Genre: Historical Fiction
About MpizaLocation: São Paulo, SP, Brazil Home Region: Age:52 Website: http://www.mpiza.art.br Favorite novels: Winter’s Tale, Grande Sertão: Veredas, Ubik, The Marriage of Cadmus and Harmony, Dandelion Wine, Martian Chronicles, Something Wicked This Way Comes, Cat’s Eye, Cien Años de Soledad, Jerusalem Quartet, Rayuella, Historia de Cronopios y de Famas, La Peste, The Castle, The Trial. Favorite writers: Guimarães Rosa, Mark Helprin, Roberto Calasso, Umberto Eco, Lima Barreto, Machado de Assis, Edward Whittemore, Ray Bradbury, Philip K. Dick, Margaret Atwood, Dickens, Camus, Kafka, Gabriel Garcia Marques, Julio Cortazar, Borges, Ariano Suassuna, Henry Miller, Kerouac, Luiz Ruffato. Non-noveling interests: Philosophy, Painting, Sculpture, Drawing, Etching, Mythology, Playwriting, History, Astronomy, Arc welding. |
Joined: October 15, 2007 This Year: Official Participant NaNoWriMo History: NaNoWriMo posts: 7 NaNoWriMo buddies: 11
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Synopsis: Entre a Bigorna e o Martelo (Between the Anvil and the Hammer)
This is a story that spans three generations of blacksmiths. Its beginnings are in Australia with the story of an Australian anarchist of the Sydney Push (the Sydney bohemian circle) in the twenties, and later of his libertarian son in the fifties, who emigrates from Australia to Tanganyika immediately before its independence and later fusion with Zanzibar (which results in present day Tanzania). He then moves on to Mozambique, where he gets involved in running a worker controlled Steel Mill after the independence. His son grows up to fight on the side of the FRELIMO during Mozambique’s war of independence and subsequent civil war.
Excerpt: Entre a Bigorna e o Martelo (Between the Anvil and the Hammer)
De como Bomani virou Pemba
— Vou trabalhar na forja como o meu pai e como o meu pai antes dele. Nós sempre trabalhamos na forja, Meri. Você sabe disso.
— Sei Bomani. Você já me contou daquela coisa toda da forja de barro que os seus antepassados construíam um monte de vezes. Mas ninguém faz mais isso hoje, faz?
— Faz ainda sim.
Eu sabia que não era verdade.
— Se ainda fazem assim como antigamente, então porque seu pai está trabalhando lá na oficina com o meu? Diz para mim então?
Caminhamos em silêncio durante um tempo. Ele estava com uma expressão irritada. Bomani não gostava de ser contradito. Mas eu nunca tive muito papas na língua, mesmo quando pequeno, mesmo sendo menor, mesmo olhando para ele como a um gigante, com os olhos arregalados.
— É só por agora. Não vai ser pra sempre.
— Onde estamos indo, Bomani?
— Você vai ver. Não confia em mim? Eu não tinha muito porque confiar, mas eu não quis lhe dizer isso, só fiquei quieto.
— Você vai ver, espera. Precisa saber esperar, Meri. Precisa ter paciência e caminhar bastante, se não, não se acha as coisas que valem realmente a pena serem achadas.
— E você achou alguma coisa importante, então? Conta-me logo, Bomani.
Bomani ignorou a minha insistência e eu caminhei olhando de lado para ele, examinando meu amigo. Ele era alto, esguio e forte e parecia um guerreiro. Para os meus olhos, pelo menos, parecia. Era assim que eu imaginava um guerreiro, como os que eu via nas capas dos livros de Tarzan que meu pai tinha na biblioteca. Com aquele passo, com aquele porte. Fiquei imaginado que ele carregava suas armas nas mãos paralelas ao corpo: a lança, o arco e as flechas. Ele caminhava com um passo largo, mas quase pausado, como se cada vez escolhesse o lugar onde ia pousar o pé antes de pisar no chão. Era assim que um guerreiro deve andar, pensei. Eu lhe imitei o passo. Bomani olhou para mim e eu disfarcei a passada e pulei um pequeno galho que estava atravessado na rua.
— Grandes coisas, Meri. Nós vamos fazer grandes coisas, nós dois.
Eu me enchi todo, estufando o peito, e tentei de novo acompanhar o passo dele sem ficar para trás. Com todo o pausado que tinha nos seus passos, Bomani andava bem mais rápido do que eu.
Era a hora do por do sol e o calor começava a ser tolerável. Andar no sol já não era um suplício, já não era mais o dilema entre usar as camisas com manga comprida e chapéu no calor extenuante ou sair de camiseta sem chapéu nenhum, fritar e sofrer as consequências. Bomani ria de mim nessas horas dizendo:
— Não és daqui da áfrica mesmo, miúdo.
— Papai diz que na Austrália era igual.
— Então, é porque não eras de lá também.
Mas não estava assim, agora. Agora estava quase fresco. A brisa vinda do mar ia resfriando os restos do forno do dia.
Desviamos por uma pequena travessa e fomos andando, subindo e descendo do meio fio, andando por sobre as tábuas, escalando e descendo pelas pilhas de areia na frente das obras das casas em construção, saltando sobre muretas, seguindo a caprichosa linha reta das crianças, quando estas estão explorando, quando são senhores do mundo.
A rua finalmente terminou, mas Bomani não parou, esticou a mão e pegou um pau comprido que estava apoiado em um pedaço de cerca com um desdém de quem sabia perfeitamente que ele estaria lá esperando, ao alcance de sua mão, e entrou pelo mato do terreno do fim da rua adentro batendo o pau para espantar as cobras. O mato era cerrado e eu hesitei um momento em seguir-lhe. Mas foi só um momento, e depois segui atrás dele. O mato era bem menor do que parecia e depois de alguns passos já dava para ver uma trilha aberta. Era antiga e estava bem cheia de plantas e pequenos arbustos que tentavam transformar de volta tudo aquilo no mesmo mato ralo. Bomani ia batendo com a vara, cortando qualquer planta que estivesse em seu caminho com abandono, como se derrubasse seus inimigos, como se aniquilasse seus opositores, como se derrubasse os insolentes que teimavam em desafia-lo, poluindo a pureza da sua trilha, do seu caminho, com sua presença. Eu olhava aquilo tudo e apertava o passo junto dele.
Bomani, vai ficar escuro. Fica ruim para voltar. Mas não falei nada disso, não. Não queria que ele achasse que eu era covarde. O caminho era longo e o lugar não tinha construção alguma. Apenas aquela marca um pouco mais gasta indo em direção ao sol poente. Estávamos de frente para a baia, indo para oeste, portanto. O outro lado da península dava frente ao oceano aberto, o vasto Oceano Índico. Em linha reta para este estaria a Austrália. Mas como meu pai tinha me dito, nós viramos as costas para a Austrália. Aqui nós estamos de frente para oeste, para a áfrica. Como ele dizia: para o começo, e quem sabe, um novo começo de tudo.
Subimos uma trilha sobre um pequeno monte e saímos diante de um imbuzeiro enorme diante da Baia de Pemba. O sol estava se pondo por trás e a árvore ficava siluetada contra o horizonte avermelhado com seu sol ofuscante, aquecendo nosso rosto mesmo em seu momento derradeiro. Bomani se plantou diante da árvore com os punhos na cintura e um sorriso largo cheio de dentes. Muitas poucas vezes eu vi Bonomi sorrir daquele jeito, mostrando todos os dentes muito brancos. Parecia que ia gargalhar. Ele estufava o peito e olhava para mim. Como se ele houvesse matado um leão e estivesse só aguardando as justas homenagens, os elogios e louvores, a consagração e os comentários.
— Um imbuzeiro, Bomani, grande coisa! Está cheio deles por ai. Ora.
Ele deu um passo para o lado.
— Sobe, então, metido. Vamos ver.
Só então vi a escada ali, subindo numa cava do tronco que se abria atrás dele. Uma escada em um Imbuzeiro! Olhar uma daquelas árvores de perto era sempre um susto. Se aproximar dela era às vezes uma coisa que não acabava mais. Ela ao longe sempre parecia menor do que realmente era, e a aproximação durava e durava. Parecia que se ia sumindo diante daquela enorme parede de madeira.
— O que é isso, Bomani? Eu hesitava.
— Estás com medo, miúdo? Eu não gostava quando ele me chamava de miúdo. Eu só era dois anos mais novo do que ele. Ele também era criança como eu, eu pensava nessas horas.
— Não tem importância, subo eu então! E sumiu escada acima. Apressei-me em segui-lo.
Uma casa em um imbuzeiro, uma casa de madeira! Só a subida parecia interminável. E dava para ver de um pequeno terraço precário, toda a vasta baia de Pemba, todos os 50 quilômetros dela.
— Tudo isso me pertence, Meri. Eu ri. Ele ria.
— Tudo isso vai ser meu um dia. O Dono da Baia de Pemba. Mas te concedo participação. Pode olhar tudo que quiseres.
O Senhor da Baia de Pemba. Pemba. Pemba. Nunca mais o chamei de outra coisa.
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