormir?

- Não... é que é melhor ficar acordado.

- Então liga o rádio, tem sempre uma musiquinha brega pra gente ouvir. Quando a gente dirige sozinho, é o melhor companheiro. Achei que você não fosse gostar. Pode ficar à vontade pra ligar, desligar. A casa aqui também é sua, rapaz.

CAPÍTULO 8

O fazendeiro e deputado federal Herculano Marcondes logo que deixou a delegacia, juntamente com a esposa, pegou o caminho de uma de suas propriedades, localizada entre Carmolândia e Novo Horizonte. Estava extremamente contrariado, reclamando de tudo e de todos. Dona Esterlina, já há muito tempo acostumada com o destempero do marido evitava fazer qualquer comentário que aumentasse sua ira.

- Por Deus do céu, mulher, você pode me dizer o que deu na sua filha? Como ela foi capaz de fazer isso com a gente, sumir desse jeito! Deus queira que não tenha acontecido nada do que eu estou pensando!

- E você está pensando o quê, homem?

- Bobagem, muita bobagem... Até eu saber dessa história dele com aquele retirante estava preocupado, com medo, só esperando uma notícia ruim. Pensei em assalto, seqüestro, estupro, tudo o que não presta. Depois que eu fiquei sabendo desse despautério, meu medo e preocupação virou revolta...

- Calma lá, Herculano, não faça julgamento precipitado. Nossa filha está desaparecida, Deus do céu, como você pode ficar acusando a pobrezinha sem saber onde ela está agora e o que está passando?

- Não é nada disso, estou preocupado com ela sim, mas também estou doido da vida pra botar a mão nesse moleque. Se ele pensa que vai fazer qualquer coisa que seja pra tirar vantagem em cima dela, ele não sabe com quem foi se meter. Por que, pensa bem, é muita coincidência o safado ter sumido justo agora. Ah, mas eu acho ele, onde ele estiver...

- Deixa isso com a polícia, é o trabalho deles...

- E você confia nesse delegadozinho Azevedo? Homem lerdo que só, é capaz de roubarem a viatura dele e ele nem se dar conta. Agora tem uma coisa, ele vai se mexer sim... vai se mexer porque a filha é minha e ele não sabe mais o que faz pra puxar meu saco. Mas nada do que ele faça vai me contentar, eu vou acabar é fazendo as coisas pelas minhas mãos, do meu jeito.

- Faça isso que aí você só complica as coisas.

- Eu só queria que você me dissesse como é que essas coisas aconteceram debaixo do seu nariz e você não percebeu nada.

- Por que eu? Você também é pai, também tem responsabilidade!

- Eu sei disso, mulher, mas você sabe o quanto eu sou ocupado. Tenho meus negócios particulares, meu mandato de deputado, passo boa parte do tempo em Brasília, vê lá se eu tenho tempo de ficar fiscalizando filha!

- Quer dizer que agora a culpada sou eu?

- Culpada não, desligada. Se prestasse mais atenção ia saber que esse retirante estava assediando a menina. E era muito fácil, era só conversar com as amigas dela. E ainda tem a história daquele bilhete... por que você demorou tanto a me falar sobre aquilo?

- Achei que era coisa à toa, não queria te preocupar, você anda muito nervoso ultimamente...

- E não é pra ficar? Graças a Deus eu tirei da sua cabeça a idéia maluca de mostrar esse bilhete pro delegado.

- E você tem certeza que fez a coisa certa? Será que não era melhor ele saber disso?

- Era coisa nenhuma. Isso é assunto de família, não vai ajudar em nada as investigações. Você já pensou, por acaso, se esse negócio cai na boca do povo? Com que cara a gente fica, e a minha reputação? Esquece esse negócio, o bilhete está bem guardadinho comigo, se for preciso eu uso, mas só em último caso.

Serjão retornou para o alojamento o mais rápido que pôde depois de presenciar a saída dos pais de Telma da delegacia. Passou direto pelo prédio da faculdade de veterinária sem a mínima intenção de assistir às aulas, tinha algo mais importante a fazer. Tentou de todas as formas se comunicar com César, como o celular permanecia desligado, enviou um e-mail na esperança de que ele estivesse mesmo com o notebook e tivesse condições de acessá-lo. Sentou-se à frente da tela do computador e repassou tudo que dizia respeito ao projeto que estavam desenvolvendo; em seguida, classificou o que poderia permanecer no disco rígido, o que poderia ser deslocado para um servidor fora da cidade ou simplesmente apagado. Tinha que agir rápido, pois com certeza o delegado acabaria convocando-o para um depoimento por causa da sua amizade com César. Deletou uma pilha de e-mails que estavam na sua caixa-postal. Se tivesse tempo, talvez quem sabe seria bom trocar o disco rígido do seu micro. Gastou pelo menos duas horas para fazer a limpeza em casa e só depois então dar seu passo mais ousado: voltar no alojamento de César antes do fim tarde, no pico das aulas para ter a certeza de não deixar nenhum rastro por lá. Mesmo sem o notebook, restavam ainda duas CPUs e, pior, como não se dera conta disso antes, um pen-drive, do tamanho de um chaveiro, carregado de informações, o formato ideal para se carregar numa viagem às pressas.

Aproveitou o baixo movimento na ala que dava acesso aos alojamentos do pessoal de humanas e seguiu para lá, com a chave apertada na palma da mão fechada. Em poucos minutos já estava de frente para a porta. Olhou bem ao redor, mas quando preparava-se para colocar a chave na fechadura teve a mais desagradável surpresa do dia: a porta estava arrombada. Ouviu passos no corredor e, a contra-gosto, virou-se e saiu dali o mais rápido que pôde.

Caminhou apressado até a área externa, sentou-se num banco sob uma árvore de galhos compridos e ali ficou pondo a cabeça para funcionar na ânsia de encontrar um meio rápido de voltar ao alojamento antes que descobrissem que a porta havia sido forçada. Tentou mais uma vez localizar César pelo celular, mas acabou desistindo. Tinha de ser agora, antes que chamassem a polícia. Levantou-se decidido, mas ouviu um grito atrás de si.

- Serjão!

- Rodrigo? Você não tem aula agora, cara?

- Ué, você também, está aqui fazendo o quê?

- Tinha uns problemas pra resolver.

- Coisa grave?

- Não. E você?

- Estava à sua procura. Precisava falar urgente com você.

- O que foi?

- Fiquei sabendo que os pais da Telma iam lá na delegacia e queria te alertar.

- Alertar o quê? Eu não tenho nada que ver com isso!

- Calma aí, cara, tá nervoso por quê?

- Nada não, desculpa. Eu quis dizer que é natural os pais delas procurarem a polícia, afinal a filha deles desapareceu.

- É, mas não foi só ela, o César também não dá as caras aqui desde ontem e agora eu estou sabendo que o pai dela apontou ele como suspeito do desaparecimento da filha.

- E onde que eu entro nessa história?

- Já te falei aquele dia, já esqueceu? Você era o único amigo dele e ainda por cima tinha negócios com ele, fica preparado porque senão pode sobrar pra você.

- Eu estou ligado, sei que o delegado pode querer me interrogar e eu não tenho nada a esconder, já falei com você, não é crime nenhum ter amizade com ele só porque ele transava com uma moça que desapareceu. Isso era coisa deles, eu não tinha nada a ver.

- É, mas seu amigo sumiu também. Você sabe pra onde ele foi?

- Tanto quanto você. Ele não me disse nada, estou surpreso também.

- Então, torce pra o delegado acreditar nisso. Ou melhor, pra o pai dela acreditar também.

CAPÍTULO 9

A banda Calypso berrava harmonicamente na última emissora sintonizada enquanto o caminhão abria caminho em meio à escuridão e à chuva que dava agora os primeiros sinais de já estar diminuindo. Tinham percorrido mais de mil quilômetros, deixado para trás o Estado do Tocantins e entrado em Goiás. Neste momento encontravam-se em algum ponto do rodovia próximo ao município de Palmeiras de Goiás a aproximadamente sessenta e quatro quilômetros de Goiânia. César ainda não havia se refeito do susto causado pela tentativa de assalto e tentava, como podia, não demonstrar o medo ainda recente a Valdomiro.

- E aí, César, está melhor agora?

- Claro, já passou, foi só um susto.

- Pra quem não está acostumado, um susto grande. Merda de chuva que não pára! – um caminhão carregado de mamão passou por eles a mais de noventa quilômetros por hora, deu dois toques de buzina e Valdomiro respondeu da mesma forma – Lá vai um companheiro com pressa, com esse tempo horroroso e a pista molhada tem que ter mais cautela, mas sabe por que a pressa dele?

- Vontade de correr, de chegar logo em casa?

- Não, é a carga. Pelo jeito é mamão. Vai anotando aí na sua cachola que você disse que é boa: quando o sujeito transporta produto perecível, frutas, legumes, essas coisas, tem que pisar fundo porque o prazo de entrega é curto, tem que chegar logo cedinho no Ceasa, não pode atrasar pra não entregar produto estragado, entende? O cara então tem que dirigir direto, de preferência à noite que é mais fresco e tem menos movimento nas estradas. Pra incentivar quase sempre é oferecido um bônus de tantos reais se ele chegar mais cedo, então o cara senta o pé mesmo. É nessas aí que acontecem os acidentes. Você não deve ter reparado, mas esse caminhão que passou agora pela gente não está em condições de correr tanto. É velho, pelo jeito que ele chacoalhava está ruim de pneus ou de suspensão. Por isso que eu te falei hoje de manhã, vida de caminhoneiro não está fácil não. Esse aí, por exemplo, vai correr o quanto puder sem parar pra descansar, vai arriscar a vida dele e de outras pessoas e quanto você acha que ele vai ganhar com isso? Uma merreca que mal dá pra pagar as despesas que ele teve, isso se o caminhão não quebrar no caminho porque senão ele sai no prejuízo. Quebrar não é coisa difícil pelo estado das estradas, você viu os trechos complicados que nós pegamos no Tocantins, aquela buraqueira danada, sem contar as obras que estão espalhadas em vários pontos da rodovia. Se aquele coitado veio por ali está correndo pra tirar o atraso. Se ele for pra São Paulo vai pegar mais de duzentos quilômetros da rodovia sendo restaurado.

- Você está transportando o quê?

- Minha carga é mais tranqüila, não tem nada de comida, nada que estraga, só eletrodomésticos.

- O caminhão é seu?

- Quase, comprei o ano passado e estou pagando o financiamento. Se tudo correr bem em três anos eu liquido. Isso significa eu continuar prestando serviço pra uma rede de lojas grande lá da Bahia. Enquanto eles estão vendendo, eu vou garantindo o leite das crianças.

- Você é casado?

- E como! Casei cedo, com quase a sua idade, tenho três filhos, um menino e duas meninas. É por causa deles que eu continuo nessa vida. Estão todos estudando, não quero ver filho meu nesse tipo de vida que eu levo. Também não posso me queixar porque aprendi muita coisa na estrada. Isso aqui é uma escola, a gente aprende a se virar de tudo que é jeito... Olha aí a chuva está diminuindo. Daqui uns vinte minutos a gente chega na parada aí você pode dormir à vontade, até as cinco da manhã. Normalmente eu não faço isso não, gosto de rodar à noite, é mais tranqüilo e mais fresco também. Hoje a gente puxou direto, só demos aquela paradinha pra comer. Eu costumo dar uma dormida à tarde, principalmente quando está muito quente. Encosto o caminhão numa sombra e durmo umas duas horas depois do almoço. É o suficiente pra ficar inteiro de novo.

Com a chuva praticamente acabada, Valdomiro chega num posto de serviço à beira da estrada até que bem cuidado e bem iluminado. Estaciona o caminhão bem debaixo de uma luminária e desce para fazer a primeira vistoria após o ataque dos bandidos. Conta sete buracos de bala espalhados pela cabine.

- É, meu amigo o negócio foi feio, mas antes nele do que em nós, não é mesmo?

- O que você vai fazer agora com isso?

- Por enquanto só lamentar o prejuízo, depois, tenho de parar num posto policial e prestar queixa. Não vai dar em nada, mas pelo menos tenho o boletim de ocorrência se por acaso a gente for parado pela polícia rodoviária. Agora é melhor a gente comer,se você quiser tomar banho tem chuveiro aí. Enquanto isso eu vou colocar combustível, dar uma limpada no pára-brisa, checar freios, óleo, essas coisas...
- Eu acompanho você.

- Acho melhor você tomar banho, tirar o suor do corpo e a zica do assalto. Não vai pegar bem um rapaz na sua idade fedendo o tempo todo, eu já sou bode velho, tô acostumado.

- Você vai precisar de uma ajuda pra gasolina?

- Deixa disso... só uma coisa: fica esperto, principalmente quando estiver sozinho no banheiro, não vai entrar lá de mochila, celular, essas coisas que chamam a atenção. Estrada é terra de ninguém. Deixa tudo que for de valor no caminhão que ele vai ficar trancado e em lugar seguro, tem segurança no posto de gasolina e eu conheço todo mundo que trabalha aqui. O que não tem jeito de conhecer é todo mundo que pára, tem sempre algum bandido no meio.

César acabou não tomando o banho e garantiu a Valdomiro que não foi por medo, preferiu tomar de manhã assim que levantar. Os dois jantaram numa mesinha no canto do restaurante, da onde dava para avistar todo o movimento, na maioria caminhoneiros. O jantar acabou sendo animado porque Valdomiro reconheceu dois amigos que se juntaram a eles e contaram vários casos acontecidos na estrada. César gostou porque isso adiou a hora de ir para a cama. Adiou, mas não evitou. Valdomiro conseguiu até um quartinho com uma cama se não confortável, pelo menos melhor do que a do caminhão. Sentado na cama, César pegou o celular e passou lentamente todos os recados deixados na caixa postal. Todos, aliás, de Serjão. Se já não encontrava motivos para dormir, os recados contribuíram para tirar o sono que começava a torturar seus olhos.

CAPÍTULO 10

O barulho infernal das explosões misturava-se ao som sibilante do vento em lufadas gigantescas a mais de duzentos quilômetros por hora arrancando do chão tudo que encontrava pela frente. Uma nuvem de poeira cobria toda a terra e parte do céu, de uma vermelhidão profunda, movendo-se velozmente feito um manto sobre a região desértica e encobrindo toda a visão daqueles que, porventura, estivessem no seu caminho. O rapaz andava com dificuldade, lutando para não ser arrastado pelo vento. Olhou em volta de si, à procura de seu guia, mas não conseguia enxergar nada em meio à poeira. Gritou em vão pois não havia ninguém para ouvi-lo e, então, continuou andando sempre em frente, sem a mínima noção de onde se encontrava. A essa altura ouvia apenas o sibilar do vento e achava que a qualquer momento ficaria surdo ou cego.

Quando já imaginava que tudo estaria perdido, percebeu que o vento diminuía de intensidade e a poeira já não era tão espessa. Sentiu, de repente, o chão trepidando e temeu fosse um terremoto. Tão logo cessou a ventania, baixou também a nuvem de poeira e o dia começou a clarear, continuando, porém, a vermelhidão celeste. Percebeu, então, que se encontrava em um vasto deserto em meio a elevadas dunas de areia. O trepidar no solo atrás de si aumentava e se aproximava cada vez mais. Olhou para trás e avistou um numeroso exército de guerreiros marchando resolutamente sobre suas montarias. Os cavalos corriam determinados e numa velocidade espantosa sobre a areia. Assustado, ele tentou esconder-se, mesmo não tendo como fazê-lo. Em poucos minutos foi alcançado pela cavalaria. Correu para o lado imaginando que seria atacado. Para sua surpresa, o exército de guerreiros passou como um raio, sem dar a menor importância para sua presença. Parado, ele observou a força dos cavalos com suas longas e incansáveis patas, as expressões fechadas e uniforme dos soldados, seus olhos irradiando fúria e ódio. Carregavam espadas, lanças, adagas, facas e toda sorte de objetos cortantes, o que dava a certeza de estarem se encaminhando para uma batalha cruenta.

Passado o vento, agora era o sol que castigava e ele apressava o passo o mais que podia, na esperança de chegar a algum lugar enquanto suas forças ainda permitiam. Avistou, finalmente, a silhueta de construções em um horizonte já não tão distante. Pedia a Deus que não fosse uma miragem. Apressou o passo e dali a pouco já quase corria. Assim que se aproximou, teve a certeza de tratar-se de um povoado e agradeceu a Deus por isso pois precisava urgentemente de água e comida.

De onde estava podia ver com clareza as construções feitas na sua maioria de pedras e chegou à conclusão de que estava diante não de um pequeno vilarejo e sim de uma cidade.

A calma, porém, não reinava atrás daqueles muros. Ouviu gritos de desespero de gente tentando fugir do trotar de cavalos. Hesitou ao perceber que aquele era o destino do exército que passara por ele no deserto. A sede e a fome, contudo, falaram mais alto e fizeram-no cruzar o portão de entrada da cidade desconhecida. Lá dentro a confusão era geral, pessoas correndo e sendo perseguidas pelos soldados nas ruas estreitas e calçadas por pedras irregulares. Encostou-se na parede de uma casa onde sentiu-se seguro e dali avistou cenas horripilantes de mulheres correndo com seus bebês nos braços, tentando de todas as maneiras fugir da perseguição dos soldados. Viu uma delas ser alcançada, ter seu filho arrancado dos braços e ser friamente degolado diante dos seus olhos. Os soldados invadiam as casas à procura de crianças recém-nascidas que eram sumariamente executadas. Por mais que país e mães tentassem desesperadamente evitar a carnificina infantil, nada conseguiam. Assim, antes do final da tarde a cidade estava banhada pelo sangue dos inocentes. Gritos e choro incessantes espalhavam-se pelas ruas e vielas e chegavam com nitidez impressionante aos ouvidos do rapaz, já completamente esquecido da fome e da sede.

Terminada a matança, o exército partiu depois de ter certeza que nenhum recém-nascido havia sido poupado. O choro, o desespero e as lamentações tomaram conta das ruas agora ocupadas somente pelas mães destruídas internamentes algumas ainda embalando o corpinho inanimado do filho morto.

Retirou-se após colher uma boa quantidade de água e de mantimentos e ganhou novamente o deserto por onde vagou quase sem parar. Ao anoitecer procurou um abrigo onde descansou os mantimentos e acendeu uma fogueira para espantar o frio. Não entendia nada do que se passava, não sabia por que estava ali e não tinha nenhuma idéia de onde estaria o velho cicerone que o retirara daquele horrendo cenário de guerra na Polônia, em pleno século XX. Como num piscar de olhos ele recuara tremendamente no tempo e no espaço. Ouviu, de repente, um barulho, levantou-se de um salto e avistou a chegada de viajantes inesperados. Sobre o lombo de um burrinho uma mulher trazia no colo uma criança e eram puxados por um homem já ofegante.

Ao ver a criança o rapaz sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Aproximou-se para ter certeza de que a criança estava viva.

- Boa noite – disse ele com uma voz bastante agradável – podem se aproximar da fogueira e acalmar o frio. Estão de viagem?

- Sim – respondeu o homem, receoso.
- Podem chegar, não tenham medo, eu só quero ajudá-los. Não tenho muita água nem comida, mas terei prazer em dividir o pouco que tenho com vocês.

O homem ajudou a mulher a descer com a criança sempre firme nos braços e a sentá-la numa pedra grande, larga e aparentemente confortável.

- Para onde vocês estão indo?

- Para o Egito e não podemos nos demorar muito, vamos apenas tomar um pouco de água e comer um pedaço de pão.

- Claro, fiquem à vontade. Não é arriscado fazer uma viagem tão longo com um recém-nascido?

- Pior é ficar...

- Entendo. Por acaso estão fugindo?

- Estamos obedecendo a uma ordem de um anjo do Senhor, que me apareceu em sonho e disse: levante-se, pegue a criança e a sua mãe e fuja para o Egito. Fiquem lá até eu avisar, porque o rei está procurando a criança para matá-la.

- Vocês tiveram muita sorte porque hoje ainda eu tive a infelicidade de ver a matança, não restou uma só criança viva na cidade por onde passei. Vocês estão vindo da onde?

- De Belém, na Judéia. Não podemos nos demorar mais para não sermos alcançados.

- Compreendo. Gostaria que me deixassem ver o rosto do nenê antes de partirem.

Ele aproximou-se da mulher que, lentamente, descobriu o rosto da criança. Ao avistar o rostinho radiante do menino em seu breve e infinito sorriso, sentiu uma sensação desconhecida de paz, o que fez seu coração agitado aquietar-se, a ponto de escapar da sua face também um sorriso que jamais se pronunciara com tanta facilidade em vida.

César acordou repentinamente, à procura de um relógio pois achava que havia perdido a hora. Estava só de cuecas e com o corpo banhado de suor. Conferiu a hora no celular, uma e quinze. Deitou-se novamente, de barriga para cima, olhos fixos no teto baixo, imaginando estar vendo ainda o rosto do menino projetado na laje. “Você, Belém, - balbuciou baixinho – que fica na terra de Judá, de modo nenhum é a menor entre as principais cidades de Judá, pois de você sairá o líder que guiará o meu povo de Israel. Assim escreveu o profeta”. César ficou alguns instantes ainda como que hipnotizado, lembrando-se de várias citações bíblicas guardadas no fundo do seu inconsciente, todas, fruto dos cultos evangélicos presenciados na infância e adolescência.

- Herodes! – chegou quase a gritar no quartinho abafado.

O transe durou pouco porque seu cérebro foi subitamente invadido pela lembrança das mensagens recebidas no celular. Telma desaparecida. O que fazer agora? Voltar? Não, Serjão fora bem enfático – ele é o único suspeito até o momento. Vieram também a sua cabeça as cenas do seu último encontro com ela. Parecia alucinada, só pensava em sexo. Transaram três vezes seguidas naquela noite e ela continuava insaciável. Cansado, ele adormeceu nu ao lado dela para logo depois acordar assustado. Era a segunda vez que sonhava aquele mesmo sonho. Ela estranhou o comportamento dele e, como ouvira-o falando enquanto dormia, quis saber, quis não, exigiu que ele contasse todo o sonho para, em seguida, cair na gargalhada, dizendo que sempre achou ele meio esquisito da cintura pra cima. Era nisso que dava ele ser tão cdf e a mania de passar as noites lendo aqueles livros maçantes de história.

A relação de Telma com César sempre foi meio doentia e totalmente ninfomaníaca. Mimada e preconceituosa ao extremo, ela sentia prazer em humilhá-lo na frente dos outros e quando estavam a sós, a única coisa que queria dele era sexo, cada vez mais sexo. Quando não estavam engalfinhados na cama ela gostava de olhar para ele e vê-lo corar quando dizia que a única coisa boa de namorar com um nordestino que nem ele era a proximidade fálica deles com os jumentinhos que inundam a região. Muitas vezes ele sentia vontade de reagir e se afastar definitivamente dela, mas acabava ficando quieto. Ela, sabendo muito bem o quanto o machucava, fingia arrependimento, agarrava-se a ele, mais precisamente ao sexo dele, com as mãos, a boca e tudo o mais, deixando-o completamente desarmado e entregue as suas taras ninfomaníacas. Frequentemente, sozinho no alojamento, ele se perguntava por que aceitava tantas humilhações de uma moça rica, prepotente, maníaca sexual que fazia a imagem de menina santa e casta na frente dos pais e da sociedade de Araguaína. Todos na cidade a conheciam como a pura e dedicada filha dos Marcondes, um exemplo para todos os filhos da região. Talvez só ele soubesse o quão mau-caráter era ela. E por que não abandonava? À parte a beleza escultural da moça e a todo o erotismo que ela emanava, existiam outras razões que talvez ele não soubesse, mas que estavam lá no seu inconsciente. Uma delas era o prazer de ser escolhido como seu objeto de desejo e de satisfação da sexualidade obsessiva. Agradava-o saber que fora o escolhido em meio a tantos rapazes de família, com educação e posses infinitamente maiores do que as dele. Ademais, nenhum com a cara tão evidente de nordestino quanto a dele. De uma certa forma isso tudo elevava a sua auto-estima, mesmo que com um preço alto a pagar, o preço da humilhação constante. Fora ela, o único convívio que mantinha era com Serjão, com os livros e os computadores.

César desperdiçou ainda umas duas horas de sono pensando em Telma e no sumiço dela. Quando finalmente adormeceu, o destino lhe poupou de mais uma rodada de sonhos e quando foi acordado com as batidas de Valdomiro na porta do quarto, percebeu que passara do horário e que teria de continuar a viagem sem nem ao menos tomar o banho adiado.

CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES SOBRE A EVOLUÇÃO DO TEXTO

Até o presente momento o texto vem sendo desenvolvido como se fosse escrito ao sabor da inspiração do autor; porém, a partir de agora começa a esbarrar em algumas barreiras para sua fluência. Por quê? Basicamente isso se deve à necessidade de pesquisas para tornar o livro mais convincente ou mais próximo da realidade. Os personagens principais já estão delineados e a trama já está praticamente formulada. Os pilares de mistério e suspense já foram colocados, cabendo agora o seu desenvolvimento. Ocorre que ainda não tenho todas as pontas da trama colocadas e nem ligadas pois também não sei para onde isso tudo está caminhando. A intenção é fazer duas histórias caminharem paralelas, os sonhos de César e a sua vida real, focada na viagem e nos fatos que acontecem em Araguaína, durante sua ausência. As duas coisas parecem ter se encontrado no último capítulo escrito, ou seja, César fica sabendo que Telma desapareceu e que ele é o principal suspeito do caso, ao mesmo tempo em que nos seus sonhos, o personagem que desce ao inferno começa a encontrar pistas para descobrir quem são os membros da Comissão de Frente. Primeiro, ao presenciar a invasão da Polônia pela Alemanha e ao ficar cara a cara com um nazista que o culpa pelas mortes que aconteceram e que ainda virão a acontecer. Sabe que ele é um dos membros, mas não sabe ainda quem foi em vida. A segunda pista surge no sonho do deserto quando acontece a matança de crianças e quando ele ajuda os pais de Jesus a fugirem com ele para o Egito. Ao despertar César se dará conta que o responsável por tudo aquilo foi Herodes; daí a ligá-lo ao velho que o acompanha e que o levou até o portal da Comissão de Frente é imediato.

A partir deste ponto, César ficará atormentado tanto desperto quanto acordado, ou seja, a cada sonho ele aumentará a desconfiança de que aquele rapaz é ele mesmo e que se foi para o inferno é porque cometeu ou está para cometer algo de muito grave e que tudo indica Telma está envolvida nisso.

A intenção agora é fazer três coisas correndo paralelo e se interligando de maneira cada vez mais misteriosa: a evolução dos sonhos e as revelações de quem são os membros da Comissão de Frente; a viagem de César e o relacionamento dele com Valdomiro, suas angústias causadas pelos sonhos e pelo sumiço de Telma e, finalmente, as situações que acontecerão em Araguaína com o avanço das investigações do delegado Azevedo, o envolvimento de Serjão e as conseqüências que virão após os interrogatórios do delegado e das suspeitas dele com relação ao único amigo de César. Cada uma dessas três coisas têm suas dificuldades próprias para o desenvolvimento do texto no ritmo que o concurso exige. Não posso perder o clima de suspense na ânsia de escrever, quer dizer, devo estar sempre insinuando coisas sem revelar nada que possa comprometer o suspense. Isso não é uma tarefa muito fácil. Por exemplo: foi dito em várias passagens que César e Serjão desenvolvem um projeto e conjunto, o qual foi paralisado com a viagem de César. Não sei ainda que projeto é esse, mas sei que é alguma coisa relacionada com desenvolvimento de programas de computador e que, a julgar pela reação de Serjão ao apagar arquivos e eliminar qualquer rastro suspeito nas suas máquinas e tentar fazer o mesmo no alojamento de César prenunciam tratar-se de projeto ilícito. O fato de o alojamento de César ter sido arrombado mostra que deve haver outras pessoas envolvidas nisso. César levou o seu notebook onde continha um código importante que Serjão ficou sem saber. Por que ele fez isso? O que pretende ele realmente com essa viagem já que mentiu para o amigo ao dizer que o caminhoneiro era amigo de seu pai e que ele conhecia-o desde a infância? Que bilhete era aquele que a mãe de Telma encontrou na sua bolsa e por que o pai dela se recusou a mostrá-lo ao delegado, preferindo mantê-lo guardado para o caso de necessidade?

Todas essas questões exigem respostas que eu mesmo ainda não tenho, portanto, são um mistério também para mim. Estou com quase quarenta por cento do texto de cinqüenta mil palavras escrito, o que significa que ainda é muito cedo para encontrar essas respostas. O desafio, portanto é continuar escrevendo de forma a manter cada vez mais a atenção e a curiosidade do leitor em alta.

Dividirei, portanto, a história em três eixos: o eixo dos sonhos, o eixo da viagem e o eixo das investigações. Cada qual tem suas dificuldades. O eixo dos sonhos – está assentado em pesquisas pois envolve fatos e personalidades históricas. Cada sonho daqui para a frente necessitará de pesquisas mais aprofundadas que não tenho tempo para realizar agora, portanto, vou fazê-lo de forma bem superficial com base nos conhecimentos que tenho. Quando esbarrar em dificuldades maiores, deixarei anotado que naquele espaço haverá determinado sonho para o qual ainda não tenho os elementos para escrever. Com relação à viagem, as pesquisas são de extrema importância pois é preciso sustentar todo o livro nos trajetos percorridos por Valdomiro que deverão estar entremeados de casos acontecendo em determinados pontos da rodovia e em diferentes estados do Brasil. A evolução da viagem trará também a evolução dos tormentos de César e as desconfianças de Valdomiro de que o rapaz tem algum problema de saúde ou então está metido em alguma enrascada. O convívio dos dois é um dos elementos de grande importância do livro pois ambos estão envolvidos em problemas e conviverão muitos dias juntos, o que irá fortalecendo o companheirismo e a cumplicidade entre os dois. À medida que o caso do desaparecimento de Telma vai ganhando proporções em Araguaina, vão aumentando os riscos para César. Como o pai da moça é proprietário de uma emissora de rádio e televisão passará a usá-la como meio para descobrir onde se encontra César. Seu rosto aparecerá em jornais e na televisão, no início apenas no Tocantins e depois para o país inteiro. Valdomiro ficará sabendo e tentará protegê-lo. César conseguirá manter contato com Serjão pelo celular e em alguns pontos da viagem terá condições de acesso à internet. O que fará?

Alguns personagens foram apenas insinuados e ainda não cresceram na trama, como Rodrigo, o delegado Azevedo, Herculano e dona Esterlina. Quanto à Telma, muito se falará dela, mas não aparecerá tão cedo e nem sei quando.

Confuso? Sim, e a tendência é permanecer ainda mais confuso nos próximos dias devido às dificuldades apontadas e ao pouco tempo que tenho para resolvê-las. De qualquer forma, vamos tocando o barco pra frente porque escrever é preciso.

CAPÍTULO 11

O sol começou a despontar pouco depois das cinco horas da manhã. A temperatura estava amena quando César deixou o quartinho carregando sua mochila e encontrou-se com César examinando detidamente todos os pontos da lataria do caminhão. As marcas de bala causaram um calafrio em César, especialmente as que encontravam-se próximas ao lado onde se encontrara na noite anterior. Só de imaginar que poderia ter sido atingido por três delas era suficiente para deixá-lo aliviado. Valdomiro avistou-o, de cima da carroceria e de lá mesmo gritou impaciente.

- Vamos lá garoto, que o dia já começou e a vida não espera ninguém!

Enquanto o motorista descia da carroceria, César subiu na cabine e colocou a mochila no mesmo lugar, atrás do banco. Dessa vez, o celular ficou no seu bolso, mas ainda desligado, não tinha certeza de quando o ligaria. Valdomiro desceu, fez os últimos preparativos, subiu, agarrou-se ao volante e deu a partida.

- E aí, dormiu bem?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos como, depois daquele luxo todo, cama com lençol e travesseiro? Só faltou eu te arrumar uma quenga pra passar a noite toda na farra! – Valdomiro solta uma gargalhada enquanto manobra o caminhão para fazer o retorno e pegar a estrada novamente – Liga não, é só brincadeira, é bom começar o dia rindo, você não acha?

- Tudo bem, eu entendi. Não estou reclamando, a cama estava boa sim, é que eu acordei e depois demorei a dormir.

- Preocupado?
- Mais ou menos.

- Preocupação com mulher ou com dinheiro?

- Nenhum dos dois.

- Então já está com mais da metade dos problemas resolvidos porque uma coisa eu te digo, se o cara não tem preocupação com mulher e com dinheiro, pode se considerar um felizardo. Faz quanto tempo que você mora em Araguaína?

- Vai fazer três anos.

- Está gostando de lá?

- Gosto sim, é uma cidade boa, tem tudo que a gente precisa e é sossegado. Também eu não conheço quase nada pra comparar. Saí de Picos com dezesseis anos e fui morar em Teresina, atrás de trabalho. Fiz bastante coisa por lá, nada de carteira assinada, mas foi o que me garantiu estudar e prestar vestibular.

- É isso aí, o cara tem de aprender a se virar logo cedo se não nasceu com a bunda virada pra lua. O que você fazia por lá?

- Só não fazia roubar, de resto qualquer coisa que aparecesse. Minha sorte é que fui trabalhar numa loja de informática. Lá eles vendiam equipamentos e davam cursos. Eu gostava daquilo e tratei de aprender o máximo que podia, depois de um ano eu estava dando curso também. Eu ficava sempre junto com os técnicos, mesmo depois do expediente, via eles consertando aparelhos, mexendo em placas e fui aprendendo. Mas o que me chamava mais atenção eram os programas e eu botei na minha cabeça que ia aprender a fazer aquilo. Acertei com o dono da loja pra montar um computador pra mim e ir descontando no meu salário. Toda noite, depois que eu chegava da escola, sentava na frente do teclado e ia tentando fazer sozinho o que eu aprendendo com eles. Depois de mais um ano, comecei a trabalhar por conta própria. Quando passei no vestibular da Federal aqui de Tocantins, vim pra Araguaína e continuei fazendo a mesma coisa.

- Você estuda o quê?

- História. Estou no segundo ano.

- É isso aí, não pára de estudar não. É o que eu sempre falo pros meus filhos. Tem que estudar muito pra pegar no volante só pra passear. Eu não estudei e olha só o que eu tenho de passar pra garantir o estudo deles. E aí, está mais animado com a estrada?

- Acho que sim, a gente vai acostumando.

- Pois trate de acostumar logo porque a moleza acabou. Daqui pra frente não tem mais esse negócio de dormir à noite não. Vamos rodar o máximo que der por dia, parar pra almoçar, achar uma sombrinha e dar um bom cochilo enquanto o calor está apertando. Depois a gente só pra pra jantar e senta o pau. Minha primeira entrega vai ser em Anápolis, depois começa um pinga-pinga até o Rio Grande do Sul onde vou deixar a última carga. Em Santa Catarina eu tenho um frete acertado para São Paulo, faço a entrega lá e fico liberado pra ficar os quatro dias lá em Aparecida do Norte. A festa do carreteiro vai de 18 até 21, por isso a gente tem de correr. Tá olhando aí como o movimento a partir daqui começa a aumentar? Agora todo cuidado é pouco. Você tem amigos lá em Araguaína?

- Amigos mesmo, quase nenhum, só o Serjão. Ele é de Anápolis, estuda veterinária. A família dele é bem de vida, tem comércio na cidade e também terras, gado, essas coisas.

- Tem namorada?

- Tenho... quer dizer, acho que tinha...

- Por quê?

- A gente brigou, ela ficou chateada por causa dessa viagem. Está achando que eu não vou voltar mais.

- E você vai?

- Claro, minha vida está lá, estou quase na metade do curso ainda. Vou sair de lá pra quê?

- Mulher sempre acha que tem um motivo pra gente ir embora, principalmente quando elas cismam que a gente não está mais interessado nelas.

- Gosto, mas... não sei te explicar...

- Mas não pra casar, né?

- É, acho que é isso aí.

- Tá certo, casamento é coisa séria. Se não fosse tão séria, não precisava de testemunha, não é verdade?

ANOTAÇÕES IMPORTANTES A RESPEITO DE HERODES

No último sonho de César acontece a cena da matança de crianças e a fuga de José, Maria e o menino Jesus para o Egito. Ao acordar, César, recorda-se dessa passagem bíblica e que a ordem para matar todos os recém-nascidos havia partido de Herodes. Em primeiro lugar é preciso saber qual foi esse Herodes e é justamente aí que se encontram muitas confusões e controvérsias. A história dessa mal afamada família percorre todo o relato dos evangelhos e chega até o livro de Atos. A árvore genealógica resumida aponta pelos menos seis deles. São os seguintes: Herodes, o Grande; Herodes Arquelau; Herodes Antipas; Herodes Felipe; Herodes Agripa I e Herodes Agripa II. Os dois mais importantes historicamente são Herodes, o Grande e Herodes Antipas.

Herodes, o Grande, mereceu o cognome com que passou à História, por altos dotes políticos e principalmente militares. Ainda moço, logo após seu segundo matrimônio, foi acometido por um amor insano, doentio, em que havia mais ciúme do que qualquer outro sentimento.

Poucos homens começaram tão cedo a vida pública e com tal precocidade deram mostras de valor militar e tino administrativo. Tinha apenas quinze anos quando seu pai, Antipater, o nomeou governador da Galiléia, província constantemente ameaçada por bandos de salteadores. Herodes não só extinguiu esses malfeitores como organizou ali uma administração competente, que lhe assegurou a rodem e, com ela, a prosperidade. Tudo isso em um ano, grangeando, desde logo, renome que o tornou conhecido e admirado até mesmo em Roma.

Foi nessa época que, pela primeir