Genre: Mainstream Fiction
About adendo
Location: Brazil
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Elsewhere :: Brazil
Favorite novels: A maçã no escuro, Antes do baile verde, Quincas Borba
Favorite writers: Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis
Favorite music: Anything with interesting lyrics
Non-noveling interests: Photography
Joined date: October 15, 2007
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[romance em andamento]
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CAPÍTULO VI
Olhando a tela do computador, a raiva crescia. Havia gestado - sim, esta era a palavra certa - aquela personagem durante anos. Ela havia protagonizado cenas impressionantes na sua imaginação, nos momentos mais impróprios. No engarrafamento, quando tinha esquecido o bloquinho de anotações, ou, levando o bloquinho como se fosse a chave para sua salvação, tinha esquecido a caneta, ou levado aquela que não funcionava. Enquanto assistia uma peça com amigos, com medo de embaralhar seus diálogos àqueles ouvidos da boca dos atores no palco. Nas horas finais do prazo para entregar "o" relatório ao chefe. Depois da prorrogação do prazo para entregar "o" relatório ao chefe. Sempre que não podia escrever, lá estava ela. E, agora, com todas as facilidades, com a exclusividade de sua atenção, ela se negava a se mostrar em toda a sua glória. Inofensiva. Chata. Sem propósito. Quem se trancaria em casa num verão de quarenta graus para ouvir aquela mulher dentro de sua cabeça e escrever pacientemente o que ela lhe ditava com a economia de um pão-duro profissional, mal bastando para encher quatro páginas? Quer saber de uma coisa: essa porcaria estava era mesmo parecendo um de seus relatórios dos tempos de assistente de vendas. Tempos que não deveria ter largado. Era mais emocionante fazer aqueles produtos encalhados parecerem uma estratégia genial para vendas espetaculares a longo prazo do que agüentar a mulher que tinha criado. E ainda por cima, agora que largara o emprego, ia agüentar a sua em tempo integral. Dose dupla.
[...]
CAPÍTULO VIII
[...]
Gravei o texto no CD, marquei com letras bem grandes, "ROMANCE EM ANDAMENTO - 2007 - CÓPIA DE SEGURANÇA", coloquei dentro da caixa de plástico transparente e joguei em cima da mesa. Joana não usa computador, não vai nem pensar em checar se tem mesmo coisa aqui. E se lesse também não ia saber que estava uma porcaria. Só lê poetas líricos contemporâneos, pra esses ausência de enredo e situações sem sal são como o ar. Capazes de pegarem a minha musa e fazerem um livro inteirinho para ela. Pensar não está me ajudando.
CAPÍTULO XXII
Sentado na poltrona, era difícil imaginar que havia feito aquilo mesmo. Jogar numa mala meia dúzia de coisas, dizer tchau a Joana e comprar a passagem. Respirei fundo. Era isso mesmo. Por anos, havia me torturado com os pensamentos de que seria um ótimo escritor, se escrevesse. De que a empresa e seus relatórios ridículos me sugavam a "energia criativa" que eu tinha. Sempre acreditei que, se tivesse a chance, se tentasse, seria bom nisso, mas nunca havia realmente tentado. O pedido de demissão mês passado havia sido um passo tímido nessa direção, mas tinha ficado em cima do muro, e, pra ficar me equilibrando e tentando ver os dois lados da moeda ao mesmo tempo, era melhor me jogar logo. Tanto melhor se fosse do lado errado. Ia ter estórias para contar, não é o que dizem? O lado certinho só tinha me dado uma vida de querer que minha vida fosse outra.
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