Portrait de wrbcosta

About the author
wrbcosta
Novel: Amnésia Express
Genre: Science Fiction
23,336 words so far  

About wrbcosta

Location: Campinas, Brazil

Home Region:
Elsewhere :: Brazil

Age:22

Website: http://umlobonaporta.blogspot.com/

Favorite novels: Musashi, Crime and Punishment, Valis, From Hell, Hitchhiker's Guide to the Galaxy (all of them), The Black Dahlia, Blood Meridian, Grande Sertão: Veredas

Favorite writers: Dostoievski, Philip K. Dick, Cormac McCarthy, Dashiell Hammett

Non-noveling interests: Time-traveling mostly

Joined: octobre 25, 2007

This Year: Official Participant

NaNoWriMo History:
'07

NaNoWriMo posts: 57

NaNoWriMo buddies: 3

 

Brief Author Bio:

Dessa vez ganho eu ou a preguiça?

Synopsis: Amnésia Express

Sobre pessoas vivendo à beira da sociedade, da sanidade e da morte, em um futuro onde a tecnologia permite a construção de fantasias, sonhos e pesadelos. Onde o certo e o errado se confundem facilmente.

Um trecho do segundo capítulo (sem muita edição, ignorem os erros):

Excerpt: Amnésia Express

Capítulo 2 – Era uma vez em...

Antes de fechar os olhos, afogando-se pouco a pouco na água fria da banheira, Joe deixa escorregar as mãos das beiradas lisas de porcelana e despede-se do neon insistente do outro lado da cortina. Silêncio. Uma última bolha de ar sobe cambaleante até a superfície e lá estoura.

- Olá, Joe, diz o homem do outro lado, recortado contra o fundo branco e vazio do interespaço em um fino terno listrado francês, sentado em uma cadeira de vime, a tomar café fumando um cigarro despreocupado sobre uma mesa de ferro na forma de mulher com um tampão de vidro a carregar acima de sua cabeça negra e férrea. Demorou alguns microssegundos para que a paisagem carregasse e logo estavam nas calçadas de Paris, sentados na varanda do Le café Noir, de frente para uma praça com densas nogueiras e turistas empolgados e a Nova Torre Eiffel despontando alta demais contra o céu rosado do fim de tarde.

Joe puxou uma cadeira para si, no lado do oposto de onde o homem no terno listrado estava sentado. Joe pensou em um Irish Coffee e ele apareceu à sua frente, junto a um maço de cigarros Catch A Fire sem filtros. Havia música ambiente tocando através de seus circuitos cerebrais, algum jazz antigo, reproduzido como se tocasse em um vitrola de 78 rpm, a voz tipicamente francesa de uma mulher cantava.

O homem do outro lado da mesa abaixou o jornal que estava lendo e este desapareceu. Seu rosto comprido - com as linhas secas e retas comum aos tipos masculinos do oeste americano no final do século 19 - pertencia a um ator falecido há algumas décadas. Possuía um fino bigode tipicamente mexicano.

- Olá, Joe, diz a imitação.

- Conrad. Joe respondeu, já sabendo o que viria depois.
Conrad era o seu agente. Um advogado que resolveu juntar-se aos clientes e começar seu serviço clandestino de assassinatos de aluguel. Sua prática conhecida entre os altos escalões da política e da economia do direito internacional, lhe renderam os contatos certos para que sempre tivesse negócios e a fonte de onde recrutar seus operantes, como ele os chamava.

- Tenho um trabalho para você.

Algo no cérebro de Joe clicou, como se um bloco de dados se encaixasse em algum lugar no seu cérebro para logo depois desvanecer, dentre os nomes de todas as cidades do mundo, um surgiu de repente em sua cabeça para tão logo sumir. Tempo curto o suficiente para que ele registrasse o pavor associado ao nome antes mesmo que registrasse o nome. Com sua sorte, pensava com ironia, seria o mesmo nome que surgiria do bigode mexicano em alguns instantes.

- São Paulo, Brasil.

Conrad esticou o braço através da mesa e entregou às mãos de Joe um envelope pardo que logo desapareceu. Um bloco de informação alojou-se em seu hard-drive adjunto, interferindo por alguns segundos com sua simulação sensorial daquela reunião. Todas as cores, por um instante, inverteram-se. Merda de link barato, pensava Joe. Por quê que ele tem que usar essa coisa se não consegue nem mesmo pagar um link decente. Transmissões de sinais de simulação sensorial, simso, utilizavam uma grande banda do link de transmissão disponibilizado pelas empresas de telecomunicações, e eram monitoradas com rigor por órgãos de vigilância do governo. O que não impedia que alguém pirateasse o sinal, o que alguém sempre fazia, senão por motivos obscuros e pessoais, pelo menos para ganhar algum dinheiro. Ainda que fossem ilegais, requeressem uma alta quantia de dinheiro e mão-de-obra intelectual, as simhouses se profileravam em todo grande centro urbano, sua maioria controlada com dinheiro de crime organizado, ou financiada através de fundos fantasmas de grandes companhias ou até mesmo de membros do governo ou tudo de uma só vez, que era o que terminava acontecendo, de uma maneira ou de outra. Conrad utilizava para se comunicar com ele um link pirata de um satélite coreano renegado, comprado da máfia japonesa. Não conseguiam usá-lo por mais que dois minutos sem que ele caísse.

- A primeira metade do pagamento já foi transferida para sua conta. Bem como toda a informação que você precisa, e o código da linha de crédito que usará para as despesas. Bem, acho que é isso.

Não havia nem tempo para que ele pudesse terminar seu cigarro

- Não precisa ir agora, você ainda pode ficar aí mais dois dias, se quiser.

- Não tem mais importância, respondeu Joe secamente.

Em fração de centésimos de segundos, a paisagem sumiu, a música de fundo evaporou, desapareceram as pessoas, a mesa, o cigarro, as bebidas, as cadeiras, o bigode dos anos 30, e por fim, tudo. Da brancura vazia do interespaço ao negrume de algo mais vazio ainda, durante o instante quase que imperceptível em que o sinal de simso é cortado de sua alimentação e o cérebro ainda não registrou o mundo real do lado de fora propriamente. E então você está imerso em uma banheira de água fria. Infinitos choques elétricos formigando seus sentidos de volta à vida. Apenas o eco de sua respiração na máscara de oxigênio.

Haviam outras cinco banheiras iguais à sua dispostas ao redor da sala. Em todas elas, unidades de processamento Ijio trabalhavam toneladas de informações em seu suave e quase zen murmurar constante e baixo. Cabos transbordavam para o chão e fibras óticas enroscavam-se por debaixo do chão, nas fundações do edifício e juntavam-se ao emaranhado subterrâneo da cidade. Corpos humanos inertes imersos em água não possuíam expressão. Às vezes um músculo tremia, ou um sorriso podia ser visto. Perdidos em fantasias eletrônicas, fazendo amor com seus pares distantes, reais ou imaginários, ou em reuniões secretas, tomando os nomes de alvos a serem eliminados. Mas esse era apenas o meu caso, pensou Joe.

O técnico ajoelhou-se ao lado da banheira enquanto Joe colocava seu corpo para fora, desconectando as agulhas enfiadas ao longo de sua espinha. Sempre demorava um pouco para que seu fôlego voltasse ao normal. De início as puxadas de ar não pareciam ser o suficiente, o cérebro mal oxigenado teimava em dar voltas ao redor de si, mas bastava que fechasse os olhos que, ao abri-los novamente, tudo voltaria ao normal.

O técnico voltou à sua cadeira, sentou-se em frente ao terminal portátil da IBM, e conectou no fundo da orelha um cabo que transmitia vídeos pornográficos diretamente ao seu olho esquerdo.

Quando Joe abriu novamente os olhos, o silêncio da sala o sufocou, o frio, o zumbido morto dos computadores, a sensação de estar numa sala com fantasmas.

Com a cabeça ainda distante da realidade, ele saiu da banheira e caminhou trêmulo até o outro lado da sala, enrolou-se em um roupão aquecido e entrou no vestiário. Não havia mais ninguém ali, ele deixou-se ficar por bastante tempo embaixo do chuveiro, cada gota de água quente descia pelo corpo justamente quando seus sentidos pareciam voltar completamente à vida. Enxugou-se embaixo do vaporizador e caminhou em um novo roupão até os armários. Passou o polegar sobre o pequeno leitor Yosaka e a porta abriu-se com um estalo. Puxou o cabide para fora e vestiu o seu conjunto de calça e casaco térmicos da Honda por cima de uma camisa do Led Zeppelin. Abriu uma gaveta na parte de baixo e calçou seu tênis bota. De uma gaveta menor tirou o relógio de titânio da Swiss-Army, um discreto canivete, seu pad e a pequena Smith & Wesson de acabamento em carbono leve com seis cartuchos preso a um coldre que amarrou em volta da canela. E saiu, pensativo.

São Paulo. Faz agora 16 anos que saí de lá. Era apenas um garoto de 10 anos entre os outros tantos de um lar de adoção. Um programa do governo em convênio com instituições de ensino não lucrativas da Liga Européia o enviou para Londres para que pudesse estudar e ser alguém na vida, não só mais uma estatística. Um bom trabalho eles fizeram, pensa Joe irônico, caminhando através dos largos e empoeirados corredores da simhouse, paredes de pedra e tábuas no assoalho que pareciam estar ali a mais de um século e que ainda permaneceriam ali por uns bons anos. Imensos salões feitos para abrigar a nobreza de tempos passados e suas indulgências, agora comportavam máquinas e fios ligados a mentes desconectadas de suas respectivas realidades, presas em paraísos eletrônicos ilusórios. A simhouse ocupava um dos andares do enorme casarão abandonado. Os outros davam abrigo a desabrigados, artistas falidos, traficantes de drogas, mercado negro, grêmios raivosos de faculdades desmanteladas, prostitutas e cafetões. O tipo de lugar em que Joe transitava com facilidade. Agora voltaria para casa. Casa, pensou ele. Eu não tenho casa.

Enquanto andava pelos corredores, vasculhando a dúzia de bolsos do casaco tentando lembrar-se em qual deles pusera os cigarros, percebeu que não lembrava em que cidade estava. Efeito colateral do sinal simso barato em seus neurônios. Achou um maço amarrotado de Firenzes no bolso ao longo da manga esquerda. Acendeu com um velho Zippo bem arranhado, preto carbono, com um dragão traçado em curvas brancas e finas na lataria. Assim como ele, outros pares de olhos perdidos, com miolos recém fritos atrás deles, também perambulavam pelos corredores, em meio a seguranças armados com AR15’s modificadas, com câmara de gás comprimido e miras xenon customizadas. As caras duras e enfezadas, como se esculpidas em pedras, o distinto ar militar, as expressões de poucos amigos: não havia dúvidas, esses caras eram ex-KGB. Estou em Moscou, lembrou-se de repente Joe. Moscou. Moscou. Cabelos loiros. Meias compridas vermelhas e listradas. Lembrou-se do gosto dela, do cheiro de seu cabelo e das palavras sussurradas à noite em seu ouvido, antes de lembrar do nome; a razão pela qual sentia aquele incômodo desde que se desplugara do simpod: Vixie.

A praça em frente ao casarão se assemelhava agora a um enorme palco vivo de cores, sons, texturas e etnias as mais diversas. Comemoravam naquele dia algum santo católico que Joe não lembrava e também não fazia esforço para tanto. Era o dia onde todos os vagabundos daquele lado de Moscou se reuniam para beber, se divertir, ficarem chapados, transarem embaixo dos bancos, venderem seu artesanato, fazer música, pinturas vivas em tinta digital caseira e pequenos bonecos de porcelana com esqueletos de velhas placas de circuitos. A praça era enorme e rodeada de prédios antigos e velhos casarões, com as torres negras dos projetos residenciais no horizonte. Haviam fogueiras espalhadas por todo lugar, com gargalhadas ao seu redor e histórias sendo contadas, relembradas e esquecidas.

Joe encostou-se em um dos pilares na escadaria na porta do casarão de onde saíra e acendeu um novo cigarro. Lembrou-se do cantil marroquino com acabamentos de marfim que ganhara em um trabalho na Nova Zelândia e encontrou uísque em um bolso interno junto às costelas. Não era um uísque muito bom, mas era uísque, e a noite estava fria, e as ruas calcadas em neve, e a bebida amarga esquentava seus ossos. Ele a viu a alguns metros de onde estava, esfregando uma mão na outra acima das chamas que saiam da boca de um tonel, embaixo de um poste. Seu rosto branco brilhando irreal sob a luz fosforescente. Estava com seus colegas da faculdade. Ela estudava história em uma das faculdades comunitárias do governo, estava no último ano e saia com Joe há uns 3 meses. Ela achava que ele estava na cidade para estudar a literatura russa do final do século 19 e que seu nome era Alain Avnet e que existia a possibilidade de que viessem a morar juntos no próximo ano.

Vixie usava um par de meias vermelhas e listradas de perna comprida em lã sintética, feito por sua falecida avó, e que ela quase nunca tirava. Quando acordava pela manhã tinha que se olhar no espelho e tocar o próprio rosto algumas vezes para ter certeza de que estava viva e aquilo não era um sonho e então poderia começar o seu dia. Vixie pintava cada unha sua de uma cor diferente, revezadas toda semana. Só ouvia rock dançando e sonhava em um dia escrever a batalha de Stalingrado em um poema.

Joe não gostava de despedidas. Por causa de seu trabalho estava sempre viajando de um lado para outro. Havia alguns anos que não possuía residência fixa. Apenas uma conta bancária e maletas guardadas em aeroportos ao redor do mundo. E um passe para albergues, obtido através de uma carteira de estudante falsificada.

Ele a conheceu depois de um trabalho na Eslováquia. Ela estava lá para as raves. Os dois se conheceram uma noite e, coincidentemente, estavam indo para Moscou no mesmo avião uma semana depois. Joe decidiu que tiraria um tempo de folga de seu trabalho. Um mês depois começaram a namorar. Quatro meses depois ele foi embora.

Relacionamentos não são seguros. Não quando você é um matador de aluguel. Relacionamentos significam baixar a guarda, descuidar-se, exigem confiança. Artigos dos quais Joe não pode abrir mão pelo bem de sua própria sobrevivência. Ele sabia que teria que acabar. Todos acabam. Essa não era a primeira vez, nem seria a última. Eles voltariam para casa, bêbados e cheios de pílulas na cabeça e transariam pela última vez. No pequeno apartamento dela, os lençóis com perfume de alfazema e cigarros, suas coxas brancas e macias enroladas em mim, seus lábios apertados fortes contra o meu, protegidos um no outro contra o frio e a escuridão lá fora. No dia seguinte ela acorda com uma dor de cabeça do tamanho do cu do mundo e estica o braço preguiçoso por baixo dos lençóis e encontra o outro lado da cama vazio e gelado. Ele terá partido para sempre de sua vida e ela estará sozinha, sem ao menos uma carta de despedida.

Esses pensamentos lhe ocorrem entre duas tragadas de seu cigarro. A longo prazo, ele pensa, não faz diferença. Todo mundo esquece, e a vida segue em frente. Ele olha para ela sob o halo de luz branca do poste e seu rosto agora é vazio. Seu sorriso é vazio. Normalmente ele escreveria uma carta, alguma mentira, algum consolo, alguma coisa, mas agora não pensava em nada. Pensava que não havia sentido. Talvez fosse melhor assim, ela esqueceria mais rápido, não teria nada dele para guardar, apenas lembranças que sumiriam com o tempo. Não havia porque continuar ali.

Vixie virou o olhar para a entrada da casa e viu ele parado contra pilastra. Ela sorriu e acenou os braços e ele acenou de volta e também sorriu. Alguém a puxou pela manga do casaco e contou uma piada, e quando ela olhou novamente, ele já não estava mais lá.

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