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Lisandro
Novel: 30 andares
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Joined date: October 11, 2007

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30 andares
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30o. Andar

30 de novembro de 2007

Toda vez que olhava pela janela Jorge sentia uma certa vertigem. Também não era pra menos. 30 andares o separavam do chão. Lá embaixo, correndo pelas ruas como pequenos pontos pretos, as pessoas tentavam ganhar a vida em prol, contra ou em volta da empresa dele. De lá até aqui, mais uma mpntanha de pessoas o separava do chão. Algumas a seu favor, algumas só ganhando a vida, algumas contra ele. Seria esse o caso de Luciana?

O telefonou tocou:

- Fala, Marisol.
- Seu Jorge, o doutor Alberto chegou.
- Manda entrar.

Jorge passou a mão na barba grossa procurando algum ponto ressaltado, levou as duas mãos ao cabelo tomado de gumex para abaixá-lo e sentou na sua cadeira. Alberto entrou.

- Bom dia, doutor Jorge.
- Deixa disso, Alberto. Senta aí.
- Obrigado.
- Diz aí, como está a minha situação?
- Posso ser sincero?
- Claro, eu pago às pessoas pra serem sinceras. Falsidade eu consigo de graça.
- A situação não é nada boa.
- Mas tá tão ruim assim.
- Isso aí.
- Como? Eu nem fiz lá tanta coisa.
- Eu sei, mas, na verdade, o que mais te complicou foi você mesmo.
- Como assim?
- Você se lembra quando instituiram o programa “Respeito Total” para...
- ...melhorar a convivência entre os empregados, prestadores de serviço e etc de qualquer função e poder. Sei, sei. E daí?
- E daí que isso foi um tiro no pé.
- Ainda não entendi.
- Bom, o episódio que aconteceu no começo do mês poderia se caracterizar como uma das infrações mais graves ao próprio programa que você criou.
- Eu não crio nada por aqui, Alberto, só caneto.
- Sei, mas, para todos os efeitos, a idéia e a intenção são suas. Logo, ver você quebrando a regra que você mesmo criou colocaria todas as suas outras decisões em cheque.
- Meu Deus, isso tiraria o crédito da gente...
- ...pra lançar nossas ações na bolsa de Nova York. Exatamente.
- Puta que pariu, Alberto. Como eu fui me meter nessa. Por conta de um impulso. Uma merda de um impulso.

Jorge fechou os olhos com força e pressionou as têmporas com as mãos como se quisesse esmagar a própria cabeça. Alberto se levantou e rodou sem rumo o escritório até encontrar uma jarra d’água. Estranhamente tremendo, serviu um copo e o colocou sobre a mesa de Jorge.

- Toma um gole- sugeriu.

Jorge abriu os olhos, encarou o copo dágua e levantou sua cabeça para olhar com atenção em tanto tempo para o seu advogado. Alberto, apesar de ter a mesma idade que ele, parecia muito mais jovem. Uma das vantagens de ter um grande contrato como o dele e pouco precisar fazer. O terno bem cortado, a cara lisa e máscula, criada a partir de muita malhação e plásticas que negaria até a morte, criavam a ilusão de poder e prosperidade necessária a um grande consultor jurídico. Mas agora, esmagado pelo seu pequeno mas fatal erro, por trás dessa máscara Jorge conseguia ver o terror de alguém prestes a perder tudo: casa, carros, luxos, a esposa, a amante e tudo muito mais.

Jorge empurrou o copo com as costas da mão, suspirou e se levantou. Virou-se para a janela, ficando de costas para Alberto e olhou pela grande parede vidraçada que lhe servia de janela. Lá embaixo, os pequenos pontos pretos pareciam correr com mais vigor como se pressentissem que o castelo estava para cair. Como se sentiriam os 30 andares de gente que o protegiam da rua? Estariam também se desfazendo como pedras de sal?

- Então,- Jorge se recompôs- dá pra sair dessa?
- Dá. Mas só tem um jeito.
- Qual?
- Ela tem que tirar a queixa.
- E isso lá vai funcionar? Todo mundo no prédio já está sabendo da história.
- Bom, é verdade, mas se ela tirar a queixa o “boato” não passa muito além daqui e não afetará tanto assim a empresa.
- Ela precisa tirar a queixa, né? Já falou com a advogado dela?
- Já e, infelizmente, ele está muito ciente do mal que pode nos causar.
- Quando eu posso falar com ela?
- Eu pedi que ela viesse aqui hoje.
- OK. Vamos ver o que eu consigo fazer.

*

O dia passou como qualquer outro. Jorge leu e-mails aos quais respondeu monossilabicamente, atendeu ligações de pessoas que fingiam não saber do que estava acontecendo e tomou decisões que, Deus permita, não iriam lhe colocar em mais uma enrascada. Quase no final do expediente, Luciana chegou.

Marisol abriu a porta para Luciana e seu advogado. De cabelo solto, ela em nada lembrava a menina comportada que havia protagonizado com ele um dos maiores embaraços da sua vida. O advogado, como qualquer um que estava em cima da carne seca, escondia o seu sorriso milionário atrás de uma expressão serena de falso profissionalismo.

- Sentem, sentem – Jorge comandou.
- Muito obrigado, doutor Jorge, – o advogado assumiu o controle- mas não é preciso. Seremos breves.
- Tá, o que vocês querem?
- Em primeiro lugar, gostaríamos de dizer que não temos a menor intenção de prejudicar o senhor ou a sua companhia. Apenas queremos a reparação devida pelo mal causado à minha cliente.
- OK, OK e quanto isso nos custaria?
- Acho, doutor Jorge, que não estamos falando apenas de um caso de reparaçção financeira, mas...
- Vamos parar de enrolação, doutor... doutor... qual é o seu nome mesmo?
- Alberto.
- Putz, outro Alberto.
- Como, senhor?
- Nada. Vamos. Me diga: o que posso fazer por vocês?

O outro doutor Alberto se virou para Luciana procurando alguma instrução. Com o olhar perdido, sem olhar para nenhum dos homens presentes, ela balançou a cabeça. O advogado tirou um cartão do bolso e colocou sobre a mesa. Jorge se esticou para pegá-lo, leu a quantia rabiscada, pensou por alguns segundos e o devolveu a mesa.

- Bom , temos um acordo- sentenciou.
- Que bom, doutor Jorge – o advogado finalmente sorriu.
- Então, com isso tenho a garantia de que a queixa será retirada?
- Bom, formalmente, não podemos assinar nada dizendo que iremos evitar qualquer processo mas...
- ... a quantia garante o nosso acordo informal.
- Exatamente.
- Bom, obrigado. O meu advogado entrará em contato com vocês. Até e uma boa noite.

Jorge rodou na sua cadeira e se virou mais uma vez para a sua janela. O advogado quase não conseguindo esconder a sua felicidade acompanhou Luciana até a porta. Ao virar a maçaneta, Luciana se manifestou pela primeira vez:

- Posso ter uma palavra com o senhor, doutor Jorge?

Jorge se voltou para a porta e viu o advogado nervoso querendo puxá-la em direção a saída. Ela olhou com severidade para o advogado, saiu do seu agarro e se encaminhou ao meio da sala:

- Então, doutor Jorge, o senhor me dá um momento?
- Claro, minha filha.

O advogado fez menção de voltar à sala.

- Sozinha?- complementou, o encarando.
- Sim, com certeza – Jorge respondeu.

O advogado, tenso com a situação inesperada, saiu e fechou a porta. Jorge se levantou e, cuidadosamente, se manteve antes da linha que demarcava o fim de sua mesa:

- Então, minha filha. Diga.

Luciana suspirou, contraiu o lábios como se preparada para dizer algo que guardava há muito dentro de si.

- Luciana,- Jorge se surpreendeu ao dizer o nome dela – vamos fale. Pode ficar tranquila. Fale o que quiser. Nada de mal vai lhe acontecer. Vamos. Diga.

Luciana disse.

*

Já era quase 1 da manhã quando, Josemar, o faxineiro do turno da noite entrou na sala de Jorge. Automaticamente, ele começou a buscar os papeís da lata de lixo próxima a porta.

- Josemar? – ouviu uma voz vindo da sala.

Josemar deu um pulo e tentou ver na penumbra da sala se havia alguém escondido. Com um pouco de dificuldade, ele conseguiu perceber Jorge sentado em sua cadeira olhando pela janela.

- Seu Jorge? – procurou uma confirmação.
- Sou eu, Josemar. Já é tão tarde assim?
- É, seu Jorge. Já tá quase terminando o meu turno.
- Josemar?
- Sim, seu Jorge?
- Eu sou um mau patrão?
- Que é isso, seu Jorge. Se não fosse esse emprego eu estaria numa pior.
- Tudo bem, eu te dei um emprego. Isso qualquer um poderia dar. Mas eu sou um mau patrão?

Josemar pensou e não soube o que responder. Simplesmente não conseguia entender o que o seu patrão queria ouvir.

- Seu Jorge, eu não estou entendo- se entregou.

Jorge virou a cadeira e encarou o faxineiro:

- Bom, nem eu estou me entendendo. Sei lá, o que seria um bom patrão pra você?
- O senhor?- Josemar arriscou.
- Não, Josemar, quais qualidades teria um bom patrão?
- Bom, ele precisa pagar em dia, né?
- Sei.
- Dar um salário legal e não encher muito o nosso saco.
- Eu encho o seu saco, Josemar?
- Não, senhor. Quase nunca nos vemos.
- Não, Josemar, vamos colocar dessa maneira: a empresa enche muito o seu saco?

Josemar torceu o rosto e suspirou:

- Posso ser sincero, senhor?
- Claro, eu pago as pessoas pra serem sinceras...
- ...falsidade o senhor consegue de graça- Josemar completou.

Jorge levantou da cadeira e começou a circular a sua mesa balançando a cabeça e rindo.

- Eu sou tão óbvio assim, Josemar?
- Como, senhor?
- Você consegue saber sempre o que eu vou dizer?
- Bom, tem uma frase ou outra que o senhor sempre repete.
- Diz uma outra.
- “O bem da empresa é o bem dos seus empregados”.

Jorge parou, apoiou o corpo na mesa e começou a rir. Josemar riu baixinho acompanhando e sentiu que essa era a sua deixa. Voltou a apanhar os papéis do lixo.

- Josemar, seja sincero, dá pra acreditar no que eu digo?

Josemar interrompeu o trabalho, ainda com a lata de lixo na mão:

- Pra ser sincero, nem sempre, mas isso é normal. Eu faço isso com os meus filhos e a patroa sempre. Se a gente quer alguma coisa, precisa dar uma melhoradinha na verdade...

Jorge olhou para o faxineiro e foi em sua direção. Mais por instinto do que por medo, Josemar retesou a postura. Jorge sentiu a tensão, mas, mesmo assim, abraçou o faxineiro. Depois de alguns segundos, Josemar perguntou:

- Posso ir, senhor?
- Pode, Josemar, desculpe pelo abraço- respondeu se disvencilhando.
- Não foi nada, senhor- disse ao sair da sala.- E pode ficar tranquilo que não vou dizer que o senhor me assediou nem nada ssim
- Obrigado. Obrigado.- Jorge riu.

Josemar fechou a porta e Jorge ficou mais uma vez sozinho. Olhou mais uma vez pela janela e não haviam mais pontos pretos correndo pra lá e para cá. Eram só as sruas vazias esperando por uma nova leva de gente, por um novo dia igual a tantos os outros. Uma folha de jornal passou na sua frente. Uma folha de jornal passando pelo 30o. andar. Como ela teria chegado lá? Se lembrou de uma história que seu pai contava sobre um suicida apaixonado que se jogará do maior prédio da cidade e que forá empurrado de volta para o prédio, são e salvo, por uma rajada de vento. “Quando Deus não quer, Deus não leva”. Seria esse o seu caso?

Alcançou o mecanismo usado pelo pessoal da limpeza para abrir as janelas e o acionou. Ventos fortes inundaram a sala lavantando papéis e objetos leves. Por um momento, sentiu como se tudo estivesse parado no ar. Olhou mais uma vez para baixo com os cabelos já desalinhados pelo ventaval, e decidiu testar a sua sorte. “Quando Deus não quer, Deus não leva” repetiu mentalmente e pulou.

Só torceu para que o turno de Josemar houvesse terminado. Se fosse obrigado a limpar toda essa sujeira, com certeza, ele o consideraria um péssimo patrão.

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