Joined date: October 25, 2007
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capítulo 1
Um cigarro entre os lábios. A brasa acende. A garganta queima. O pulmão se destrói. Por um flash de segundo, o prazer. O cursor pisca no monitor. A tela ainda branca. Um copo com gelo e vodka. Pura. Um gole. Ardor. Depois, prazer. Idéias somem tão rápido quanto aparecem. Outro gole. Copo vazio na mesa. O rosto se contrai, os olhos se fecham, e quando abrem, por um flash de segundo, algo gira. Outra tragada. Uma palavra lhe foge à mente. A fumaça catalisa o efeito do álcool. Leva as mãos ao teclado. Hesita. Escapou novamente. Talvez mais uma dose? Não. Concentre-se. Está tudo aí, só precisa escrever. Escreva. As mãos ainda evitando o teclado. Mais uma longa tragada. O cigarro se deita no cinzeiro. Minuciosamente alinhado à direita do computador. Organize-se. Os dedos teclam: Naquele dia J. acordou sozinho. Protagonista sem nome. O mundo acabou e os deuses esqueceram-se dele. Boa frase. Um homem sozinho. Texto sobre solidão. Sem perceber: os dedos no cigarro, o cigarro entre os lábios. Cadeira vazia. Congelador aberto. Copo vazio. Copo cheio. Congelador fechado. Copo vazio. Súbito furor. De volta à cadeira. O cursor pisca no monitor. Algo lhe escapa. Reunir as idéias: o mundo acabou, só restou uma pessoa. E o enredo? Um protagonista só é suficiente. O que se passa na sua mente? Medo, desespero, impotência, insegurança, liberdade? Um cigarro morre, outro nasce de suas cinzas. Merda. Os minutos passam. A mente divaga. Está em outro lugar agora, não sabe dizer onde. Como fumaça os pensamentos fluem por sua cabeça. Começam como um fio coeso, inpalpável, e logo se dispersam num turbilhão. Disciplina. Preciso de disciplina. Imagens que não dizem nada. Personagens sem contexto. Histórias sem propósito. Palavras que brincam, que escapam. Que ganham vida própria, que se rebelam. Imagina Dostoiévski imaginando o que imaginava Raskólnikov. William Burroughs transcrevendo sua loucura. E quanto a mim? O que eu tenho? Escreve: nada. Apaga, com medo. Uma história sobre o nada? Como? Talvez um outro cigarro traga a resposta. Não, nada. Sente-se preso. Hipnotizado pelo vazio do monitor. Pelo seu vazio? O cursor ainda pisca contra o fundo branco. O cursor ainda pisca no fundo de sua mente. O que ele queria? Eu quero tudo. Todas as vidas. As que nunca tive e as que nunca terei. Separadas de mim pelos disfarces do tempo, do espaço e da realidade. Para tê-las todas, não podia entrega-se a nada. E, por um instante, ele entrou em choque. “Um homem sobe ao espaço e se mata por ter passado seis horas seguidas observando de sua minúscula janela a imensidão do planeta azul e verde e percebido o quanto ele nada significava. A cantora de jazz afogada numa bucólica melancolia de gim e cigarros após perder o marido de cinqüenta anos de união. O arauto que segue nas sombras, rejeitando o resto da humanidade e a santidade da vida”, imagens lampejavam em sua mente turbinada. O suor lhe escorria pelas costas. Um cigarro pendia frágil entre os lábios. Sentiu-se parado em frente à sua própria lápide, lendo o epitáfio que ninguém nunca escreveria.
“Estou enlouquecendo”, sussurrou para si mesmo. É no mínimo irônico que eu tenha um bloqueio no meu primeiro livro, pensou. Mas não era a primeira vez e já havia decidido que iria continuar.
Acendeu um novo cigarro e se recostou na cadeira. A almofada ainda nova e rígida gritando à medida que se estirava. Escrevia em seu laptop na mesa de jantar. Acompanhado de um cinzeiro e um elegante jarro de flores artificiais. A sala estava escura mas notava-se já a luz surgindo por detrás das cortinas. Que horas seriam, indagou. Talvez seja toda essa escuridão que me faça mal. Levantou da cadeira e abriu as cortinas de ponta a ponta, deixando entrar um mar de luz amarela e confortante. Eram ainda oito horas da manhã. Um longo dia, certamente, pensou.
Voltou para a cadeira, colocou seus headphones e selecionou In my time of dying, do Led Zeppelin. Deixou os acordes fúnebres da guitarra inicial lhe acalmar. Quando a bateria entrou, abriu os olhos.
“Naquele dia J. acordou sozinho. Não figurativamente. Naquele dia J. acordou sozinho, no sentido mais literal possível da expressão. O mundo havia acabado e os deuses esqueceram-se dele. J. era agora o único ser humano a ser encontrado num raio de infinitos anos-luz.
Morando sozinho, levou algum tempo para que ele desconfiasse de alguma coisa, e, obviamente, ao notar fatos estranhos como a falta de energia elétrica ou o incomum silêncio de sua normalmente inconveniente vizinha, ‘que merda, o mundo acabou’ não foi a primeira coisa a passar por sua cabeça, embora ele tenha xingado em alto e bom tom toda uma geração de engenheiros elétricos quando sentiu o toque da água gelada do chuveiro. Ficou ainda mais nervoso com o resto de sanduíche estragado na geladeira estifada e com o fato de sua tão preciosa cafeteira elétrica não estar funcionando. Sem mais opções, trocou de roupa, acendeu seu cigarro matinal e partiu para o trabalho, não sem antes ter que descer treze andares de escada, já que o elevador, para a sua agradável surpresa, estava quebrado. A cada dois andares J. falava para si mesmo que era provavelmente a pessoa mais azarada do mundo.
Ao colocar os pés para fora do seu prédio é que J. começou a reparar que havia algo realmente errado sobre aquela manhã. Ao colocar os pés parar fora, J. não foi esbarrado por nenhum desconhecido, nem incomodado por um mendigo, ou quase atropelado por um carro. Ao colocar os pés para fora havia só o silêncio, pacífico e aterrador, tranqüilo e desconfortante. Novamente, ‘que merda, sou o único ser humano restante no mundo’ não foi a primeira coisa a passar por sua cabeça. Desnorteado por aquela incomum calmaria, J. saiu andando pelas ruas, sem saber o que pensar a princípio. Parecia ter entrado em um tipo de transe, e achava que se continuasse andando tudo voltaria ao normal.”
Três horas mais tarde, com dois maços de cigarro no pulmão, João se levantou da cadeira tonto, com sua garganta ardendo, a língua adormecida, e sentindo como se alguém tivesse torcido seu cérebro e espremido todo seu sangue fora. Sentia-se também terrivelmente faminto.
Vestiu uma calça, seu insistente All-Star preto, uma blusa branca e saiu.
No carro, escutou o noticiário como som ambiente. Precisava de um tempo livre para esvaziar a cabeça.
João foi ao shopping. Acreditava que sua jornada matinal compensava pagar para alguém lhe fazer o almoço. João comeu em um rodízio de massas. Nhoque no molho bolonhesa, com um pouco de arroz branco, batatas gratinadas e dois pedaços de filé mignon ao molho madeira. Gostava da mistura dos sabores. Era o mesmo prato que fazia sempre que vinha a esse restaurante. Sentava-se numa das mesas menores ao canto e engolia sem pressa seu almoço junto com um copo de Coca-Cola, enquanto observava casualmente o comportamento dos demais fregueses e dos garçons. Incógnito, sob a aparência da rotina casual. Gostava de estar em locais públicos. Vagando sozinho por entre as multidões. Conjeturando idéias e fingindo se misturar. Às vezes dava voltas pelos corredores sem nenhum propósito maior do que matar o tempo. Era prazeroso, ainda que um tanto solitário. Parava em alguma livraria e buscava ler os parágrafos iniciais de uma quantidade diversa de livros. Às vezes ficava a observar as escolhas dos outros clientes. Principalmente se fossem mulheres, desacompanhadas. Então fingia estar interessado em um autor semelhante ao que elas buscavam. Na esperança de que, ao ver aquele demonstração inconfundível de um gosto comum ao seu em outra pessoa, a moça ao seu lado iniciasse uma conversa. O que só aconteceu uma vez.
“Sabe me recomendar alguma coisa desse autor?”, perguntou uma vez uma garota morena, talvez universitária, depois de ler a orelha de um romance de Haruki Murakami e reparar que ele fazia o mesmo com um outro exemplar do mesmo autor. “Eu não conheço nada dele, mas esse aqui parece interessante. Mas se é para gastar quarenta reais num livro, é bom que ele seja muito bom.” Ela terminou a frase com um sorriso distraído no rosto. Sem jeito, João respondeu que, infelizmente, também na conhecia nada daquele autor. E não disse mais nada. A garota desistiu de levar o livro. Mais tarde João pensou em todas as maneiras possíveis em que poderia ter levado aquela conversa. No mínimo poderia ter lhe indicado algum outro autor. Nos últimos tempos, João tem tentado não se remoer tanto com esse tipo de coisa.
Naquele dia, João seguiu direto do restaurante para o seu carro. Enquanto comia, idéias surgiam em sua cabeça. Pequenos fragmentos da sua história que ele ansiava em descobrir o que havia por detrás. Temia que se não as prendesse com palavras em algum lugar, iriam sumir.
Sua casa não era longe do shopping. Dez minutos de carro. O tempo exato para se fumar um cigarro. Impedia que sua mente divagasse demais. João morava num bairro de classe média-alta. Um bairro traquilo. Monótono na maior parte do tempo. Entre tantas casas elegantes, clássicas, modernistas, vanguardistas e exóticas, a sua se destacava pela simplicidade imperante. Formas retangulares secas e brancas. Um gramado verde-esmeralda, impecavelmente aparado e sem personalidade. Por dentro, mantinha-se também a brancura do lado de fora. Todos os cômodos eram brancos. Mobiliados minimamente. Apenas o necessário.
João encheu um generoso copo de uísque dessa vez e o levou para junto do computador. Começou a escrever:
"J. correu o máximo que pode. Não sabia do que fugia, nem o que buscava. Mas, naquela hora, sentiu como se sua vida dependesse de não ficar parado."
Seus dedos percorriam agil e corazmente o teclado de plástico.
"J. encostou-se no poste e puxou o ar para dentro do peito o mais forte que conseguia. Sentia seu coração batendo violentamente contra sua caixa torácica. Seus músculos se contraíam em espasmos descoordenados, parecendo que todo seu corpo iria entrar em colapso. No rosto, o suor da exaustão se misturava às lágrimas do desespero.
'Que diabos está havendo?', ele resmungava para si mesmo. 'Cadê todo mundo?'
Era um visão realmente aterradora. J. reconhecia a rua em que estava. Mas ao mesmo tempo não. Eram os mesmos prédios e lojas que estava acostumado a ver diariamente no caminho para o escritório em que estagiava como assistente financeiro. Mas aí acabavam as semelhanças. Deserta, a rua se tornara um reflexo pálido de suas lembranças. Algo saído de um pesadelo. Com o fólego recuperado, J. foi até o meio da rua e olhou ao seu redor, procurando em cada janela, em cada esquina, algum sinal de vida. J. não encontrou nada. Um silêncio estarrecedor caiu sobre ele como uma mortalha, sufocando-o. Um sentimento de horror, diferente de tudo que ele já havia sentido, se apossou do seu coração diante de uma verdade ilógica demais e assustadora demais para que seu cérebro processasse. Incapaz de aceitar o que seus próprios olhos viam, J. tentava firmemente se agarrar à idéia de que estava sonhando. Acordado dentro de um sonho. Mas, sem que houvessem quaisquer explicações, uma parte de sua mente sabia que não havia nenhuma ilusão. Foi quando uma solidão quase insuportável se apossou de seu espiríto."
Em cinco minutos João escreveu tudo que tinha para escrever. Não havia mais nada.
Organize-se, pensou. Obviamente não posso ter um romance inteiro sobre os pensamentos de um personagem. Mirei alto demais. E se ele não for o único? E e houverem outros? Quem? Uma mulher talvez. Como ela seria? E a história? Preciso de uma trama. Não tenho nada. Merda. Não pode ser tão dificil assim. É ficção. Eu posso inventar o que eu quiser, quem eu quiser. Só depende de mim. Da minha imaginação. Deveriam haver então outros sobreviventes? É esse o problema? E se um deles fosse um necrófilo. Alguma coisa então pareceu se encaixar dentro sua cabeça. Para logo depois desmoronar. Mas não há cadáveres, pensou. Não foi assim que eu imaginei o fim do mundo. Não há corpos. Há, justamente, a ausência deles. Não ficou nada além das lembranças. Sem corpos, repetiu para si mesmo. Sem corpos. Havia alguma metáfora escondida ali. João sentiu firmemente que talvez fosse a chave para o que ele queria criar. Mas não sabia o que era. Aquilo o amedrontava, ao mesmo tempo em que o atiçava com uma curiosidade febril. Diante de sua impotência momentânea, João decidiu que era melhor parar. Dar um tempo para a história crescer em sua cabeça.
Ele passou o reso da tarde assistindo a filmes de Wong Kar-Wai, lendo contos de Edgar Alan Poe e ouvindo Radiohead nos momentos livres. À noite, decidiu voltar a escrever.
Mais longos minutos João passou sentado, imóvel, de frente para seu computador. Sentia-se frustrado, impotente. Além disso, estava começando a ficar embriagado. Entornava um copo de uísque atrás do outro garganta abaixo. Quanto mais tentava se concentrar em sua tarefa, mais divagava. Era como seus pensamentos não lhe obedecessem mais. Ele sentia que a história estava guardada em algum canto de sua mente. Só não conseguia tirá-la de lá. Eu tenho um protagonista aprisionado em minha falta de criatividade, pensava. Tentava se colocar dentro da história. Se imaginava num mundo acabado, desolado. Mas não conseguia, efetivamente, se colocar lá dentro. Minha história está errada?, duvidava de si mesmo. Talvez não seja a história que eu deva contar. Mas uma voz silenciosa em seu sub-consciente o impelia a continuar. Talvez haja algo de errado comigo.


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