Portrait de Veronica Q I Amaral

About the author
Veronica Q I Amaral
Genre: Literary Fiction
35,349 words so far  

About Veronica Q I Amaral

Location: Brasilia

Home Region:
Elsewhere :: Brazil

Age:27

Favorite writers: Fernando Pessoa, Jane Austen, George Orwell, Gabriel Garcia Marques, Guimarães Rosa

Favorite music: Bossa Nova, Samba, Rock & Roll

Non-noveling interests: music

Joined date: octobre 2, 2006

Years done NaNoWriMo:
'06

NaNoWriMo posts: 24

NaNoWriMo buddies: 8

 


Se nenhum outro mérito fosse dado a Ubirajara, ao menos esta distinção ele julgava merecer: era o único Ubirajara, entre os milhares de Ubirajaras do mundo, que havia conseguido evitar, durante seus cinqüenta e tantos anos de vida, ser chamado de Bira.

Esta constatação é fruto da extrapolação de uma pesquisa informal que tem conduzido durante sua vida inteira. Evidentemente que teve como objeto de seu estudo apenas os 6 ou 7 Ubirajaras que atravessaram seu caminho nesta vida, e vendo que nessa amostragem nada menos do que cem por cento deles eram chamados de Bira, sentiu-se justificado em seu isolamento.

Sua esposa Constância estava, como sempre, atrasada. Impaciente olhava uma e outra vez para o relógio de pulso, confirmando novamente que o tempo não havia retrocedido e que, exatamente como há um instante atrás, eles deveriam estar na festa do Estevão há mais ou menos uma hora.

Um barulho no topo da escada fez com que olhasse naquela direção e visse Constância descendo com a vagarosa velocidade imposta pelo salto alto demais. Estava vestida com o previsível conjunto de saia comprida e reta verde escura acompanhada por blusão rendado que por ser da mesma cor fazia o par perfeito da saia. Por conta de alguma que outra pedraria bordada e a nobreza do tecido, o conjunto parecia ser uma versão de gala da roupa que a gente esperaria ver em uma diretora de uma escola de freiras nos passeios feitos aos sábados à tarde. Sabia que ela estava usando o que ela sempre considerou “adequado” para uma mulher de sua idade, embora Ubirajara vez ou outra reparava em mulheres mais velhas do que sua esposa trajando com dignidade vestidos um tanto mais ousados, com decotes e fendas, sem que isso causasse espanto nos transeuntes.

Seguindo o modos operandi do casal, ele elogiou a esposa e recebeu como prêmio por sua postura galante um mecânico “obrigada Ubirajara”. Completadas tais formalidades, entraram no carro e finalmente estavam a caminho da festa em homenagem à promoção de um colega de departamento dele.
A festa era do outro lado da cidade e eles chegaram lá uma meia hora depois de ter saído de casa, mas, para seu espanto, ainda havia gente chegando e teve que esperar o tempo de uma música em uma mini fila de carros que tinham chegado pouco antes e estavam aguardando a atenção dos manobristas.

Como brasileiro deveria saber que o horário do convite é, em verdade, indicativo do horário em que o secador de cabelo deve ser desligado, mas anos e anos de vida de militar haviam criado nele a sensação de que coisas terríveis ocorrem com os impontuais. É bem verdade que socialmente não se deve chegar na hora exata do convite, mas não podemos ignorar que no pequeno mundo em que transitam os militares o mesmo não é verdade. Nas reuniões de trabalho no quartel geral do exército somente os superiores podem chegar atrasados. Dar um chá de cadeira em um superior é uma gafe quase imperdoável.

O atraso seria, portanto, um dos benefícios que acompanham as patentes mais elevadas, que, dependendo do grau hierárquico dos demais convocados à reunião, podem se dar ao luxo de se atrasar um pouco e culpar o ritmo de trabalho imposto e ao peso da responsabilidade depositada nos pluriestrelados. Os de patente inferior somente poderiam assentir com isso e perdoar graciosamente a demora no inicio dos trabalhos. Se tem alguma coisa que o Ubirajara soube fazer com maestria foi ser subalterno.

Compulsivo fazedor de orçamentos, ele ficou imediatamente impressionado com o tamanho da festa e com o dinheiro gasto. Não imaginava que Estevão teria tido a presença de espírito, que dirá o orçamento, para ter serviço de manobrista, iluminação externa farta, uma belíssima mesa de café com petits fours na entrada além de uma decoração que, mesmo para quem ainda estava de fora da casa, era evidentemente cuidadosa e composta por flores frescas.

O capitão Estevão havia sido promovido na quinta-feira a Major, feito que de fato merece algum tipo de comemoração, mas Ubirajara não havia feito nada deste tamanho nem mesmo quando promovido a Coronel, e em algum lugar lá no fundo sentiu que era praticamente um desrespeito extrapolar a festa que Constância havia preparado para ele há 4 anos, quando atingiu sua atual patente.

Este pensamento nem mesmo teve tempo de ganhar palavras em seu consciente porque segundos após sair do carro foi cumprimentado pelo sorridente Major Estevão, que se apressou em dizer o quão satisfeito estava de vê-lo e respeitosamente cumprimentou Constância, que conhecia de uma ou outra função social anterior.

Estevão sempre gostou do Coronel Ubirajara. Conheciam-se havia muito tempo, mas há três anos eles trabalhavam juntos, dentro da Divisão de Aquisições, na Subseção de Eventos, onde autorizavam gastos para eventos realizados pela Aeronáutica. O trabalho era tranqüilo e o Ubirajara mais ainda; o horário do almoço era flexível, o chopp das 5 da tarde na sexta era de Lei, e todas as tarefas passadas eram escrupulosamente anotadas em um quadro mágico (em vermelho as urgentes e em azul as de prioridade média) e apagadas uma vez completadas, evitando o irritante hábito de tantos chefes de cobrar por tarefas que eles se esqueceram de passar.

A hipocondríaca esposa de Estevão, que tantas horas de almoço esticou ao fazer o marido telefonar para o chefe para explicar que “ainda estou na sala de espera do médico” acalmou a sensação de injustiça que Ubirajara relutava em reconhecer: a festa era também em homenagem ao Silva-Moreira, recém promovido a Major-Brigadeiro. Com o mundo fazendo sentido novamente, Ubirajara e sua esposa foram em busca do Silva-Moreira para também dar-lhe os parabéns pela promoção.

Após cumprimentar o novo Major-Brigadeiro, aceitar um copo de uísque do garçom e comer uma casquinha de siri com bastante pimenta, Ubirajara foi à busca dos demais conhecidos que estavam na festa, já separado de sua muleta-esposa que havia partido em busca de conhecidas suas e de cumprimentar a esposa do Silva-Moreira pelo primor da decoração e pela excelência da comida.

Algum tempo depois havia apertado a mão de trocado um dedo de prosa com todos os presentes para com os quais era compelido por educação ou profissão a ter esse gesto e, cansado retrocedeu a um canto do jardim, na esperança de ser totalmente ignorado enquanto terminava seu segundo copo de uísque.

Encostado na mureta que separa o pátio e o cuidado jardim do gramado menos dócil, foi surpreendido pelo súbito cheiro de tabaco, indicativo claro de que não estava sozinho. Desde que havia parado de fumar havia quase 15 anos tinha desenvolvido uma capacidade quase canina de sentir cheiro de cigarro. Sabia, por exemplo, se a pessoa com quem conversava havia fumado na última hora e chegava ao refinamento de reconhecer os fumadores de Marlboro, sua antiga marca predileta. Seu colega de mureta fumava Marlboro.

- Aceita? – perguntou o outro, cuja voz jovem fazia supor tratar-se de um guri de menos de 20 anos. Um olhar em sua direção confirmou a estimativa inicial e Ubirajara se perguntava o rapaz cujas roupas (calça jeans e camiseta Hering branca velha com um furo no ombro esquerdo) tão claramente inadequadas à ocasião estava fazendo ali.

- Eu não fumo.

- Gosto não se discute. - respondeu o jovem.

Deve estar entre as dez coisas mais irritantes da interação social alguém mandar você se acalmar quando você está perfeitamente calmo. Talvez por isso, este pequeno diálogo, cheio de apenas as frases mais batidas do vernáculo, deixou Ubirajara perplexo, e, francamente, um pouco insultado. A frase “gosto não se discute”, pronunciada talvez centenas de vezes por hora por algum integrante da turma do deixa disso parecia estranhamente ofensiva, apesar de sua pacífica origem.

- Não é uma questão de gosto; é uma questão de bom senso! – foi a enfática resposta. Consciente de que havia dado uma resposta desmedida, estendeu à mão em direção ao rapaz e em tom conciliador disse:

- Mas muito obrigado pela oferta. Meu nome é Ubirajara Sousa Martins.

- E você será o primeiro a receber o cartão de visita que minha mãe mandou fazer para mim – disse sorrindo. Buscou por um instante sua carteira no bolso de trás da calça, e, abrindo-a, retirou um cartão que informava: “Eduardo Silva-Moreira. Escritor”

- Ah! Você é filho do Silva-Moreira. Parabéns pela promoção do seu pai.

- Eu quis colocar “romancista”, mas minha mãe vetou. Ela disse que ia parecer que eu sou um cafajeste e que todos devem manter suas namoradas e esposas longe de mim.

Colocando o cartão no bolso de seu paletó, Ubirajara comentou:

- Há muito não vejo um cartão de visitas tão interessante. São sempre militares, advogados, contadores, administradores e por ai vai. Escritor, deve ser o primeiro que encontro.

- Você faz coleção de cartões?

- Não a propósito. Mas eu nunca consigo jogar fora; ficou pensando no trabalho que alguém teve para fazer o cartão, no trabalho que tenho fazendo os meus e fico com pena de me desfazer deles. Guardo quase todos na gaveta da minha mesa do trabalho, mas esse hábito tá mais para superstição do que para coleção. - confessou Ubirajara.

- Acho o meu meio inútil. Diferentemente dos advogados, contadores e afins, quem é que vai precisar de um escritor?

Esta pergunta fez com que Ubirajara parasse para pensar um pouco. Passando um de seus cartões para Eduardo concluiu:

- E quem é que é que vai precisar de um Coronel?

Com inveja via que Eduardo tragava com gosto, momentaneamente absorto pela agradável tarefa de estragar sua saúde consumindo um cigarro. Interrompendo o momento de intimidade entre o rapaz e seu Marlboro, Ubirajara continuou:

- Desde que aprendi a escrever na escola eu tenho uma pequena fantasia: um dia alguém iria escrever uma biografia minha e eu ia doar algumas cópias para a biblioteca da minha escola. E não é daquelas coisas de criança que depois passa; até hoje eu quero ver uma biografia minha publicada.

- Tamos ai! - respondeu Eduardo, com inesperado entusiasmo.

Nesse momento a mãe do rapaz apareceu para, orgulhosamente, contar ao seu convidado que o Eduardo se formaria pela UnB no final daquele ano, dali a 8 meses. A postura do filho deixava claro que ele estava com vergonha, mas a mãe não queria nem saber e continuou ignorando as silenciosas suplicas por uma troca de assunto. Em minutos Ubirajara soube que ele era o segundo melhor da turma, que estava se formando em literatura e que ele seria em breve um escritor digno de ingressar na Academia Brasileira de Letras ou um professor universitário, o que viesse primeiro.

Pouco depois Constância juntou-se ao pequeno grupo e com alívio Ubirajara notou que sua participação nesta festa estava prestes a ser encerrada. Despediram-se dos anfitriões, trocaram abraços com os felizes promovidos e saíram. Costância notou, com um pouco de tristeza, que escolhera sair no exato momento em que a pista de dança estava ficando mais concorrida. Suspirou porque havia muito não dançava e tudo levava a crer que não dançaria no futuro próximo.

Veronica Q I Amaral's Writing Buddies

cincan Winner!
51,788 / 50,000
ladysusan Winner!
51,859 / 50,000
ellegreen
0 / 50,000
just_peachy
0 / 50,000
engelein Winner!
73,137 / 50,000
d.mosthenes
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Hartabound
0 / 50,000
Driochtor
0 / 50,000




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