Genre: Mystery & Suspense
About henrybugalho
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Banda Podre
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Receber a notícia da morte dum amigo ou dum parente nunca é fácil, ainda mais quando isto é feito através duma manchete de jornal.
A morte é algo que causa reverência, força-nos a sussurrar pelos cantos, a pôr a mão no peito e lembrar-nos de como o finado era bom. Excetuando ditadores, assassinos e mendigos, todo mundo se torna santo ao morrer. Não é fácil se acostumar com ela, é preciso ver muita gente morrendo, muito cadáver estirado, muito sangue até se tornar insensível ao fim da existência. Infelizmente, posso dizer que, nos anos em que vivi, fui habituado à morte. Vi minha mãe cravar uma machadinha de carne no crânio de meu pai, até a teria ajudado se não fosse um covarde na época, trabalhei em açougue (apesar de que a morte dum boi não nos afeta tanto quanto uma dos nossos pares), vários companheiros de pelotão morreram no Pacífico, e, desde que me tornei detetive, presenciei e protagonizei algumas cenas mórbidas. Elas não me espantam mais, agora que realizo esta rememoração, mas, no tempo em que ocorreram, afetaram-me profundamente e rasgaram e minha alma indeléveis cicatrizes. Mas é melhor não remexer o passado.
Eu e Rose, minha companheira, viajamos para uma ilha, férias auto-impostas, o sol estava maravilhoso e tive a oportunidade de trocar o sobretudo por um calção de banho e me proteger com um chapeuzinho de palha. Tirei fotos sorridentes ao lado de Rose, cozinhando a um calor digno dos trópicos, coquetel com guarda-chuvinhas e ostentando o barrigão branco. Fotos que certamente não terei coragem de mostrar a ninguém. Fui mais rabugento do que deveria, confesso, reclamei do serviço de quarto do hotel e me recusei a dar gorjetas ao mensageiro. Apesar de tudo, foram duas semanas muito agradáveis, nas quais me aproximei ainda mais de Rose, jurando-lhe um piegas “amor para sempre”.
Mas, ao retornarmos para a cidade, fomos saudados pela trágica reportagem:
“Adversário do Crime Organizado é brutalmente assassinado”.
Só a manchete me bastaria para assegurar-me de quem se tratava. Martins, amigo de longa data, era um policial com fama reconhecida — no comando da Divisão de Crime Organizado, havia desbaratado a máfia irlandesa, e estava tendo grandes progressos ao combate a cosa nostra e caçando integrantes das Tongs.
Se eu não o considerasse um indivíduo intocável, por causa da própria fama adquirida, eu teria dado mais importância às freqüentes admoestações dele:
— Vico, um dia me matam.
— Não fale besteiras, Martins, assassiná-lo é o mesmo que declarar a própria sentença de morte. A polícia inteira da cidade iria atrás do miserável.
Mas ele não tinha tanta certeza disto, dizia estar na lista negra de vários chefões das máfias italiana, chinesa, japonesa, entre as gangues de porto-riquenhos e cubanos, e que até membros duma facção de extrema direita, de forte cunho nacionalista o tinha em mau conceito, ou seja, a punhalada poderia vir de várias, segundo a opinião dele.
— Mas, assim, você se tornaria um mártir — eu comentava.
— E eu lá quero ser uma porra dum mártir, Vico? Eu tenho mulher e filhos, quero viver. Faço meu trabalho com toda a dignidade possível, porém não quero ir pra cova.
Obviamente, eu compreendia muito bem o que Martins me dizia, pois sempre desconfiei de idealistas que lutavam até o fim por sonhos imbecis. Não se muda o mundo se ele não quiser ser mudado. Utopias são para babacas que pensam ser possível que todos convivam harmonicamente. Vivemos num inferno, cada um querendo passar por cima do outro, e devemos nos acostumar com isto, senão, você é tragado pelas mandíbulas do mundo.
No entanto, aquela primeira página do jornal me contradizia. Alguém, algum imbecil, havia tido coragem e dado cabo de Martins. Se meu amigo se tornaria um mártir como eu previa, não sei; se a polícia partirá numa caçada para encontrar o assassino (ou os assassinos), disto eu tenho certeza.
Muito sangue vai rolar.
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