Genre: Fantasy
About DreamGazerLocation: Barcelos, Portugal Home Region: Age:25 Website: http://capala.wordpress.com/ Favorite novels: Harry Potter, Le magasin de suicides, Eleven minutes Favorite writers: J.K. Rowling, Tachibana Higuchi , Minetaro Mochizuki Favorite music: Muse, She wants revenge, Chevelle, Cold, Nine Inch Nails, Linkin Park, Guano Apes, 30 Seconds to Mars, Seal Non-noveling interests: Drawing, Making Comics and Graphic Novels, Cinema, Photography, Painting, Reading |
Joined: October 28, 2008 This Year: Official Participant NaNoWriMo History: NaNoWriMo posts: 28 NaNoWriMo buddies: 49
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Brief Author Bio: I write since 1998, but I've always loved literature and the Portuguese language. In 2008 I wrote "Angel Gabriel" during NaNoWriMo |
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Synopsis: V.I.D.A.
Amidst the flames and chaos of the world, a small baby appears, alone and unknowing. Learning with her mistakes, she knows the land better than anyone and she's the one who sees it change little by little, amazed by its beauty and unpredictability.
When a second baby appears, near the new founded ocean, she takes care of her and raises her, becoming attached to a creature so much like her, but at the same time so different it hurts each time she touches it.
As two other babies appear, according to the changes in the land she thought she knew, the oldest child is bound to teach the others how to coexist and to try to understand what is happening to the world they inhabit and which changes and grows old as they age.
Watched from a distance by an unwilling and placid woman, they have no one else to turn to. Their actions are pure, yet by knowing nothing, they can bring about disaster in proportions they never imagined possible.
This is the story of a beautiful world. How it came to be, how it got destroyed, and the people it changed along the way.
Excerpt: V.I.D.A.
V.I.D.A.
Uma noveleta de Ana C. Nunes
Email: anacorvonunes@gmail.com
Site: http://anacnunes.cjb.net
Blog: http://capala.wordpress.com
Esta não é uma daquelas histórias que termina com um “E viveram felizes para sempre”, mas, estranhamente, não seria mal iniciá-la com um “Era uma vez …”, mas, para não cair em clichés, aqui fica uma das muitas histórias que o universo conta, mas poucos parecem ouvir.
Capítulo 01
O chão ressoava com a força dos vulcões e a lava pintava a paisagem das cores do fogo. O chão fervilhava e os vapores enchiam a atmosfera. Não se via o céu, nem se esperaria ali ver algo que se assemelhasse a vida. Aquele era uma terra maldita, coberta pelo ardente fogo da criação. Indomável, inabitável.
Acima de qualquer outro som, um particularmente reconhecível e estranho àquela terra, soou por entre os ensurdecedores géisers. Era o choro de uma criança.
Com as costas repousadas no terreno rachado e quente do planalto, a criança choramingava com força, tentando chamar a atenção de uma qualquer pessoa, ou mesmo /a natureza furiosa que a rodeava. No meio de tanto caos e barulho, nada era mais nítido que os gritos dela. Ela que parecia acabada de nascer, não chorava com as dores das queimaduras que o seu corpo já deveria estar a sentir naquele momento, nem sequer pelo barulho que podia rebentar tímpanos, chorava antes porque se sentia só. Sei-o porque é este o mesmo choro que ela verterá no fim de tudo, quando o mundo lhe virar as costas e ela se vir sozinha, novamente. Irá chorar e a terra silenciará o seu caos, mesmo que apenas por breves instantes, para acolher o som mais puro que jamais foi produzido, e também o mais dorido.
Nuvens de fumo cobriram a criança, que pareceu aconchegada no seu calor e maravilhada pela forma como este se movia, sem razão ou direcção certa. O seu choro foi apaziguado e não tardou até que ela dormisse o sono dos inocentes, alheia à sua solidão, mesmo que apenas por algum tempo.
Foi apenas depois de o sono a tomar, que Hääl apareceu. A sua figura, alta, esbelta, quase que flutuando pela terra, como se esta fosse demasiado impura para a sua presença.
De onde ela veio?
Bem, eu sei de onde, mas a pequena criança agora embalado no sono, nunca o saberá. A verdade é que Hääl, imponente, impiedosa e amarga, nunca estará muito longe desta terra, que a própria amaldiçoa com todas as suas forças. Não pode ir muito longe. Sabe-o e é por isso que a odeia, a ela e a tudo o que a criança representa.
“Não posso acreditar.”
O olhar dela, focado na pequena bebé que dorme de barriga para cima como se o mundo todo a embalasse, deixa antever todo um ódio que armazenara durante mais tempo do que eu poderia contabilizar.
“Pensava eu que esta rocha quente não ia dar em nada, mas agora que esta … esta … peste aqui está … ARGH!”
Eu disse que ela era amarga.
Levando as unhas aos lábios, Hääl voltou ao seu velho costume de roer o sabugo. Aquelas que poderiam ser umas lindas e longas unhas, não passavam de raquíticas e defeituosas partes de um dedo demasiado comprido e completamente mal tratado.
“Eu podia sair daqui num instantinho, mas não! Tinha de me calhar uma rocha com vida. Mas porquê? Que mal te fiz eu, Deus?” – Erguendo as mãos aos céus, ela pareceu quase uma actriz dramaturga, implorando piedade ao Senhor. – “Que mal te fiz eu?”
Vendo que não obtinha qualquer resposta, ela baixou os braços, derrotada, soltando um suspiro pesado. Levou uma mão aos seus longos cabelos loiros e sacudiu-os dos seus ombros, como sendo demasiado altiva para carregar o peso da sua própria cabeleira.
Olhou uma vez mais para a criança, com um misto de desprezo, nojo e raiva, que seria capaz de paralisar os mais bravos guerreiros. No entanto, alheia a todos estes acontecimentos, a criança continuou a sua longa viagem pela terra dos sonhos.
“Maldita pirralha. Espero que caias num canal de lava e te afogues, ou queimes, ou QUALQUER COISA!” – Sacudindo os braços em desespero, Hääl, agora sem qualquer compostura ou altivez, caminhou para fora o planalto, desaparecendo rapidamente atrás das espessas colunas de fumo que não cessavam sob pretexto algum.
Este foi o primeiro e único encontro presencial entre Hääl e aquela que viria a ser conhecida como Vatra, a criança. As duas voltariam a cruzar-se, confrontar-se-iam e, certamente, discordariam muitas vezes, mas nunca frente a frente. Para Hääl, Vatra não era digna da sua presença, e para a criança, esta seria alguém inatingível. Uma força cruel que castigava sem motivo aparente e que se negaria a ajudá-la quando, no futuro, implorar pela sua ajuda.
Este é o início de um ciclo em tudo semelhante à VIDA. Imprevisível, feliz, triste, impiedoso.
Capítulo 02
Sozinha num mundo em constante mudança, e onde todos os caminhos iam dar a um vulcão, Vatra cedo aprendeu a sobreviver. A primeira coisa, e também a mais curiosa, que ela assimilou, foi que quando a barriga doía, ela tinha de comer. O mais interessante é que a comida dela era lava. Uma sorte, já que havia um canal ali mesmo ao lado, de onde salpicavam constantemente pequenas gotas e jactos de fogo. Vatra saboreava cada um desses petiscos como se de um manjar se tratassem.
O seu corpo não reagia às altas temperaturas, quer do magma, quer dos vapores quentes que emanavam do chão.
Cedo aprendeu a gatinhar e, ao contrário do que Hääl havia desejado, Vatra não só não se afogava nos rios de lava, como conseguia nadar neles, embora achasse o processo muito difícil pois tinha de fazer um grande esforço para dar as braçadas naquele fogo em estado semi-líquido.
Para uma criança que sobrevivia à base de fogo, plasma e vapores quentes, Vatra cresceu para se tornar numa criança muito saudável. Aprendeu a andar sozinha, depois de dar muitas vezes com o nariz nas rochas, e não tardou muito a descobrir que a terra onde vivia era enorme. O fumo não a deixava ver muito longe e por isso ela, curiosa e algo esperançosa de encontrar alguém para além de si, decidiu percorrer todo o território à sua volta.
Fosse ela para onde fosse, virasse em que direcção virasse, Vatra não via mais do fogo, fumo, rochas e montanhas tão altas que ela ficava sem fôlego ao chegar ao cimo.
Depois de muitas vezes a seguir caminhos diferentes e a acabar exactamente no mesmo local de onde tinha iniciado a viagem, Vatra decidiu que aquela era uma terra estranha e sentiu-se aprisionada, sufocada até, embora, se lhe perguntassem, ela apenas descreveria uma dor no peito, pois não sabia o que era uma prisão. A pobre criança percebeu, sem perceber realmente, que a sua terra era redonda, e que isso significava que mais tarde ou mais cedo, ia ter sempre ao local de partida.
Não era uma terra pequena, longe disso aliás, pois Vatra, quando finalmente decidiu desistir da ideia andar às voltas, já tinha crescido muito. Tinha agora aspecto de uma criança de seis anos, com uma genica fora do comum e uma curiosidade que a levaria muito longe, muito em breve.
Um dia, como qualquer outro antes desse, Vatra, depois de se deliciar numa corrente de magma, percebeu que a densidade do nevoeiro havia diminuído. Do alto do vulcão onde se encontrava, ela conseguiu avistar, no horizonte, uma enorme massa escura a encher o céu. Ela nunca tinha visto algo assim, nem mesmo quando os vulcões rugiam, como feras, expelindo rochas quentes e nuvens espessas e escuras. Vatra tinha a certeza de que aquilo, que ela via no céu, era algo totalmente novo e diferente. Com uma rapidez que já lhe era característica, desceu a colina do vulcão, deslizando como uma fluidez surpreendente. Correndo pelos planaltos e vales, Vatra sorria de orelha a orelha, esperançosa de que, desta vez, encontraria alguém como ela.
Entretanto, Hääl, instalada na sua majestosa poltrona, observava os acontecimentos através de uma enorme massa cristalina, que em tudo se assemelhava a uma bola de cristal, excepto na forma que, bem, não era de uma bola, mas sim de uma espécie de enorme rocha flutuante, onde Vatra era vista como um holograma que se movia da mesma forma que a original.
“Odeio isto. Odeio, odeio, odeio!”
Os lábios e dentes já circundavam os dedos, mascando o sabugo das unhas que pareciam apodrecer à medida que o tempo passava.
“Porque é que só a mim em saem os mais activos? Eu quero paz! Paz!”
Hääl nunca gostou muito do seu trabalho, muito menos quando esse trabalho exigia … bem … trabalho.
O humor de Hääl parecia nunca melhorar, e a mulher devia ter mais rugas, se tivéssemos em conta o nível de stress que ela tem acumulado naquele corpo. Uma pena que o patrão não contrate uns massagistas para tirar um pouco do peso daqueles ombros. Se assim fosse, talvez as coisas tivessem sido bem diferentes para Vatra e para os outros também.
Capítulo 03
Vatra não teve de ir muito longe, pois em pouco tempo a espessa massa escura, cobriu mais de metade da terra que ela tão bem conhecia. A massa negra era na verdade uma cadeia de nuvens carregadas de chuva. Vatra nunca havia visto nada semelhante e senti, pela primeira vez, um aperto no peito, mais comummente conhecido como receio.
As grossas e pesadas gotas de chuva embatiam no solo com uma força tal que pareciam quebrá-lo, modificando a sua aparência e textura. O fumo que este violento encontro, entre água e fogo, fazia surgir era mais espesso do que os vapores dos géisers.
Vatra permaneceu ali muito tempo, na fronteira entre o fogo e as águas torrenciais, esperando ver aquela tremenda tempestade acalmar-se, incapaz de se mover para a escuridão que preenchia a terra coberta pela massa negra. Ela observou, com a maior das atenções, como a pouco e pouco o fogo, que até ali ela julgara inapagável, se extinguia a pouco e pouco sob a pressão avassaladora das chuvas torrenciais. Para ela aquele era uma visão fascinante, em tudo mais intensa e viva que o que ela havia presenciado até ali, e os seus olhos vermelhos brilhavam intensamente, focados no fenómeno que tanto medo lhe causava, e ao mesmo tempo a atraía de forma tão avassaladora. Estava tão compenetrada neste ciclo que até quando tinha de dormir, sentia dificuldade em fechar os olhos, por medo de perder um qualquer momento único em todo aquele espectáculo. Ela sabia, no mais íntimo do seu ser, que aquele momento, aquele acontecimento, iria mudar para sempre a terra que ela tão bem conhecia.
Há medida que o tempo ia passando, Vatra tornava-se cada vez mais impaciente. As fortes chuvadas não paravam de cair e eram agora acompanhadas de ventos fortes, que transpunham o limite invisível entre o território “dela” e o outro, onde ela não tinha coragem de se aventurar. O vento frio causava-lhe arrepios e, embora o facto de todos os pêlos do seu corpo se eriçarem lhe causar uma certa curiosidade, ela não gostava da sensação gelada que as rajadas fortes lhe causavam em todo o corpo. Graças à mudança de temperatura, Vatra tinha de se alimentar cada vez com maior frequência, sem nunca se afastar demasiado do local que escolhera para observar a “encenação” que a natureza parecia ter preparado propositadamente para ela.
Por vezes ela parecia ganhar coragem e aproximava-se mais do “outro” território. Várias vezes, com uma lentidão de caracol e tremendo dos pés à cabeça, ela metia a mão por debaixo da chuva. De todas as vezes que o fazia, Vatra gritava no instante em que a primeira gota se assentava na sua pele, recolhendo rapidamente a mão de encontro ao seu corpo. Ela não percebia porquê, mas sabia que a água, aquela coisa líquida que saía da massa negra no céu, a magoava muito e deixava a sua pele tão dura como a mais seca das planícies que ela já vira. Como se a água sugasse a vida da sua pele.
Este efeito era, felizmente, apenas temporário. Ela percebeu que bastava alimentar-se bem e a pele rapidamente voltava à sua forma original, rosada, sedosa e muito quente.
Vatra aprendeu, para além de todas as maravilhas da natureza que presenciou, a ter paciência, e aprendeu também que esse não era o seu ponto forte. Frequentemente ela dava pesadas passadas, á volta da orla da tempestade, esperando ver uma entrada, uma falha na tempestade, suficientemente larga para ela poder passar, só para que pudesse ver a terra que ela sabia estar tão diferente do que ela conhecera. Afinal bastava olhar à sua volta.
Ao fim do que pareceu ser uma eternidade, finalmente a tempestade começou a diminuir de intensidade. Ela demorou algum tempo a notá-lo, já que a observava todos os dias e só depois de algum tempo é que percebeu a mudança gradual. Isto deu um novo alento à sua esperança e a sua excitação tornou-se cada vez mais perceptível. Por isso, não foi surpresa, que assim que a chuva parou totalmente, ela tenha avançado rapidamente para o “outro” território.
Divertiu-se a seguir a massa negra, que regredia rapidamente, até finalmente desaparecer por completo do céu. Como a criança que era, Vatra perseguia as nuvens numa corrida desenfreada, sem nunca se atrever a colocar-se debaixo de uma delas já que sabia que se iria molhar se o fizesse. Era o jogo da apanha, sem nunca na verdade chegar à parte do “apanha”
Ao seguir o percurso das nuvens, que encolhiam com uma rapidez formidável, Vatra pôde observar a paisagem à sua volta. Os vulcões haviam, deixado de exalar calor. A terra, anteriormente quebrada e partida, estava agora feita em areia, algo que ela descobriu ser muito confortável para a sola dos seus pés.
Vatra não foi muito longe na sua perseguição às nuvens, pois a dada altura deparou-se com algo totalmente novo. Ela não sabia o que aquilo era ao certo. Para ela aquele era uma espécie de depósito para toda a água que as nuvens tinham despejado. Parecia-lhe ser aquela a explicação para o facto de as nuvens terem desaparecido tão depressa quanto haviam surgido. Tinha-lhes sido “sugada” toda a água e elas já não mais tinham que dar à terra.
Na verdade, o que estava à frente dela era um majestoso oceano, com as águas azuis e violentas.
Vatra ficou hipnotizada a observar a luta das águas. O vento soprava forte, mas já não a incomodava tanto como anteriormente, pois este vento tinha um cheiro diferente e a pele não se lhe eriçava. Era o cheiro a maresia, um cheiro que a relaxava mas também a alertava para as impiedosas águas .
De tão focada que estava no mar, demorou algum tempo a perceber que algo mais estava diferente. Quando finalmente olhou para cima, pôde ver, pela primeira vez, o céu que até ali estivera sempre encoberto pela neblina dos vulcões e gases. O azul do céu era ainda mais vivaz e límpido que o do mar e ela ficou fascinada pela sua beleza, e mais ainda pela sua calma. Ao contrário do mar, que parecia revoltado, o céu convidava ao contrário.
Completamente hipnotizada pelas profundas mudanças que a sua terra havia sofrido, Vatra deitou-se de costas na areia, enquanto mantinha os olhos fixos no céu, escutando o som das ondas e apreciando o cheiro do mar. Ali ficou muito tempo, até que a fome se assentou e ela sentiu o estômago comprimido, assustando-se quando um som estranho saiu de dentro de si, anunciando que a hora de cear já há muito tinha passado. Ela olhou curiosa para a sua barriga, tentando perceber porque aquele som tinha saído dali e não da sua garganta, de onde normalmente saiam todos os sons fortes. Quando o som se repetiu, ela ficou ainda mais intrigada, especialmente porque era acompanhado de uma sensação de compressão no estômago. Ela sabia que tinha de comer, mas ao princípio não conseguiu fazer a associação entre as duas coisas. Afinal ninguém lhe tinha explicado que a comida viajava até ao estômago e que se este estivesse vazio muito tempo, isso lhe causaria dor e desconforto. Esta foi a primeira vez que ela percebeu que comer era essencial, pois até ali ela simplesmente havia-se limitado a comer em intervalos regulares, sem nunca pensar muito nisso. Agora sabia que tal não só era um hábito que sabia bem, como era imprescindível.
Sem grande vontade, abandonou a praia e correu até ao seu território. A viagem foi relativamente curta e ela empanturrou-se na primeira corrente de lava que encontrou, não conseguindo conter a sua vontade de regressar ao areal e relaxar um pouco mais na nova terra.
Os seus pés, calejados de tanto terem trilhado terrenos desnivelados e rochosos, pareceram flutuar quando voltaram a encontra-se com areia grossa, e depois progressivamente mais fina, da praia.
O sorriso que preenchia o seu rosto de bochecha a bochecha, era um diferente de todos os outros que ela alguma vez esboçara. Um verdadeiro sorriso de alegria, descoberta e, acima de tudo, esperança. No seu íntimo ela sabia que aquela não era apenas uma mudança no terreno, mas também na sua vida, ela só não percebia até que ponto essa mudança seria radical.
Capítulo 04
Quando se preparava para se deitar novamente na areia, Vatra olhou de relance para o mar agitado. Ela percebeu as semelhanças entre aquele oceano e os vulcões. Ambos agitados, furiosos e imprevisíveis, mas tão diferentes um do outro como as cores que os distinguiam.
Foi ao concentrar-se no movimento disforme das ondas que ela reparou em algo que se misturava tão bem com as águas, mas que ao mesmo tempo parecia não pertencer totalmente ali. Estava muito longe da costa e Vatra teve de se concentrar bastante para perceber que aquela coisa era na verdade uma coisa significante. Ela observou-o curiosa, tentando perceber o certo que era, enquanto a pouco e pouco começou a ter umas sensações estranhas no estômago, desconfortante mas um tanto ou quanto agradável. Era a expectativa e a esperança, a darem sinal de vida uma vez mais.
À medida que as torrentes traziam a coisa para mais perto da costa, ela percebeu o que aquilo era. O seu coração pareceu pular do peito, mas Vatra não ficou curiosa quanto a este novo facto corporal, pois estava demasiado centrada no bebé, embalado pelas correntes. Ela podia nunca ter visto um bebé, ou sequer outro ser humano, mas no mais íntimo de si sabia que aquela era uma criatura sua semelhante. Tudo aquilo que ela buscara todo aquele tempo, desde o momento em que começara a percorrer a terra.
Ela esperou que a dança das águas trouxesse o bebé até à costa.
E esperou.
E esperou.
E desesperou.
A criança tanto viajava para a frente, como as águas tornavam a empurrá-la para trás, negando-se a entregá-la a Vatra que a aguardava ansiosamente, e começava a recear pela segurança do bebé. Afinal, se a água a magoava e aquela criança era sua semelhante, não seria também lógico que água ferisse o recém-nascido?
Vatra começava a ficar impaciente, dando grandes passadas de um lado para o outro, incapaz de se aventurar nas águas turvas que mantinham o bebé cativo. Ela sabia que tocar na água a iria magoar … muito, mas à medida que o tempo passava e as águas se recusavam a fazer o que a ela lhe parecia ser o mais lógico, ela começava a ponderar seriamente entrar no mar, por mais que a ideia lhe causasse arrepios.
Conjurando toda a sua coragem, Vatra aproximou-se a passos lentos do local onde as ondas beijavam a areia, o frio que emanava da terra húmida causava-lhe arrepios que ela sabia não serem dos nervos. O conforto que a areia seca lhe causava havia desaparecido por completo, para dar lugar a picadas intensas na sola dos pés. A espuma, que desaparecia quando em contacto com a sua pele, parecia impregnara-se nela e tornar cada passo mais doloroso que o anterior. Quando finalmente mergulhou os pés na água, não conseguiu conter o grito que saiu do mais fundo dos seus pulmões. Deu um salto para trás, afastando-se da hedionda e claramente violenta água. Vatra caiu na areia, segurando os pés que agora estavam como rochas duras, rachados como o mais árido dos desertos. Ela massajou os pés, enquanto lágrimas lhe escorriam pelos olhos. Estas lágrimas não eram líquidas, como a água, nem salgadas como o mar, eram antes como magma que escorriam pelo rosto, com a mesma fluidez que verdadeiras lágrimas teriam.
Era a primeira vez que Vatra chorava e, ao sentir aqueles corpos estranho transbordarem dos seus olhos, não conseguiu evitar dar-lhes a sua atenção. Ela limpou as lágrimas com as costas das mãos e teve vontade de ter ali alguém que lhe explicasse o que eram todas aquelas sensações estranhas e porque o seu corpo reagia de diferentes formas a tantas coisas.
Massajando com cuidado os seus pés, ela cedo se apercebeu que, assim como havia acontecido com a chuva, o seu corpo recuperava relativamente depressa do contacto com o mar. Só que isto não solucionava o problema do bebé.
Vatra não sabia o que fazer pois queria, agora mais que nunca, retirar a criança das correntes fortes do oceano, temendo que também ela estivesse a sofrer.
Ela observou atentamente o ciclo das ondas e esperou até que uma mais forte trouxesse a criança o mais perto possível da costa. Com mais coragem do que julgava ter, Vatra correu para a água, enquanto uma enorme onda embatia nos rochedos, transportando a criança para mais junto da praia.
As dores eram descomunais mas Vatra continuou até estar coberta de água até ao pescoço. Com um último esforço, conseguiu agarrar a criança nos seus braços petrificados e, pesarosamente, percorreu o caminho de volta ao areal. Cada passada mais difícil que a anterior. A rapariga, esgotada, caiu assim que se sentiu em terra firma, desmaiando assim que percebeu que a criança estava sã e salva.
A pequena bebé, uma menina de cabelos azuis escuros a fugir para o verde, dormia calmamente, enroscando os seus pequenos dedos nas mãos rochosas de Vatra e chupando o indicador, como se fosse um biberão. Corpo dela estava intacto e reluzia como diamantes sob a luz do sol.
Vatra, só mais tarde saberia que a criança nunca correra riscos dentro de água e que por isso havia dormido tranquilamente todo aquele tempo. Aquela nova menina, numa terra em constante mutação, seria em breve conhecida com Adva.
Capítulo 05
Ao acordar, Vatra sentiu-se com o peso do mundo nas costas. Todo o corpo estava dorido, mas reparou que, ao menos, não estava petrificada. Sentia uma fome apertada e o estômago rugia com a fome. Com os olhos enublados pela dor e cansaço, ela procurou a bebé que retirara das vis águas. Encontrou-a, já acordada, balançando vigorosamente pernas e braços, enquanto continuava agarrada ao dedo indicador de Vatra. Foi nesse momento que Vatra reparou que, esse mesmo dedo, era o único que ainda estava duro como rocha. Ela estranhou, mas pensou que fosse o seu corpo que não tinha as reservas de energia suficientes para se curar e ignorou desta forma o peculiar facto.
Erguendo-se lentamente, enquanto gemia com as dores que lhe laceravam os músculo, o seu dedo deslizou por entre os, muito mais pequenos, da outra criança. Assim que o fez, o seu dedo sarou, lenta mas progressivamente. Ela também não reparou nesse, ainda mais, peculiar facto.
Lutando para se manter de pé, ela abaixou-se a custo para poder pegar na bebé, já que esta ainda não andava. Assim que as suas mãos tocaram na pele de Adva, foi como se pequenas agulhas lhe percorressem as palmas das mãos. Largou a criança, com medo. Aquela era a mesma reacção que o seu corpo tinha em contacto com a água, mas Adva não estava sequer molhada.
Tentou novamente, e uma vez mais foi repelida.
Adva continuava a brincar, agarrando os pés e levando-os à boca, alheia ao turbilhão de sentimentos que atravessava, naquele momento, o coração de Vatra. A criança mais velha manteve as mãos junto ao peito, temendo voltar a tocar na criatura que lhe causava dor, mas ainda assim desejando com todas as forças poder tomar conta dela e tê-la junto de si.
A medo, ela voltou a tentar pegar na bebé. A dor voltou em força, mas ela não se deixou intimidar e encostou o corpo de criança ao seu, sentindo a mesma dor no peito e notando muito mais dificuldade em respirar.
Com um sorriso verdadeiro, mas dorido, ela fixou os olhos azuis da Adva, aconchegando-a ainda mais no seu abraço.
Lentamente, arrastando os pés pela areia, Vatra percorreu o caminho até ao fio de lava mais próximo. Assim que alcançou o fim do areal, Adva começou a chorar. Vatra entrou em pânico, sem perceber o que perturbava a criança. Alita, Vatra examinou-a da cabeça aos pés, tentando descobrir uma qualquer ferida que não tivesse visto anteriormente. Não havia nada. Ela começou a exasperar, soltando lágrimas de frustração, convencida de que Adva estava a chorar porque não gostava dela.
Sem saber o que fazer, Vatra voltou para o areal e assim que o fez o choro da Adva cessou. Sem compreender muito bem porquê, Vatra entendeu que Adva não gostava do seu território.
Ela tinha que se alimentar, sentia o seu corpo implorar por lava e não iria conseguir manter-se de pé muito mais tempo se não respondesse a esse apelo corporal. Com um enorme receio, pousou Adva no areal e, olhando para trás várias vezes, caminhou até ao seu local de eleição para manjar.
Devorando o plasma com uma rapidez e apetite alucinantes, Vatra cedo recuperou as forças e pode voltar, a passo de corrida, para junto da Adva, que entretanto adormecera novamente. Assim que avistou, Vatra soltou um suspiro de alívio e sorriu de orelha a orelha, incapaz de conter a sua felicidade, deitou-se ao lado da bebé e, colocando um dedo indicador entre os da Adva, adormeceu ao lado dela, com um sorriso que não a largou, mesmo depois de acordar.
Nos tempos que se seguiram, Vatra aprendeu muitas coisas curiosas sobre a sua nova companheira. Uma cena particularmente memorável, aconteceu quando, um dia, ela acordou e percebeu que Adva já não estava junto de si. Receosa, ela correu até à costa, onde sabia que Adva gostava de estar mais, apenas para a encontrar, não a rebolar na areia húmida, mas a nadar no oceano.
E como nadava bem.
Completamente histérica, Vatra começou a gritar, sons incoerentes que a sua garganta articulava em suplício. Adva, por sua vez, parecia estar no sétimo céu, nadando como se ali pertencesse, afastando-se cada vez mais da costa, para total desespero da sua mãe quase-adoptiva.
Vatra tentava chamá-la de novo para terra, mas, como não tinham ainda uma linguagem desenvolvida, a criança limitava-se a rir às gargalhadas, achando que a sua guardiã estava a brincar.
Quando Vatra ponderava já aventurar-se nas intempestivas águas do mar, Adva fez algo totalmente novo. Ela bebeu a água do mar. Vatra gritou, pensando que isso era mau sinal, e entrando na água, sentindo cada partícula de água a cortar-lhe a pele. E então Adva nadou até ela, completamente intacta, dir-se-ia mesmo restabelecida.
Vatra, que tinha reparado que a criança parecia mais fraca nos dias anteriores, achou que aquilo era algo semelhante a um milagre. Só quando, tempos depois, Adva voltou a fazer a mesma peripécia, é que Vatra entendeu que aquele era o alimento dela.
Uma alimentava-se do fogo e a outra da água. Foi essa a explicação que Vatra conseguiu para o facto de o contacto dom a menina lhe causar tanta dor e desconforto. Mesmo ciente deste facto, no mínimo especial, Vatra nunca deixou de se preocupar em demasia de cada vez que Adva entrava nas turbulentas águas, e por mais que esta parecesse contente dentro de água.
Adva era um verdadeiro peixe dentro de água, sem as barbatanas ou guelras, mas não menos confortável.
Capítulo 06
Quando Adva já estava mais crescida, como uma criança de três anos e cada vez mais propensa a escapadelas para o oceano, Vatra começou a reparar que algo mudava no horizonte. Ao longe brotavam pequenos pontos verdes na paisagem, que deixaram Vatra novamente curiosa. Ela sabia que o local ainda ficava longe, mas incapaz de conter-se, decidiu viajar até lá para descobrir o que eram as coisas verdes do outro lado do oceano. Antes disso, teve de se alimentar muito bem, pois não podia carregar consigo o magma e temia que do outro lado não houvesse alimento para si. Empanturrou-se o mais que pôde, tanto que sentiu um enorme peso na barriga e teve de parar. Adva riu-se com força, enquanto observou este acto algo cómico.
As duas seguiram pelo areal, contornando o oceano. Não raras vezes, Adva saltou para dentro de água e seguiu a nado, deixando a Vatra só e algo ciumenta. A viagem foi longa, mas nada penosa, já que Vatra ainda conseguiu alimentar-se algumas vezes durante o caminho, graças a um pequeno canal de lava que viajava em paralelo ao oceano.
À medida que se aproximavam, conseguiram perceber que, na verdade, o verde não era assim tão pequeno, eram sim enormes massas que se erguiam acima de outras massas castanhas, mais vulgarmente conhecidas como árvores. Mas, antes mesmo de chegarem perto o suficiente para conseguirem perceber qual a forma exacta das árvores, encontraram algo ainda mais estranho.
Vatra mirou aqueles estranhos corpos verdes que brotavam da terra, de uma forma estranhamente desorganizada, mas ao mesmo tempo coesa. Depois de ter más experiências com a água, ela não pode evitar recear o contacto com mais aquela novidade na terra que em tempo fora sua e que conhecera como a palma da sua mão.
Adva, quase que zombando do medo da sua guardião, atirou-se de cabeça para a relva, rebolando alegremente pelo verdejante e cheiroso planalto, que exalava um odor fresco e primaveril, que nenhuma das duas conhecera até ali.
Vatra não quis dar-se como fraca e avançou, com muita precaução, para o lado mais verde da terra.
Quando a sola do seu pé foi, pela primeira vez, acariciado pela relva, Vatra esboçou um sorriso cómico, que roçava o ridículo, sem perder a alegria claramente nele contida. Ela roçou a planta do pé na erva fresca, antes de avançar com o outro pé para o campo à sua frente, Depois iniciou uma corrida desenfreada, explorando cada nova sensação enquanto os seus pés pareciam flutuar na relva, como sendo massajados por mãos carinhosas.
Imitando a rapariga mais nova, Vatra rebolou também na relva, sentindo as carícias da natureza em todo o seu corpo. Os seus longos cabelos vermelhos pareciam incendiar a plantação, e as duas raparigas deliraram com a sua descoberta, soltando gargalhadas que quebraram o silêncio do local.
De tanto brincar, acabaram por adormecer no prado, deliciando-se com o suave vento que soprava vindo do mar, não muito longe dali. O sono foi curto e Adva foi a primeira a despertar, correndo até Vatra e lançando-se para cima dela. Vatra acordou com o ar a ser forçosamente expelido dos seus pulmões. Furiosa, ela iniciou um sermão incompreensível, que não fez mais do que divertir Adva, que achava as caretas dela a coisa mais engraçada do mundo.
Quando finalmente se acalmaram, decidiram que o melhor era mesmo seguirem viagem, se queria alguma vez perceber o que eram as massas verdes que se erguiam altas no horizonte.
Adva voltou para o ma, mas Vatra recusou-se a retirar os pés da relva, nunca perdendo de vista a sua irrequieta companheira.
Quando finalmente alcançaram a orla da floresta, com Adva já fora de água, ambas ficaram embasbacadas a estudar as árvores, de diferentes formas, texturas, alturas, larguras e espécies. Vatra ponderou sobre a hipótese de as árvores serem tão ou mais perigosas que o mar. Será que elas se moviam? Será que o contacto com os seus cascos folhas causaria na sua pele uma reacção quase alérgica e potencialmente mortífera? A sua admiração estava dividida entre o fascínio e o terror.
Por seu lado, Adva, que apenas demonstrara medo do fogo, aventurou-se de imediato no desconhecido.
Vatra, aflita, começou a balançar entre um pé e outro, olhando para todos os lados, como que esperando que alguém saltasse de trás de uma qualquer árvore e dissesse “Buh!”, ou simplesmente lhe entregasse Adva novamente. Tomada pela preocupação, ela deixou de hesitar e correu atrás da outra criança, que parecia ser engolida pela densa florestação. Vatra fazia de tudo por tudo para tentar evitar o contacto com as árvores, arbustos, trepadeiras, e demais estranhos corpos verdes que surgiam de todas as direcções, como monstros prestes a devorá-la. Embora, ao sermos sinceros, tenhamos a dizer que ela nunca soube muito bem o que monstros eram, embora a sensação fosse idêntica.
Quando ela pensava estar quase a apanhar a Adva, esta fazia uma viragem brusca e Vatra voltava a perdê-la de vista. Os gritos de ambas, se bem que por motivos totalmente opostos, perdiam-se no emaranhado de verdes e castanhos que povoavam o local.
Vatra esticava os braços, mas logo os puxava de volta ao seu corpo e baixava a cabeça, evitando, por sorte, um gano que parecia ter surgido do nada. A floresta parecia-lhe, cada vez mais, um local perigoso e obscuro. Nem os raios de sol que furavam por entre a densa folhagem, criando uma paisagem de cortar o fôlego, conseguiu apaziguar o coração dela que batia freneticamente.
Para se esquivar de mais um emaranhado de ramos, Vatra voltou-se e quase perdeu o equilíbrio. Na sua luta para se manter de pé, ela acabou abraçada ao tronco de uma árvore.
Com um grito estridente, ela afastou-se do tronco e sacudiu o seu peito exposto, tentando perceber qual o grau de dor e os ferimentos que, certamente, o contacto com aquela estranha forma de vida lhe havia causado.
Para sua total surpresa, não havia nada, á excepção de uns pequenos arranhões. Tentando confirmar o que se passara, Vatra colocou uma mão na casca da árvore. O contacto parecia-lhe estranho, pois nunca tinha tocado nada com aquela textura, mas a sua pele não reagiu de forma defensiva e ela permaneceu intacta.
Respirando de alívio, ela sentiu o seu coração acalmar, enquanto sorria.
Quando estava já relaxada, deu-se conta que tinha perdido de vista a criança que trouxera consigo. Em pânico, iniciou uma busca frenética, acompanhada de gritos aleatórios, tentando chamar a atenção da Adva.
Desorientada e quase cega de preocupação, Vatra avançou aos tropeções pelo terreno. O seu corpo ficou coberto de arranhões e pisaduras, mas nada disso a deteve.
Ela tropeçou e caiu de cara no chão, batendo com o queixo num tronco enorme e muito duro. Por pouco não perdeu os sentidos, e quando se sentiu capaz, ergueu-se muito devagar, massajando o queixo arranhado e vermelho. À sua frente estava Adva, que analisava alegremente umas flores vermelhas que cresciam no casco de uma enorme árvore.
Esquecendo totalmente a sua dor, Vatra correu até ela, aprisionando-a num abraço caloroso, que deixou a pequena rapariga quase sem ar. Roçando as suas bochechas nas pequenas mas fofas da sua protegida, ela não cabia em si de felicidade. O simples pensamento de poder perder aquela criança, era demasiado doloroso para descrever. Por isso ela sempre se preocupava quando Adva mergulhava no oceano, receando pela vida dela e sabendo que não podia fazer grande coisa para a ajudar, se ela alguma vez precisasse ser salva das impiedosas águas.
Um estranho som interrompeu o momento de reunião.
Ambas olharam para o local. Atrás de delas, envolto em raízes e ervas daninhas, estava um bebé rechonchudo, com a pele quase tão escura como o tronco da árvore cuja raiz ele devorava avidamente.
Capítulo 07
Os olhos da Vatra pareceram iluminar-se, como se tivesse encontrado um grande tesouro. Largou a Adva, que caiu em cima de uns arbustos, fazendo beicinho, por se ver separada do calor da sua protectora, e tendo de conter as lágrimas que ameaçavam sai a qualquer momento.
Vatra pegou no pequeno rapaz e ergueu-o no ar, admirando aquela nova criatura. O seu espanto foi interrompido quando reparou que ele tinha algo, que nem ela nem a Adva possuíam, entre as pernas. Ela examinou cuidadosamente a terceira perna, que ela não percebia muito bem para que servia. O menino ria-se sem contenção enquanto as duas raparigas o estudavam e observavam, tentando descobrir se aquele era um defeito qualquer, ou se elas também tinham algo assim e simplesmente nunca se haviam dado conta. No fim decidiram que não tinha grande importância. Afinal ele parecia um bebé saudável e não seria aquela pequena e algo raquítica terceira perna que iria altera isso ou sequer a felicidade das duas em ter um novo amigo.
Perceberam rapidamente que aquele menino se alimentava maioritariamente de plantas, raízes e demais maravilhas da floresta. Aliás, ele era um guloso como elas não haviam ainda visto, passando quase todo o tempo a comer. As duas tinham muitas vezes de o forçar a parar de comer e ele, diga-se, não achava lá muita piada a isso pois fazia umas caretas, que elas achavam um mimo, enquanto tentava conter as lágrimas. Raramente ele chorava, algo que Vatra achava muito bravo da parte dele.
As duas raparigas, levaram o menino com elas enquanto exploraram o resto da florestação. Haviam centenas, se não mesmo milhares de espécies diferentes. Aliás, arriscaria mesmo dizer que nenhuma árvore era igual a outra, o que tornava tudo muito único e admiravelmente mais belo.
Vatra tinha, entretanto, perdido todo o medo da mais profunda floresta, para dar lugar a um espanto supremo e uma admiração constante. Já para não falar que o seu corpo adorava aquele lugar, as suas texturas, e todos os seus odores. Ali sentia-se quase tão bem como entre os vulcões, e exponencialmente mais confortável que junto ao mar.
Por seu lado, Adva descobriu vários riachos que regavam o interior da mata, ficando a saber que também aí se podia alimentar.
Adva e o pequeno rapaz dão-se bem desde o primeiro momento e não poucas vezes Vatra ficou, muito quieta, a observá-los enquanto brincavam no chão coberto de folhagem caída, ou junto aos riachos, onde a água parecia tão menos ameaçadora e muito mais límpida. Foi também aí que os três descobriram os seus reflexos. Nas águas turvas do oceano, era impossível espelharem-se, mas nos riachos, com a corrente muito mais suave e a água cristalina, Vatra viu, por mero acaso, outra jovem. Radiante, ela saltou para o riacho, a fim de a salvar das águas, apenas para descobrir que ela era a única ali. Foram precisas mais algumas tentativas, e o reflexo dos outros dois, para ela perceber que na verdade estava a ver a sua própria figura. Vatra e Adva foram as que mais ficaram maravilhadas com tudo aquilo, pois o menino era demasiado novo para se interessar nalgo tão trivial, preferindo antes comer.
Quando elas finalmente se cansaram de admirar as suas imagens reflectidas, continuaram a sua viagem, com a menino a ter de ser levado pela Vatra, até que chegaram ao fim da selva. Quando avistaram outro prado coberto de relva fresca, as raparigas foram as primeiras a rebolar no chão. O rapaz, esse ser tão curioso, limitou-se a provar a relva, descobrindo que o sabor até não era mau e devorando tudo o que lhe aparecia à frente.
Os três seguiram caminho rapidamente e Adva, assim que avistou o oceano, saltou para dentro de água, com ganas de não sair de lá tão cedo. Os outros dois continuaram por terra e cedo perceberam que, ao contrário do que esperavam o pardo não ia dar ao território do fogo, mas sim a um conjunto de altas montanhas que Vatra já tinha escaldo anteriormente, quando ainda eram vulcões activos, e não estavam cobertos de branco como agora.
Ela olhou as monumentais cordilheiras e ponderou a ideia de escalar a mais alta de todas e cujo cimo estava encoberto por nuvens. Queria muito fazê-lo, mas para tal teria de deixar as crianças no sopé, pois a subida era demasiado cansativa e não parecia haver alimento para nenhum dos dois pelo caminho. Mesmo para ela, que só comia quando a fome apertava muito e que tinha muita estamina, seria uma proeza arriscada.
Ela olhou para as duas crianças. Uma, nadava alegremente nas águas violentas e a outra dormia, em posição fetal, entre ervas altas. Certamente que poderiam ficar sozinhos o tempo suficiente para ela matar a curiosidade. Pelo menos era nisso que ela queria acreditar.
Vatra reuniu os dois junto a si e tentou explicar-lhes, através de gestos dinâmicos e expressivos, que iria comer e depois subiria a montanha, mas que voltaria rapidamente para estar com os dois.
O que eles viram foi uma rapariga um pouco doida a mover freneticamente os braços e mãos, apontando para as montanhas e fazendo sons estranhos com a boca. Mesmo assim Adva acenou com a cabeça, pois sabia, por experiência, que esse gesto acalmava a doida da sua guardiã e isso significaria que ela podia regressar ao mar mais rapidamente. O facto de nunca perceber verdadeiramente o que a outra lhe tentava dizer, não parecia afligi-la em absoluto.
Vatra observou, com um carinho de mãe, para o mais novo dos membros do grupo, ponderando sobre as consequências de o deixar ali, mas logo se lembrou que ele tinha sobrevivido todo aquele tempo sozinho, e não naquele curto intervalo que ele iria precisar assim tanto dela, por mais que isso lhe causasse uma enorme dor no peito, como se tivesse um buraco fundo e escuro no lugar do coração.
Vatra tomou a sua decisão e partiu até ao território dos vulcões, que ficava depois das primeiras montanhas. Ela empanturrou-se, uma vez mais, de forma a estar preparada, e logo voltou para as colinas, onde seguiu caminho até chegar à mais alta de todas as serras.
Capítulo 08
A viagem até ao cume foi difícil, muito difícil mesmo. As rochas cortavam-lhe as plantas dos pés, o frio arranhava-lhe o interior da garganta, deixando-a rouca, os ventos faziam-na perder o equilíbrio e por várias vezes ela caiu pela encosta abaixo, tendo de subir parte do caminho uma segunda vez. Já para não falar que quanto mais alto estava, mas fraca se sentia, como se atmosfera fosse mais rarefeita no cimo, tornando a escalada ainda mais problemática.
Várias vezes ela pensou em desistir, mas ela tinha uma vontade inabalável de ver como aquele local tinha mudado, desde a sua última visita. Ela queria saber até que ponto as coisas estavam diferentes.
Não!
Ela tinha de saber. Precisava disso para poder continuar. A terra que ela outrora conhecera tão bem, estava agora mudada, transformada, inacessível até. Mas ela, que a tinha tratado como sua, precisava saber quais os limites e até onde ela podia chegar.
As mãos, geladas pela neve e ventos dilacerantes, tinham dificuldades em agarrar as encostas e o seu corpo reagia de uma forma, em tudo, semelhante a quando se aventurar no mar, só que com um pouco de menos intensidade.
Pensou várias vezes voltar para trás, não só pelo frio e pela saúde dos seu corpo, mas porque, quanto mais se afastava, mais receio tinha do que poderia acontecer às crianças.
Será que Adva se iria afogar? Será que o menino iria comer demasiado e arrebentar? Poderia o mar entrar terra adentro e levar consigo o pequenito? Ou será que a Adva iria provar a relva e morrer engasgada?
Tantos cenários horríveis, faziam com que ela ficasse roxa. E não era culpa do gelo. Mas, a força de vontade de conhecer o topo era demasiado grande e ela sabia que voltar para trás, ali, significaria perder tudo o que a levara até ali. Tinha de confiar nas crianças. Se eles tinham sobrevivido até ali sozinhos, também poderiam fazê-lo enquanto ela subia a serra.
Vatra abraçava o seu corpo desnudo, tentando manter-se o mais quente possível, enquanto espirrava compulsivamente, um gesto novo que ela não conhecia ainda. A mucosa parecia-lhe algo de muito nojento e tentou esfregar o nariz na neve, para limpar-se, apenas conseguindo espirrar ainda mais. Com o pingo no nariz, continuou a subida vertiginosa.
A partir de uma certa altitude, não era só a neve que a acompanhava, mas também o nevoeiro, que a impedia de ver mais do que um metro à sua frente. Ela abrandou o passo, com medo de cair por não ver a berma do passadiço improvisado. Isto quando não tinha mesmo de subir usando mãos e pés. Aí então ela quase entrava em desespero. Sempre a espera de ver o cume, mas nunca o alcançando. Segundo os seus, precários, cálculos, ela já devia ter alcançado o cimo, mas este nem À vista se encontrava e o lado mais aventureiro dela começava a esmorecer.
Quando estava prestes a deixar-se cair, com as mãos rochas e já sem poder sentir as extremidades, ela olhou para cima e o seu rosto iluminou-se. O nevoeiro estava menos espesso e ela podia avistar o pico. Com todas as forças que lhe restavam, ela praticamente saltou o caminho que lhe restava, empolgada por, finalmente, chegar à meta.
Deitou-se de costas na cratera do, agora, vulcão adormecido, tentando recuperar o fôlego, enquanto se maravilhava com a beleza do céu acima de si exposto. Dali, o céu parecia ainda mais azul e o sol brilhava com maior intensidade.
Fechou os olhos e desfrutou do ar puro dali de cima, inalando fortemente, para depois expelir o ar vagarosamente. Quando sentiu que tinha já recuperado todas as forças, levantou-se, devagar pois o corpo ainda estava dorido, e aproximou-se da extremidade da cratera. O cenário que viu cortou-lhe a respiração.
Dali conseguia ver todo o território. O do fogo, que preenchia mais de metade do local, do seu lado esquerdo. O mar, escuro mas tão menos ameaçador visto assim, parecia quase um grande lago, enquanto a floresta parecia uma enorme árvore só, rodeada pela mais verde relva, que depois desbocava na areia. Até a restante cordilheira parecia insignificante ao pé da imponência da serra que ela conquistara pela segunda vez.
Com uma mão sobre a testa, protegendo-lhe os olhos dos raios solares, Vatra estudou a paisagem, com a boca aberta e os olhos a brilhar.
Um pequeno toque nas suas pernas. Os pés que estavam fracos da subida. O vento que uivava e a empurrava. Vatra perdeu o equilíbrio e gritou.
Agarrou o que lhe apareceu à frente.
Abriu os olhos. Tinha conseguido agarrar-se à berma da cratera.
Tinha sido quase um milagre.
Puxou-se para cima novamente, lutando contra as dores musculares, os inúmeros arranhões que lhe cobriam o corpo e os pedaços de rocha que se cravavam nas mãos que sustentavam o seu peso.
Quando a cabeça estava já acima das rochas, Vatra viu-o pela primeira vez. O menino, que parecia ter a mesma idade que Adva, olhava-a com um espanto total, tremendo, de medo ou excitação.
Vatra demorou uns segundo a processar o que se passara. O menino, não sabendo como reagir ao vê-la, tinha-lhe tocado nas pernas, já que não chegava mais alto, e ela tinha perdido o balanço por não estar à espera daquele contacto.
Ela puxou o resto do seu corpo para segurança e sentou-se, para poder suportar o seu corpo que tremia. O menino havia-se afastado dela, mas o seu olhar continuava admirado.
Vatra estendeu-lhe uma mão, incapaz de se mover na direcção dele. O menino ficou a olhar para a mão dela, sem saber muito bem o que fazer. Ao fim de uns momentos de dúvida, ele aproximou-se e tocou na mão dela, muito ao de leve. Vatra sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, mas acalmou-se pois não era tão desconfortável como quando tocava na Adva.
A pouco e pouco, ele foi-se aproximando mais, apalpando todo o cumprimento do barco dela, até chegar ao colo, onde ela o pousou levemente e o abraçou. Ele enrijeceu, a princípio, mas depois relaxou nos braços dela. Momentos depois já os dois dormiam, aconchegados um no outro.
Capítulo 09
Vatra, depois de descansar, decide que é altura de voltar para junto dos seus dois protegidos. Incapaz de abandonar o rapaz que tinha encontrado, pega nele ao colo e leva-o consigo montanha abaixo. O rapaz ri-se que nem um louco durante todo o caminho, brincando com os enormes e ondulados cabelos vermelhos dela. Vatra não se sente incomodada com os puxões, porque está habituada a que Adva lhe faça o mesmo enquanto dorme. Quantas vezes ela não tinha acordado para descobrir a pequena traquinas enroscada num emaranhado do seu cabelo, como se fosse um ninho.
Mas, por outro lado, sentiu-se muito incomodada com os constantes beliscões do rapaz, especialmente quando o fazia nos seus peitos. Ela entendia que não era por mal, pois ela também se sentia curiosa com eles, mas os beliscões dele magoavam-na e ela teve, várias vezes, de lhe bater nas mãos para que ele parasse com o assédio. Como os outros dois, este parecia ter um jeitinho especial para fazer beicinho, mas em vez de chorar, preferia rir-se.
Vatra achou que a descida foi muito mais rápida que a subida e não percebeu muito bem o porquê desse facto, mas ainda assim agradeceu quando chegou ao sopé da serra e avistou o prado verde à sua frente e o oceano atrás deste.
Colocou o menino no chão e os dois caminharam até à relva. O menino, futuramente conhecido por Deror, achou imensa graça à relva e principiou um rodopio em forma de corrida, pela pradaria verdejante.
Vatra examinou o local, vasculhou por entre as ervas mais altas, tentando encontrar o pequeno rapaz gordinho que ali havia deixado. Depois do que pareceu ser uma busca eterna, ela falhou em encontrá-lo. Pior do que isso, não havia sinal da Adva, no mar ou em terra.
Ela começou a entrar em pânico. Será que afinal tudo o que imaginara se tornara uma realidade? Teriam os dois morrido? Ou sido levados pelas águas devoradoras? Como iria ela encontrá-los?
Baralhada e sem saber o que fazer, ela começa a correr de um lado para o outro, formando círculos no campo de trigo, enquanto berrava com quanta força tinha, dando asas Às cordas vocais.
Deror observava todo o espectáculo com entusiasmo, batendo palmas e rindo-se, enquanto a imitava e gritava sons semelhantes.
Sentada na sua poltrona, Hääl massajava as têmporas. Assim que a voz irritantemente aguda de Vatra lhe cegou aos ouvidos, ela começou a sentir uma enorme dor de cabeça que ficava pior a cada instante. Com veias a saltarem-lhe da testa. Hääl ergueu-se de um pulo, gritando mais alto do que a aflita Vatra.
“CALA-TE!”
Vatra congelou.
Deror imitou-a.
Os céus trovejaram e feixes luminosos caíram no areal ali ao lado. Os relâmpagos aumentaram de intensidade e caiam cada vez mais perto da Vatra, até que ela não conseguia sequer mover-se sem correr o risco de ser electrocutada.
Um trás do outro, os relâmpagos acertaram nas searas e o fogo tomou conta do planalto. Vatra, que até adorava o fogo, sentia-se aprisionada por aquele fenómeno.
“Sua criaturinha desprezível.”
A voz que surgiu no ar, acompanhada de uma pausa nos relâmpagos, divergiu a atenção dos dois espectadores que quase estavam em estado catatónico.
“È bom que pares de berrar ou eu juro que te enfio uma tempestade em cima, que nunca mais vais esquecer.”
Vatra e Deror olhavam o céu, já que a voz parecia vir do infinito lá contido. Os olhos de ambos brilhavam como as estrelas e demonstravam uma admiração pura e intensa.
Para surpresa dos dois, eles entendiam perfeitamente o que Hääl dizia. Foi este o primeiro contacto que tiveram com a palavra falada.
“Vocês são uns seres insignificantes, por isso comportem-se como tal. Não quero gritarias. Perceberam?”
Os dois balançaram a cabeça, para cima e para baixo, instintivamente sabendo eu essa era a resposta mais adequada.
“Espero bem que sim. Senão vou electrocutar-vos os neurónios, OUVIRAM?”
Eles voltaram a acenar freneticamente.
Hääl remeteu-se ao silêncio, enquanto os dois aguardavam ansiosamente mais ordens.
Depois de longos momentos à espera de mais instruções, perceberam que o sermão tinha terminado e os seus rostos foram invadidos pela desilusão.
Mais calma, Vatra decidiu regressar à floresta, imaginando que o pequeno menino teria regressado ao local onde se sentia mais cómodo. Tinha quase a certeza que Adva estava algures no oceano, nadando até à exaustão, como sempre fazia quando estava com ela.
Só tinha de os procurar. No fim de contas, sabia que tinha reagido de forma imatura e que se tivesse parado para pensar teria chagado àquela conclusão mais cedo.
Era uma questão de tempo e determinação.
Capítulo 10
Não foi preciso procurar muito para os encontrar, porque estavam exactamente onde os imaginara. Enquanto ela e o Deror caminhavam pelo areal, antes de alcançarem a floresta, já tinham avistado a Adva a nadar calmamente nas ondas que chocavam contra as rochas. Como ela conseguia não se machucar no meio daquela corrente, sempre havia sido um mistério para a mais velha das crianças. Adva veio para terra assim que avistou as duas crianças, Deror e Adva, deram-se bem desde o primeiro momento, afinal eram praticamente do mesmo tamanho e pareciam que se sentiam confortáveis juntos.
Vatra deixou-os ficar no areal e embrenhou-se na floresta, querendo encontrar o Ilan rapidamente. Será que ele estava mais gordo? Afinal o rapaz comia que era uma loucura, parecia que vivia só para comer. Quando o encontrou, ele dormia calmamente entre as raízes gigantes de uma das mais altas árvores que ela já tinha visto. Possivelmente a mais antiga de toda a floresta.
Ela sentou-se junto dele e limitou-se a observar o peito dele subir e descer enquanto respirava com calma. Não queria perturbar o sono dele e acariciou-o ao de leve, contente por vê-lo são e salvo. Afinal, tinha entrado em pânico para nada. Os meninos conseguiam tomar bem conta de si mesmos, assim como ela havia feito durante todo o tempo em que a terra havia sido nada mais que um mar de fogo.
As mudanças que ela vira desde então, tornavam tudo mais misterioso, mas ao mesmo tempo mais belo. Ela gostava de saber que não estava só e que havia locais diferentes e até inacessíveis. Ao menos havia algo, algo que ela havia procurado com todas as suas forças até ali, e que agora já tinha. Não iria nunca abandonar as crianças, pois sabia que se os perdesse não voltaria a ser a mesma.
Ilan acordou algum tempo depois, esfregando as pequenas mãos sobre os olhos. Quando viu que Vatra estava a seu lado, soltou uma gargalhada e lançou-se nos braços abertos dela, incapaz de conter a sua alegria por vê-la. Vatra sentia o mesmo e abraçou-o com força de encontro a si. Era tão diferente de tocar nas árvores, nas rochas ou mesmo no fogo. A pele das crianças, mesmo a dos outros dois que lhe causavam dor e incómodo, era como um mal necessário. Sentia que precisava daquele contacto mais do que do próprio fogo, para sobreviver. Não sabia explicá-lo, mas era assim que se sentia.
Pegou no menino ao colo e os dois regressaram à praia, onde Adva e Deror brincavam alegremente, correndo e fazendo desenhos na areia com os seus pés e alguns galhos caídos que haviam encontrado na orla da floresta. Os quatro, assim juntos, pareciam quase uma escala de idades. Vatra, a mais velha, estava já com o corpo de uma pré-adolescente, Adva parecia ter cerca de cinco anos e Deror quatro, enquanto Ilan não deveria ter mais de um ano.
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Capítulo 11
O tempo foi passando e os quatro pareciam mais chegados do que nunca. Vatra tinha alguma dificuldade em manter-se bem alimentada porque enquanto os outros tinham o seu “território” ali à beira, ela tinha de viajar bastante só para chegar a um rio de lava. Ou estava no território do Ilan ou no Deror, e detinha sempre de afastar-se deles pois nenhum gostava particularmente do seu território e os três gostavam de ficar juntos.
A pouco e pouco, foram criando uma rotina, para que nenhum nunca ficasse só, Vatra passava a maior parte do seu tempo no com Ilan e Adva ficava com o Deror. Vatra sentia-se triste com isto, mas como também não queria ficar só e o Ilan não se importava muito desta divisão, os quatro acabaram por se habituar à ideia da separação que constante.
Cresceram a olhos visto e sempre que se encontravam achavam algo novo nos seus corpos e nos dos outros. Repararam, cada vez mais, nas diferenças entre as raparigas e os rapazes, embora não fizessem ideia de quão significativas as diferenças eram.
Quando Vatra estava já uma jovem e os outros se preparavam para entrar na fase da adolescência, surgiu na terra um novo elemento, diferente de tudo o resto.
Não era uma mudança na paisagem, mas também não era um humano como os quatro, era antes sim um animal, coisa que eles desconheciam até ali. Não era uma animal qualquer. Era uma ave, duas vezes o tamanho da Vatra, cuja plumagem colorida brilhava intensamente sob a luz do sol. Não só este ser os espantou com a sua presença, como inciou uma nova etapa na vida deles, pois este animal sabia exprimir-se por palavras, algo que eles atyé ali julgavam só Hääl poderia fazer, pois embora Vatra tivesse entretanto desenvolvido uma linguagem semi-coerente que os quatro usavam para se comunicar, esta era muito mais desenvolvida.
“Imagino que a minha aparição vos surpreenda e até assuste, mas relaxem que só aqui estou para vos acompanhar. Esta é a maior etapa evolutiva que esta terra terá o prazer de presenciar.”
Os quatro observavam-no, quase como idolatravam Hääl. Não sabiam ao certo que comportamento usar com ele, mas sabiam que deviam respeitá-lo.
“Eu ensinar-vos-ei a falar como eu e acompanhar-vos-ei até ao fim dos meus dias. Mais não posso prometer.”
Hääl, que não se havia manifestado desde a chuva de relâmpagos, observava a cena com caução. Nunca gostara desta fase do processo porque significava um maior conhecimento, iuma maior cumplicidade da parte deles, eles que ela não conseguia odiar mas também não amava como deveria. O aparecimento do animal significava uma viragem total, que culminaria como tantos outros antes terminaram. Ela que tinha, tantas vezes, visto filmes semelhantes, não conseguia deixar de sentir um aperto no coração, pois por mais que não gostavsse deste 2emprego”, também não podia deixar de sentir simpatia pelos pobres coitados que se prestavam ao serviço mais crucial lá em baixo, naquele território tão belo quanto impiedoso.
Ela suspirou, agarrando com força os braços do cadeirão. Agora que eles estavam na fase da adolescência e com a influência do pássaro, iriam começar os nsarilhos e ela teria de fazer uso dos seus poderes e influência para manter o ecossistema intacto tanto tempo quanto possível. Quanto tempo iriam eles durar?
Com a chegada de Raj, o pássaro, que deu nomes a todos eles. Vatra, Adva, Deror e ilan, a vida dos quatro deu uma volta completa. A fala começou a ser usada para a comunicação, sempre. Já não faziam uso de gestos, mas os olhares e as emoções continuavam lá, s+o que agora acompanhados pela fala, que parecia simplificar tanto a comunicação.
Raj ensinou-lhes tudo, desde como chamar as partes do corpo, as plantas, os milhares de espécies de árvores existentes na floresta, as montanhas, o tempo, enfim … tudo.
Até lhes explicou quais as diferenças entre os corpos de mulher e homem, embora nunca chegasse a explicar ao certo qual a funcionalidade destas, pois tinha sido instruído para tal. Mais tarde eles entenderiam porque esse conhecimento não lhes foi dado desde o início. Os quatro continuaram a dividir-se em dois grupos, mas tendiam a juntar-se cada vez mais, para poderem assim partilhar experiências e ficarem todos com Raj, que eles viam como sendo uma espécie de mentor.
Capítulo 12
Vatra desceu a encosta do vulcão, com lava ainda a escorrer discretamente pelo queixo. Parecia saciada. O seu corpo, agora totalmente desenvolvido, movia-se com agilidade por entre as crateras. Ela decidiu relaxar um pouco nas águas termais que existiam um pouco por todo o lado. Avia descoberto este prazer há já muito tempo, mas poucas vezes podia desfrutar verdadeiramente de momentos assim. Agora que as crianças já estavam crescidas, ela sentia-se mais há vontade para os deixar um pouco mais sós. Pois por mais que não se importasse de viajar sempre de um lado para o outro, cansava-se de tanto viajar.
Raj surgiu por entre os amontoados de fumo que se criavam naquele ambiente. Ele parecia envelhecer muito mais rapidamente que qualquer um deles e isso preocupava-os, mas Raj havia-lhes explicado que isso era normal e que este era o compasso de crescimento dele. Não havia nada a fazer em relação a isso. Vatra tinha também reparado que os outros três pareciam envelhecer a um ritmo muito mais acelerado que ela, pois estavam praticamente com aspecto igual ao dela, o que era muito estranho tendo em conta que tinham nascido muito depois dela. Raj sempre se negara a dar-lhes explicações sobre esse fenómeno, dizendo apenas que era natural e que não deviam preocupar-se em demasia com isso.
“Está aqui um calor capaz de me arrancar as penas.”
O humor dele era sempre bem-vindo e ela sorriu carinhosamente.
“Podias então entrar aqui comigo, podia ser que ficasses todo esfolado.”
“Muito engraçada, minha menina. Às vezes acho que não te devia ensinar certas coisas.”
“Não sejas assim. Nós todos gostamos muito de ti e temos muito a agradecer-te.”
“Claro que sim, eu também gosto muito de vocês.”
“Vieste aqui por alguma razão especial?”
Raj fez uma pausa, como que analisando a situação e se deveria ou não fazer o que estava prestes a fazer.
“Acho que devias ir falar com a Adva.”
Vatra olhou-o curiosa, como esperando uma explicação.
“Porquê? Passou-se alguma coisa?”
Ele não olhou nos olhos dela, o que era sempre mau sinal.
“Acho que precisas falar com ela. Ela e o Deror estão a ficar … demasiado próximos.”
Vatra ergueu o sobrolho. Afinal o que queria ele dizer com _”demasiado próximos”. Eles já eram tão próximos como poderiam ser. Praticamente viviam uns em prol dos outros. Como irmãos, inseparáveis.
“Como assim?”
“Se fores ter com ela vais perceber. Se eles não pararem a Hääl vai ficar irritada.”
Raj tinha-lhes explicado que Hääl era o nome da voz que eles tinham ouvido apenas uma única vez, há muito tempo atrás. A voz altiva e furiosa que havia lançado sobre ela os relâmpagos.
“O que é que afinal eles vão fazer de tão mau que mereça castigo.”
Raj virou-lhe costas e abriu as asas, preparando-se para iniciar voo.
“Vai ter com ela.”
Antes que Vatra tivesse oportunidade de o questionar novamente, já ele havia levantado voo. Ele tinha muito o hábito de fugir a assuntos delicados, mas ela ficou preocupada. Afinal tinha experimentado de perto o poder de Hääl e se um daqueles relâmpagos acertasse na Adva ou no Deror, ela não queria sequer imaginar o que poderia acontecer.
Ergueu-se e abandonou o banho. Com a velocidade que lhe era já tão característica, ela percorreu num ápice o seu território, até alcançar novamente a praia.
A Adva não estava à vista e ela imaginou que a encontraria, quase de certeza, perto do Deror. Afinal os dois nunca se separavam por muito tempo.
Apressou novamente o passo enquanto percorreu a orla da praia, até poder avistar as cordilheiras. Quando chegou ao sopé da primeira montanha, parou. A sua respiração estava dificultada pela longa caminhada. Nunca antes tinha corrido tanto em tão pouco tempo e sentia já fome, algo que não era suposto acontecer tão depressa.
Analisou a paisagem, tentando descobrir os dois, mas não via actividade nenhuma, quer no amr, quer nas montanhas.
Começou a gritar nome dos dois, pois agora que já se tratavam por nomes, era muito mais fácil eeles perceberem quando estava alguém à procura deles. Ninguém respondeu, mas ela não se deu por vencida. Embrenhou-se nos vales e procurou todos os locais que conhecia e que sabia que eram mais usados pelos dois.
Começou a ficar preocupada à medida que os locais se começavam a esgotar e ela não via nem sombra dos dois.
Finalmente, quando estava já prestes a voltar para trás e tentar a floresta, ouviu umas vozes atrás de umas rochas. Aproximou-se, com um sorriso nos lábios, preparada para lhes pregar um susto valente e um sermão, por a fazerem andar todo aquele tempo à procura deles, mas quando os viu nem um som escapou por entre os seus lábios.
Os dois estavam deitados, Adva estava de costas no chão e Deror estava por cima dela, com os lábios colados no dela e as mãos, suadas e trémulas, tocavam todo o corpo dela, explorando-a.
Vatra parou de respirar e, por mero instinto, acanhou-se por detrás da rocha, escondendo-se dos olhares deles. A sua face estava rosada e a temperatura do seu corpo subiu. Não sabia porquê mas estava embaraçada por os ter encontrado assim, tão íntimos.
Quando finalmente conseguiu retirar a imagem dos dois da sua cabeça, lembrou-se do que Ra dissera. Est
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